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22 junho 2012

Clockwork prince


Minhas opiniões sobre clichês se contradizem. Sim, a sensação “já vi isso – mais ou menos um milhão de vezes” é péssima, mas clichês não seriam tão largamente usados se não fossem pelo menos um pouquinho bons.

Se as pessoas não gostassem deles.

Não tem aquela coisa meio Bella/Edward/Jacob, de um triângulo amoroso que não pode se concretizar graças a insegurança da mocinha (que é, obviamente, seu único defeito de fato) e falhas imperdoáveis (no caso, respectivamente, vampirismo e licantropia) dos heróis? Pois é: Cassandra Clare, adorada por nove entre dez leitores de YA fantástica, abriu mão desse artifício no segundo livro da sua série As peças infernais (prequel para a mais famosa Os instrumentos mortais), Clockwork Prince.

Em ambas as séries, um submundo sobrenatural existe – e Tessa Gray é parte dele. A garota, contudo, é bastante incomum: ela desconhecia seu poder – o de mudar de forma – antes de se mudar para a Inglaterra e ser “treinada” por uma dupla de feiticeiras que a seqüestrou.  Depois de ser salva de suas sequestradoras, Tessa é acolhida pelos Caçadores das Sombras – uma espécie de polícia desse submundo – do Instituto de Londres. Seu novo lar, contudo, vê-se ameçado.

Desde que assumiu a diretoria do Instituto de Londres, Charlotte encontra resistência por parte dos outros Caçadores das Sombras – não por incompetência, mas por ser mulher – imaginem só: se somos raras em cargos de liderança em 2012, no século XIX, então, o estranhamento era maior ainda.

Pois bem: por ter deixado que o Magister – mundano rico conhecedor das artes mágicas e possuidor de um exército de autômatos (daí o nome da série), que pretende seqüestrar Tessa a fim de usar seu poder – escapasse, Charlotte enfrenta ainda mais oposição. Para que o Instituto não passe para as mãos do detestável Benedict Lightwood, uma missão impossível deve ser cumprida: encontrar o Magister em duas semanas.

O defeito que apontei no primeiro livro, Anjo Mecânico, sumiu – não porque Cassandra Clare matou o personagem Will ou mudou seu comportamento detestável, mas uma justificativa boa o suficiente veio a tona para os leitores. Isto, contudo, deu um tom levemente melodramático ao livro: o típico “ai meu deus, sintam pena de mim” se fez presente. O desconhecimento dessa justificativa por parte de Tessa a faz continuar entre a cruz e a espada: ficar com Will, que alterna momentos de comportamento irascível e ternura contida ou com Jem, que está morrendo – ironicamente, graças a droga que o mantém vivo?

A questão do poder feminino é explorada mais a fundo, não só com Charlotte e sua direção no Instituto, mas também com Tessa vencendo pouco a pouco seu horror a coisas não “femininas” – afinal, como andar com Caçadores das Sombras e não aprender a lutar? Embora o livro não se foque tanto em descrever a Inglaterra Vitoriana como Anjo Mecânico, ainda há algumas pitadas aqui e ali, dando toques especiais as passagens onde esta descrição se faz presente. Os diálogos parecem ser o ponto forte de Cassandra Clare: os músculos do meu rosto se organizavam em um sorriso involuntariamente (juro, eu tentei) toda vez que Will e Tessa conversavam – ambos são loucos por livros, e suas referências e debates sobre os mesmos são fascinantes.

Mesmo me decepcionando um pouco com Clockwork Prince e todo seu açúcar, o mundo que a autora criou é fascinante demais para me fazer não querer esperar até março de 2013 pela continuação. Alguém aí tem uma maquina do tempo sobrando?

Nota: 3/5

23 abril 2012

Anjo mecânico (série As Peças Infernais)


Depois da morte de sua tia (sua única parente viva nos Estados Unidos) a orfã de dezesseis anos Tessa parte para a Inglaterra de 1878 com a esperança de uma nova e melhor vida ao lado de seu amoroso e irresponsável irmão. A recepção que recebe, porém, não é como a esperada: ao invés de ter Nate a esperando no sujíssimo porto britânico, Tessa é recebida pelas Irmãs Sombrias – duas feiticeiras incumbidas de treiná-la para utilizar seu poder (cuja existência Tessa ignorava) a preparando para se casar com alguém desconhecido e bastante poderoso chamado apenas de Magister.

