Sou pró-Palestina. Compreendo e sinto muito pelo sofrimento
dos judeus durante a segunda guerra mundial, mas não acho que isso sirva de
justificativa para expulsar, matar, torturar e prender arbitrariamente dentro
de campos de refugiados um povo cujo único crime foi ocupar uma região (vazia
na época) dita como prometida. Me revolta e me enoja que quem viveu há tão
pouco tempo os efeitos do totalitarismo e do preconceito proceda de maneira
semelhante.
Eu deveria parar de assistir filmes e ler livros que são
bons demais – chegará um momento que todos vão crer que sou muito boazinha no
meu julgamento e perder completamente (se é que esta já existiu) a fé no mesmo.
Infelizmente, isso não é possível, e assisti a um filme que é agora
provavelmente meu preferido sobre a questão palestina (superando os incríveis Paradise Now e Promessas de um novo mundo): Lemon Tree.
Salma Zidane, uma viúva palestina, leva uma vida pacata e
solitária cuidando da plantação de limões no seu quintal. Todos nós temos
nossos símbolos pessoais ou coletivos – coisas que não são somente o que
parecem, e sim parte de nós mesmos, um pedacinho minúsculo e indispensável de
nossas almas. Assim são os limoeiros para Salma: estes foram plantados por seu
pai, sendo a ocupação, fonte de renda e parte da história da família desde
então.
Como é bastante comum na Palestina, a casa de Salma é ao
lado de um assentamento israelense. Para quem não sabe, os assentamentos foram
uma parte importante para a ocupação de Israel na Palestina, e são como vilas
de casinhas bonitas de novas em folha construídas em cima de solo de onde os
palestinos foram expulsos covardemente. Morar ao lado de um assentamento não
lhe causa muitos problemas até a chegada de novos vizinhos: o ministro da
defesa, Israel Navon e sua esposa, Mira.
Decidindo que os limoeiros de Salma representavam um perigo à
integridade física do ministro (um terrorista poderia se aproximar da cerca que
separa a plantação e o assentamento antes que a segurança militar e reforçada da
casa notasse) o serviço secreto ordena que estes sejam removidos.
Não se espera que uma mulher pobre e sozinha no mundo vá
contra a decisão de um estado tirano que subjuga seu povo, mas Salma desobedece
a essa lógica e procura o advogado Ziad Daud, que a ajuda prosseguir com o
processo. A sua coragem logo chama a
atenção de muita gente: a autoridade palestina local, que implora que ela faça
o que seu falecido marido faria, ou seja, não batesse de frente com os israelenses;
a imprensa, que vê na destemida mulher uma ótima história e Mira, esposa do
ministro, que há algum tempo já vem notando os excessos do seu país e entra em
crise ao ter que enfrentá-los diretamente.
O sofrimento de Salma é visível: logo ela é proibida de
sequer tocar em seus limoeiros, e um lampejo de dor quase física passa por seu
rosto a cada fruto que cai podre por falta de cuidados. Não sei se balas ou
bombas a feririam mais do que ver uma parte tão importante da história de sua
família ser destruída, com mínimas possibilidades de defesa.
Pegando algo pequeno – afinal, a destruição da plantação de
Salma será maléfica apenas a ela – Lemon Tree introduz questões maiores, das quais
a mais presente é a impotência dos palestinos perante o “estado” de Israel. Embora o terrorismo continue sendo moralmente reprovavel, é perfeitamente compreensível: é a
única maneira encontrada de se ter voz, de sair da invisibilidade. Paus e
pedras podem mostrar força, mas não competem com fuzis. A atitude de Salma não
foi só inesperada e tida como irracional: foi até mesmo perigosa. Caso a
capacidade de fazer barulho da história de Salma não houvesse sido subestimada,
prende-la sob uma acusação qualquer não seria muito difícil.
Em certo ponto do filme – com um leve tom de ironia – o
ministro Navon diz que Israel estará segura enquanto os palestinos tiverem
esperança. Pois, palestinos, tenham esperança. Tenham, pois só assim um dia não
terão que viver apenas dela.
Nota: 5/5



