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21 abril 2012

Moulin Rouge


Com seus números de cancan megalomaníacos, prostitutas, absinto e drogas, Zidler, dono da casa noturna Moulin Rouge, desafoga a elite parisiense do seu tédio burguês no final do século XIX. Porém, ele e Satine – sua maior e mais bonita estrela – tem planos diferentes para si próprios e para o Moulin Rouge: transformá-lo de um prostíbulo aclamado em um teatro de verdade.

Criar um grande espetáculo – que transmita os ideais boêmios de liberdade e amor acima de tudo – também é o sonho de Toulouse e seus amigos, sendo Satine a sua estrela dos sonhos. Quando seu excêntrico roteirista os deixa, tudo parece acabado, até que Christian (escritor inglês que fugiu de seu pai ultra religioso se mudou para Montmare recentemente) aparece.

No melhor estilo Bandini, Christian alega falta de experiência com o amor e com a vida, não podendo então escrever uma peça genuinamente boêmia. Depois de ser convencido por Toulouse e seus amigos que isto não era um problema, a primeira parte da alegação é logo sanada: ele conhece Satine,  se apaixona perdidamente pela mesma e a usa como musa para sua escrita.

Mas não só de paixão vive a arte: para conseguir um bom espetáculo, dinheiro é necessário – neste caso, o dinheiro do repulsivo e fabulosamente rico duque que, assim como Christian, se rende ao encanto de Satine. Usando seu financiamento ao espetáculo como chantagem, o duque se interpõe entre Satine e Christian.

Amor, ciúmes e obsessão são os temas centrais de Moulin Rouge – e, infelizmente, tenho que dizer que esta parte do filme não foi bastante inovadora. Embora a maravilhosa atuação de Ewan McGregor (Christian) e Nicole Kidman (Satine) seja de grande ajuda, a tragicomédia não conseguiu romper as barreiras do clichê neste aspecto do enredo. Quando Christian despejou sobre Satine pela milésima vez que o amor deles superaria tudo – desde o fato de que ela viraria semi-escrava do duque até a falta de um centavo dos dois –  não pude deixar de me irritar levemente.

Isso é um problema - mas não tão grande assim se comparado ao conjunto da obra. Apropriando-se da linguagem dos videoclipes, Moulin Rouge tem uma edição bastante inovadora, com cortes violentos e cenas inacabadas. Somando-se a isto o abuso das cores na cenografia e o exagero na caracterização, não há um segundo de tédio.

Não gosto de Glee por causa de seu enredo – toda aquela coisa de aceitação na adolescência, embora bonita, me sufoca – mas sou apaixonada por seus medleys* de músicas famosas. Ver aquelas pessoas talentosas interpretando juntas músicas que sei de cor por osmose faz meus olhos brilharem, e sempre estão na parte de cima da minha playlist.  

Como não poderia deixar de ser em um bom musical, foram os medleys que me encantaram em Moulin Rouge. A mistura e modificação de músicas pop – nem sempre reconhecíveis – foi feita de maneira sublime, assim como a sua execução –  quem diria que Obi Wan Kenobi e a Feiticeira saberiam cantar?
Nota: 4/5

10 março 2012

L16 - O perfume


Jean-Baptiste Grenouille poderia ser só uma de várias crianças rejeitadas na Paris do século dezoito. O órfão (sua mãe foi condenada à morte pelo infanticídio de quatro crianças, abandonadas debaixo do balcão de uma peixaria – destino quase compartilhado por Jean-Baptiste) possuía um olfato sobre humano: desde a mais tenra idade ele aprendeu a reconhecer, catalogar e lembrar os mais diferentes tipos de cheiro, mesmo que o sentisse uma vez só; mesmo que ele estivesse a quilômetros de distância; sendo ele bom ou ruim, natural ou não.
E também aprendeu rápido o que as sensações olfativas causavam nas pessoas: com apenas alguns meses de idade, foi rejeitado por uma ama-de-leite, por não possuir cheiro algum – fato considerado demoníaco por uma mulher do século dezoito, sem muita informação e acostumada ao cheiro agradável de vários bebezinhos. Na creche para o qual foi encaminhado, não foi muito diferente: a cuidadora, uma mulher dura e sem olfato, não era atenta o suficiente para perceber as diversas tentativas de assassinato de Grenouille feitas por outras crianças – ele era simplesmente estranho demais para elas. O garoto, contudo, a incomodava: porque ele conseguiria prever a chegada de alguém com minutos de antecedência? Porque ele não tinha medo do escuro como todos os outros?
As interrupções dos pagamentos por parte da ordem religiosa que cuidava de Grenouille dão a esta mulher motivos o suficiente para se livrar dele, deixando-o para morrer como semi-escravo em um cortume. De novo, porém, ele contraria as regras da natureza: ao invés de perecer pelo trabalho duro e insalubre e a pouca comida, ele se torna um empregado valioso, ganhando alguns trocados e até obtendo folgas para andar por aí. Seu interesse, porém, não era bebida ou mulheres como havia de se esperar, e sim sentir todo e cada cheiro existente na cidade-luz.
Bom, embora filmes que retratam tempos tão pretéritos quanto o final do século dezoito insistam em dizer o contrário, a Paris daquela época não é o que consideraríamos, para os padrões modernos, agradável: tudo era sujo e fedido, graças a falta de noções da higiene das pessoas em geral e a inexistência de saneamento básico. Grenouille sabia disto como ninguém, e se prendia à uma brisa de mar como sua melhor lembrança olfativa. Um dia, contudo, isto muda: ao passar por um jardim qualquer, sente o cheiro de uma moça, um cheiro maravilhoso e inebriante. Enlouquecido, enquanto sorve seu aroma ele a assassina, em um gesto de pura paixão – não por aquela moça e por sua beleza, e sim pela sensação olfativa que ela lhe proporcionava. Esse é o pontapé inicial numa busca incessante pelo perfume perfeito, pelo perfume que lhe tornaria o maior alvo, a escolha mais óbvia, o personagem principal de um sentimento nunca antes lhe dispensado – o amor.

As descrições do autor são maravilhosas: focando no cheiro, sentido subestimado e esquecido, ele faz com que as páginas do livro pareçam impregnadas pelos mais diversos aromas, ricamente descritos (o que me lembra Escola dos Sabores, que faz o mesmo com o paladar). Meu mundo olfativo era dividido em três grupos até então – cheiros bons, neutros e ruins – mas O perfume me fez perceber a complexidade e a singela beleza deste sentido. Ele não se fia muito em descrições físicas – não sei a cor dos cabelos ou olhos do personagem principal, por exemplo – mas há algum tempo não me sinto tão “dentro de um livro” como com O perfume.
Cartaz do filme *_*
As páginas também estão inebriadas de paixão: não aquela paixão entre amantes, ou uma paixão saudável por algo que se goste de fazer, mas sim uma paixão doentia por parte de Grenouille pelo aroma perfeito. É a sua única característica que o faz humano: baseado nela, ele mata, morre, sente-se feliz ou triste. A única beleza que conhece é a olfativa; e não sente nojo de nada até que isto se ponha em seu caminho.
Pode-se concluir que o livro é maravilhoso pelos meus comentários acima e realmente é, exceto por uma parte – o final. Embora eu acredite que só este fator não deve dissuadir ninguém de lê-lo, o final é tosco, terrível, já seria bastante deslocado em um livro medíocre, portanto certamente não faz jus a O perfume e o grande livro que ele poderia ser.
Nota: 4/5
Esse post faz parte do Desafio Literário 2012, e o tema deste mês é Serial Killer.