Ao ser resgatada por Will e James, dois Caçadores das Sombras (grupo de pessoas responsável por manter a Lei, evitando choques entre os Habitantes do Submundo e os humanos) Tessa vê que nada é como ela imaginava: todo um mundo sobrenatural se abre a sua frente. Ela não está sozinha ou é uma aberração, mas seu poder é único o suficiente para ser almejado por muitos. Acolhida pela boa Charlotte, diretora do Instituto de Londres (uma espécie de quartel general dos Caçadores das Sombras) ela começa a perceber que nunca reaverá sua vidinha antiga de volta.

Anjo Mecânico é o primeiro livro da série As Peças Infernais, pré-sequencia para  a mundialmente famosa Os Instrumentos Mortais. Confesso que ao começar a ler o primeiro livro desta última série, Cidade dos Ossos, quase desmaiava de sono – por isso, Anjo Mecânico foi uma surpresa muito boa.
A narrativa é frenética – cortes em pontos essenciais, passando de um foco de personagens a outro, fazem com que a leitura flua melhor e largar o livro seja uma tarefa ingrata. As referências a poemas e livros famosos na época não torna a leitura um hipertexto desagradável (como sempre temo ao ver muitas notas de rodapé) e sim enriquecedor.

Não entendo a fascinação que muitos parecem ter pela Inglaterra – na verdade, acho a Terra da Rainha bastante sem graça (salvo o sotaque) se comparada a outros lugares no mesmo continente – mas as descrições de Cassandra Clare da Londres vitoriana são fantasticamente elaboradas, dando um toque bastante especial ao livro. Os costumes também são abordados: Tessa fica bastante chocada com o comportamento de Charlotte – ela usa calças, luta e fala de igual para igual com seu marido Henry.

Faz bastante parte da evolução da protagonista, aliás: no início, Tessa é cheia de não-me-toques, dando demasiada importância ao que era (ou não) esperado de uma dama naquela época. Com o tempo, ela vê que tal comportamento não é adequado a sua nova vida, não servindo ao seu propósito de achar seu irmão.

De forma geral, os personagens são agradáveis, exceto por Will. Sei que arrogância e humor ácido em um par romântico para a mocinha em potencial podem ser transformados em um grande charme – mas Casssandra Clare passou da conta com Will. Usando como justificativa o seu passado desagradável, ele se torna irascível em alguns pontos. A insinuação de um complicadissimo triângulo amoroso entre ele, Tessa e James (que considera Will como seu irmão e é bem mais agradável que o mesmo) também não me agrada muito – talvez seja trauma de Crepúsculo e seus teams. Não gosto de gritinhos de fãs ao assistir adaptações para o cinema – mesmo que, em alguns casos, eu mesma tenha que me controlar para não da-los.

02 abril 2012

Delirium


Acho que todo mundo que gosta de escrever também reflete sobre as palavras e seus significados. Comigo, pelo menos é assim. Eu poderia escrever livros e mais livros sobre o tema – não o faço por preguiça e por saber que o tema seria maçante para a maior parte do mundo, que sabe que as palavras são assim e acabou. Sem grandes filosofares.
Gosto de muitas palavras com um significado ruim; adoro falar algumas só pelo esforço empregado em sua pronúncia ou pelo jeito que ela soa e aquelas que, caso eu mandasse no mundo, usaria para descrever coisas totalmente diferentes das que descrevem hoje.
Uma vez li um texto de um colunista da Capricho (não lembro qual) refletindo sobre as palavras amor e love. Segundo ele – e eu não poderia concordar mais – love não é tão mágica quanto amor (mesmo que ambas signifiquem a mesma coisa) por sua pronúncia lisa, uniforme, sem nenhum fonema que se destaque demasiadamente mesmo nos sotaques mais bonitos. Amor não: no sotaque do interior de alguns estados, o r pronunciado e repetido dá uma vibração bastante especial; no meu sotaque, o acréscimo de vogais e o semi ignorar das consoantes é bastante charmoso – enfim, a palavra, em mil jeitos diferentes, faz jus ao que descreve.
Lauren Oliver parece ter sacado bem isso: li Delirium em inglês, e algumas páginas foram suficientes para que eu percebesse que, ao invés de love, o amor no seu livro foi rotulado, na maior parte do tempo, de amor deliria nervosa. Mas não só pela beleza da expressão em si, mas também pelo fato de que em Portland – assim como em todas as cidades dos EUA distópico da autora – o amor é considerado uma doença.
Por isso, todos os cidadãos têm de passar por uma operação aos dezoito anos – operação que, além de diminuir as chances de contrair a deliria, também traz uma grande paz de espírito e felicidade.  Sem mais dúvidas ou desejos esmagadores – os seres humanos nunca pareceram tão emocionalmente equilibrados e próximos dos deuses. Lena espera ansiosamente por sua operação: graças à doença, sua mãe se suicidou, por preferir morrer a viver sem amor – e o medo de que o mesmo aconteça com ela é imenso.
A melhor amiga de Lena não pensa assim: a linda e rica Hana detesta a ideia de ter seus desejos e vida – pois carreira, marido e número de filhos são definidos por médicos em uma entrevista/exame pré-operação – controlados por outrem – mesmo que esse outrem seja ela mesma, somente com seu modo de pensar modificado pela “cura”.
No auge de seu espírito rebelde, Hana convence Lena a entrar no laboratório sem permissão, onde ambas conhecem Alex, um estudante que trabalha meio período como guarda do local. Lena então é “infectada” por Alex – ou seja: eles se apaixonam.
Alex (que tem opiniões bem pouco ortodoxas) faz com que Lena veja as coisas de outra maneira: é o amor realmente uma doença? Não haveria outro modo de estabelecer a paz social, sem acabar com o amor, a paixão, a poesia, as emoções exacerbadas ou o direito de escolha?
Um bom sinal foi dado para Delirium logo no início: a sociedade feita-para-ser-feliz de Lauren Oliver me lembrou bastante do que é considerado o maior livro de ficção distópica de todos os tempos – Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (que também é um de meus livros preferidos). Mais exatamente uma frase dita pela pseudo-rebelde Hana fez com que minha mente me trouxesse o memorável quote do igualmente memorável livro: “- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.”

Esse controle social todo é bem explicado por Lauren Oliver: Lena, que narra o livro, apresenta os aspectos de seu mundo como naturais e perfeitos, sem refletir muito sobre eles – ao menos até que Alex entre na história. Ela sai do “completamente alienada” para “razoavelmente consciente” – aquele tipo de transição lenta e gradual, perfeita para livros do gênero.
Lena é o tipo de protagonista que gosto. Sinceramente, detesto personagens corajosas demais – elas podem parecer bem legais se não refletirmos muito, mas depois me parecem bastante irreais. Em Lena, não lhe falta ou lhe sobra coragem – ela somente faz concessões, baseadas no seu afeto por Hana ou Alex ou na pura lógica.
Delirium poderia ser docinho e enjoativo, mas não é: por Lena ter sido criada para acreditar de que o amor é algo danoso e doentio, ela apresenta “os sintomas” de forma leve, relutante e sem clichês. Afinal, como algo quase criminoso poderia ser batido?
Delirium não me deixou com a respiração presa, ansiosa para ler logo a próxima linha como Jogos Vorazes. Mas chegou perto.
OBS.: A capa acima é da edição paperback que comprei, em inglês (que é baratinha, não tem frete pelo Bookdepository e tem uns extras legaizinhos). A daqui do lado é a publicada recentemente no Brasil com o título de (ooooh) Delírio

31 março 2012

Scored

Depois de uma segunda Grande Depressão, as universidades estadunidenses voltaram a ser domínio exclusivo dos super-ricos – não importando o quão talentoso ou esforçado você fosse – e a mobilidade social se tornou próxima a zero.
"Sensibilizados" (ou não) com a falta de perspectivas reservadas a maioria dos jovens americanos, a ScoreCorporation se prontifica a mudar isso - mas de uma maneira bem custosa e peculiar: o sistema por eles criado vai além das notas na hora de medir o desempenho de um estudante, atribuindo uma nota (ou score) para cada pequena ação do mesmo. Seus amigos, seu foco, seu comportamento e cada palavrinha que você fala –  tudo é essencial e registrado pelas eyeballs, câmeras cruéis espalhadas por toda a cidade que registram e processam cada uma de suas ações, calculando o seu score. Lojas, hospitais e até mesmo o exército passam a adotar o score como maneira de fazer novas contratações, mas o almejado pela maioria dos estudantes é outra coisa: conseguindo um score acima de oitenta pontos, a ScoreCorp pagará todas as suas taxas para qualquer faculdade estadual.
Como sempre, nem todos estão felizes com esse sistema: parte dos estudantes da Somerton High, na cidade de Somerton, Massashusets – uma das cidades-teste para o Score –  se recusam a terem suas vidas vigiadas pelas eyeballs. A associação com os chamados unscored é punível com a perda consecutiva de vários pontos.
Essa perda de pontos por associação é levada ao extremo: em Somerton High, todos os alunos somente fazem amizade com aqueles de Scores semelhantes –  por isso, as panelinhas são refeitas todos os meses, e aqueles que eram outrora inseparáveis agem como se nunca houvessem se conhecido. Imani LeMonde, contudo, graças a uma promessa feita há muitos anos atrás, não abandona a amizade de Cady – mesmo que Imani possua 92 pontos e Cady somente 67.
Um dia, esta amizade deixa Imani em apuros: Cady começa a namorar um unscored – resultando na perda de pontos não só para ela, mas também para Imani. Com um score abaixo do necessário para sequer conseguir um bom emprego – o que dirá uma bolsa – Imani procura o impossível e acha: uma maneira de ganhar mais de vinte pontos em um mês, voltando para o topo e realizando seu sonho de estudar biologia marinha.
Se associando com Diego McLune para um trabalho – o filho rico de uma advogada anti-score – ela espera conseguir informações boas o suficiente para que a ScoreCorp recompense a sua lealdade com uma quantidade estúpida de pontos e, consequentemente, uma bolsa de estudos. Contudo, a convivência com Diego – que tem idéias próprias e peculiares sobre o real objetivo do Score – faz com que Imani repense se a "meritocracia" proposta pela ScoreCorp é realmente benéfica.
A ideia de Scored é brilhante: em algumas sociedades ou grupos sociais, a pressão colocada em cima dos adolescentes para "andar na linha" é enorme. Embora ir para a universidade ainda esteja fora de cogitação para uma grande parte da população brasileira, a tensão é palpável em terceiros anos e cursinhos pelo país inteiro. Em alguns países, isto é levado ao extremo: na China e na Coreía do Sul não são incomuns colapsos nervosos e suicídios graças ao ambiente acadêmico. Lauren McLaughin tentou elevar isso a um outro nível, a um nível onde a vigilância é completa, impessoal e constante. O exagero, característica da maioria das distopias, está bastante presente em Scored, embora o mundo em que ele está inserido seja completamente reconhecível e parecido com o nosso.
O problema foi a execução: não é exatamente mal-escrito, mas sim mal-desenvolvido. Scored é ótimo até a metade, mas, a partir daí, a autora entra em uma corrida desenfreada para terminar o livro em poucas páginas, não desenvolvendo mil e uma situações possíveis e inserindo algumas inúteis. O aspecto psicológico dos adolescentes scored – o que eu ansiei para ler sobre – é praticamente ignorado, se limitando a breves descrições por parte de Imani de como é difícil ser vigiada 24/7.
Não gosto muito de distopias explicativas, o que Scored é. Gosto de refletir sobre determinados aspectos por mim mesma, ler nas entrelinhas - o que é exatamente o contrário que Scored faz, dando todas as reflexões possíveis através de diálogos entre Imani e Diego. As entrelinhas, em um livro de ficção distópica, são preciosas: em geral, quem lê este tipo de coisa gosta de chegar a suas próprias conclusões, não encontrar as de outrém inseridas no objeto de reflexão.
Ainda assim, dou três pontinhos a Lauren McLaughing por sua ideia brilhante – mas uma para a interminável lista das que eu gostaria de ter tido.
Nota: 3/5

28 março 2012

Criança 44


Como solucionar uma série de crimes em um país cujo governo nega a existência dos mesmos?
É essa a pergunta que Liev Demidov se faz. O leal agente da MGB – polícia secreta soviética –de Stalin torturou, adulterou e matou em prol do regime, do tal do “bem maior”, de uma desejada paz e justiça social.
Contudo, Liev é acusado de traição sem razões aparentes, e é isolado com sua esposa Raíssa em uma cidade do interior, onde ele é “rebaixado” da elite do funcionalismo público soviético para um mero soldado de uma milícia –como não se admitiam a existência de crimes “comuns” na URSS de Stálin, a milícia teoricamente funcionava como uma espécie de “segurança” para coisas simples como brigas de bar, rixas de família e outras coisas do tipo (mas obviamente acabava fazendo muito mais).
Quando, depois de uma caminhada, ele encontra o corpo de um garotinho, Liev entra em choque: meses antes ele havia convencido a um de seus subordinados que a morte de seu filho – dada nas mesmas condições e com as mesmas características do garotinho que Liev encontrou – não era um assassinato, e sim um mero acidente de trem – afinal, afirmar ao contrário seria traição, uma transgressão que seria vista como uma dúvida da competência do estado e ameaça à paz social.
Como forma de se redimir moralmente e, acima de tudo, de encontrar uma razão para viver, Liev começa a investigar os assassinatos, descobrindo que eles não ocorreram somente naquelas duas situações – cerca de quarenta e quatro pessoas, em sua maioria crianças, foram mortas nas proximidades de estações de trem por toda a União Soviética, tendo em comum um punhado de sujeira na boca e um barbante no tornozelo.
E é essa versão tosca das idéias de Marx, Engels e outros grandes que Tom Rob Smith nos apresenta: a União Soviética. Embora o livro apresente a consciência de que vários problemas sociais foram resolvidos, não deixei de lembrar de 1984, de George Orwell: a descrição do medo do povo em geral de acabar em um gulag (campos de trabalho forçado, usados muito no stalinismo) por um crime qualquer (que nem sempre de fato foi cometido) não se diferencia das apreensões de Winston Smith. Viver cercado, sem poder questionar ou nem sequer reclamar: era isso que, aos olhos do autor, era reservado aos soviéticos.
A “cegueira” do governo soviético quanto aos crimes chamados “comuns” e “oriundos de uma sociedade capitalista” é também bem trabalhada: segundo o regime, assassinatos e roubos eram efeitos colaterais de uma sociedade capitalista desigual (sim, estou sendo redundante).  Concordo em parte com essa lógica: creio sim que a maioria dos crimes seja cometido por pessoas desesperadas, que transmutam uma personalidade com princípios morais para uma sem escrúpulos diante do desespero. Contudo, ignorar completamente o tal do banditismo por pura maldade é extremamente perigoso.
Mas é claro que tais crimes não poderiam passar em branco, sem uma justificativa: seria muito suspeito, e fugindo a qualquer tentativa de controle social. Para isto, eram usados bodes expiatórios: doentes mentais, homossexuais e supostos “inimigos do estado”, anunciados como espiões contratados pelo ocidente que objetivavam acabar com a estabilidade da sociedade soviética. Descobrir esse tratamento dado aos homossexuais, aliás, foi bastante chocante para mim – não consigo associar nenhum posicionamento verdadeiramente de esquerda ao preconceito, mesmo sabendo que, nos anos 50, o termo “homofobia” ou qualquer noção de o quão errado isto era existia.
Criança 44, como um bom thriller, não te deixa respirar – tão logo que um mistério ou um problema é resolvido, outro, ainda mais complicado, vem a tona, e tudo se amarra numa perfeita e coerente teia de acontecimentos. Não sei se é minha falta de familiaridade com o gênero, mas não vi nenhum grande defeito em Criança 44 – além do supracitado, o livro é bem-escrito e parece ter demandado uma grande pesquisa por parte do autor.
Mesmo não acreditando no sobrenatural e sabendo que a possibilidade de que um serial killer me ache é mínima; não gosto muito dessas coisas. Sei que não é real, mas quando estou sozinha no escuro, toda a racionalidade é deixada de lado, o impossível se torna real. De forma positiva, Criança 44 foi leve o suficiente para não tirar meu sono – então, provavelmente me aventurarei mais no nem-tão-fantasioso reino dos serial killers no futuro.
Nota: 5/5
Esse post faz parte do Desafio Literário 2012.

10 março 2012

L16 - O perfume


Jean-Baptiste Grenouille poderia ser só uma de várias crianças rejeitadas na Paris do século dezoito. O órfão (sua mãe foi condenada à morte pelo infanticídio de quatro crianças, abandonadas debaixo do balcão de uma peixaria – destino quase compartilhado por Jean-Baptiste) possuía um olfato sobre humano: desde a mais tenra idade ele aprendeu a reconhecer, catalogar e lembrar os mais diferentes tipos de cheiro, mesmo que o sentisse uma vez só; mesmo que ele estivesse a quilômetros de distância; sendo ele bom ou ruim, natural ou não.
E também aprendeu rápido o que as sensações olfativas causavam nas pessoas: com apenas alguns meses de idade, foi rejeitado por uma ama-de-leite, por não possuir cheiro algum – fato considerado demoníaco por uma mulher do século dezoito, sem muita informação e acostumada ao cheiro agradável de vários bebezinhos. Na creche para o qual foi encaminhado, não foi muito diferente: a cuidadora, uma mulher dura e sem olfato, não era atenta o suficiente para perceber as diversas tentativas de assassinato de Grenouille feitas por outras crianças – ele era simplesmente estranho demais para elas. O garoto, contudo, a incomodava: porque ele conseguiria prever a chegada de alguém com minutos de antecedência? Porque ele não tinha medo do escuro como todos os outros?
As interrupções dos pagamentos por parte da ordem religiosa que cuidava de Grenouille dão a esta mulher motivos o suficiente para se livrar dele, deixando-o para morrer como semi-escravo em um cortume. De novo, porém, ele contraria as regras da natureza: ao invés de perecer pelo trabalho duro e insalubre e a pouca comida, ele se torna um empregado valioso, ganhando alguns trocados e até obtendo folgas para andar por aí. Seu interesse, porém, não era bebida ou mulheres como havia de se esperar, e sim sentir todo e cada cheiro existente na cidade-luz.
Bom, embora filmes que retratam tempos tão pretéritos quanto o final do século dezoito insistam em dizer o contrário, a Paris daquela época não é o que consideraríamos, para os padrões modernos, agradável: tudo era sujo e fedido, graças a falta de noções da higiene das pessoas em geral e a inexistência de saneamento básico. Grenouille sabia disto como ninguém, e se prendia à uma brisa de mar como sua melhor lembrança olfativa. Um dia, contudo, isto muda: ao passar por um jardim qualquer, sente o cheiro de uma moça, um cheiro maravilhoso e inebriante. Enlouquecido, enquanto sorve seu aroma ele a assassina, em um gesto de pura paixão – não por aquela moça e por sua beleza, e sim pela sensação olfativa que ela lhe proporcionava. Esse é o pontapé inicial numa busca incessante pelo perfume perfeito, pelo perfume que lhe tornaria o maior alvo, a escolha mais óbvia, o personagem principal de um sentimento nunca antes lhe dispensado – o amor.

As descrições do autor são maravilhosas: focando no cheiro, sentido subestimado e esquecido, ele faz com que as páginas do livro pareçam impregnadas pelos mais diversos aromas, ricamente descritos (o que me lembra Escola dos Sabores, que faz o mesmo com o paladar). Meu mundo olfativo era dividido em três grupos até então – cheiros bons, neutros e ruins – mas O perfume me fez perceber a complexidade e a singela beleza deste sentido. Ele não se fia muito em descrições físicas – não sei a cor dos cabelos ou olhos do personagem principal, por exemplo – mas há algum tempo não me sinto tão “dentro de um livro” como com O perfume.
Cartaz do filme *_*
As páginas também estão inebriadas de paixão: não aquela paixão entre amantes, ou uma paixão saudável por algo que se goste de fazer, mas sim uma paixão doentia por parte de Grenouille pelo aroma perfeito. É a sua única característica que o faz humano: baseado nela, ele mata, morre, sente-se feliz ou triste. A única beleza que conhece é a olfativa; e não sente nojo de nada até que isto se ponha em seu caminho.
Pode-se concluir que o livro é maravilhoso pelos meus comentários acima e realmente é, exceto por uma parte – o final. Embora eu acredite que só este fator não deve dissuadir ninguém de lê-lo, o final é tosco, terrível, já seria bastante deslocado em um livro medíocre, portanto certamente não faz jus a O perfume e o grande livro que ele poderia ser.
Nota: 4/5
Esse post faz parte do Desafio Literário 2012, e o tema deste mês é Serial Killer.

05 março 2012

L15 - Dom Casmurro

Dizer que eu, em geral, não gosto dos livros da escola é pouco – eu os detesto. Até agora, no ensino médio (embora eu esteja ainda no segundo ano) só estudei gêneros literários bobinhos e eu diria até mesmo secundários –fora a poesia romântica, nenhum despertou em mim, leitora ávida, a menor centelha de curiosidade. Além disto, meu hábito de ler me fez associar leitura ao prazer, a descontração e falta de responsabilidades; não à obrigação e aos prazos – muito menos à testes de múltipla escolha.
Mas, pela primeira vez, um livro escolar me encantou: Dom Casmurro. Há pouco a ser dito dessa obra, já que todos conhecem a estória de amor e obsessão de Bentinho e Capitu escrita pelo brilhante e imortal Machado de Assis. Como não posso dizer muito de novo sem cair na maravilhosa  e irritante prolixidade, fiz uma resenha em um formato diferente – o de lista – e aí vão minhas oito razões pelas quais você deve correr para a biblioteca, livraria ou supermercado mais próximo e ler Dom Casmurro JÁ (caso ainda não o tenha feito):
1 – É provavelmente o maior clássico da literatura Brasileira
Esse parece ser um motivo bobinho, mas não é. Além de ser cobrado na maior parte dos vestibulares e concursos, Dom Casmurro é conhecido internacionalmente – mais de um gringo já me indagou sobre meu veredito no mistério de Bentinho e Capitu, além de inúmeras referências a ele em livros contemporâneos. E, mesmo que você deteste o Brasil e nossa literatura, garanto-lhe que Dom Casmurro está ao lado dos grandes clássicos de outras terras em termo de qualidade.
2 – Citações brilhantes
Eu não sou do tipo que gosta de encher os perfis das redes sociais de citações de livros ou coisas do tipo – em geral, elas estão fora de contexto, e a maior parte delas não fazem tanto sentido assim. Contudo, Machado de Assis é tão brilhante em suas reflexões sobre a vida que qualquer um o entenderia. Eis uma das minhas citações prediletas:
Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.
3 – História
Embora eu saiba que os séculos passados seriam considerados por mim bem desagradáveis, gosto bastante de observar os atos de personagens em livros passados em séculos passados. Todas as eras possuem seu charme, e assim como Jane Austen, Machado de Assis cerca a época em que viveu com uma aura que, apesar de crítica, torna seu universo quase mágico.
4 – Personagens imperfeitos
Em praticamente toda resenha que faço há uma ode aos personagens que são somente demasiado humanos, aqueles com quem posso me identificar e/ou sentir pena de, cujas personalidades são colchas de retalhos, resultando de anos de experiências e conflitos internos. Nenhum personagem de Dom Casmurro segue formulas pré-existentes, nenhum é pouco complexo. Até mesmo a mãe de Bentinho – cujo epitáfio foi “Uma Santa” – apresenta seus deméritos, nada escapando à criticidade do narrador.
5 – Adaptações para o cinema e para a televisão
Acredito ser bastante desinteressante me aventurar em assistir qualquer tipo de adaptação sem antes ter lido o livro: simplesmente não consigo prestar atenção graças ao fato de que sei que, na maior parte dos casos, o livro será melhor. Dom Casmurro foi exaustivamente adaptado, e agora me sinto apta para julgar a qualidade destas adaptações com um olhar mais apurado. Aqui tem um videoclipe muito bom com cenas da minissérie Capitu, de 2008, da Rede Globo.
6 – Não é tão complicado quanto parece
Alguns torcem o nariz para os clássicos, achando que eles serão complicados demais, que, para cada duas palavras, uma será desconhecida. Li Dom Casmurro em pouco tempo – talvez não menos do que levaria para ler um livro YA, mas a leitura flui muito bem: embora alguns termos e referências fossem desconhecidas, elas eram poucas, e as existentes enriqueceram meu repertório.
7 – É MUITO atual
Dizem os entendidos que a boa literatura é perene, isto é, dá ao leitor, independente de onde ele está no tempo e no espaço, a sensação de que aquelas situações são reais, palpáveis e recorrentes. Quem não conhece – isso se não viveu esta situação – alguém que ficou cego, maluco de ciúmes por seu conjugue, acreditando que uma traição havia ocorrido? O ciúmes, assim como o amor, é universal, e vê-lo exagerado e brilhantemente descrito é sempre bom.
8 – Tire suas próprias conclusões sobre Bentinho e Capitu

Ocorreu ou não uma traição? Capitu e Escobar foram culpados, um por traição conjugal, outro de amizade? Ou Bentinho é apenas um louco obsessivo? Eu já possuía certa opinião antes mesmo de ler o livro por completo, mas só a leitura integral me garantiu de que ela fosse bem embasada. Sou partidária da segunda teoria, mas nunca saberemos: o autor levou esta resposta consigo para o túmulo. Ah, Machado! Ressuscita, por favor? Precisamos de suas respostas e do seu brilhantismo por aqui, em 2012...

28 fevereiro 2012

L14 - Mansfield Park

Demorei bastante para ler esse livro: há mais de quinze dias estou com ele na minha cabeceira. Não sei se foi pelo fato de que foi o primeiro livro que realmente li em inglês (adaptações curtinhas não contam) ou pela cansativa volta à rotina escolar, mas uma coisa é certa: não foi por “culpa” desta obra de Jane Austen, que, apesar de não atingir a mesma qualidade do que nos seus livros que li anteriormente, me surpreendeu mais uma vez.
As Srtas.Ward tomaram destinos bem diferentes na vida. Destinadas somente para o casamento, como as mulheres da época, suas trajetórias centraram-se nisso: a bonita e cativante Maria, a filha mais velha, casou-se com Sir Thomas Bertram, tornando-se então rica e parte da nobreza – uma ascensão social basante grande para quem possuía apenas algumas milhares de libras como dote. A filha do meio casou-se com um reverendo, o Dr.Norris, que, por influência da cunhada, foi empregado em Mansfield Park, a propriedade dos Bertram, o que lhes garantiu uma vida bastante confortável. Já Frances, a mais nova, não teve a mesma sorte das irmãs: para esta, coube o Sr.Price, um tenente da marinha sem herança ou conexões. O salário minúsculo do Sr.Price, seu hábito de beber e a grande fertilidade da mulher os fizeram ter vários filhos e uma vida bastante diferente da vivida por Lady Thomas e pela Sra.Norris.
A fim de ajudar a irmã, a Sra.Norris sugere que uma das crianças seja adotada pelos Bertram – afinal, onde moram quatro crianças, podem também morar cinco. Por isto, aos dez anos, chega em Mansfield Park a pequena Fanny Price, uma garotinha tímida e sem grandes atrativos.  Assim, ela é criada ao lado de seus seus primos: o filho mais velho (e herdeiro da família), o esbanjador Tom; as glamurosas e fúteis Maria e Julia e o atencioso Edmund, que não mede esforços para ver Fanny confortável e está destinado, como filho mais novo, a se tornar um reverendo.
Depois da morte do Dr.Norris, o cargo de reverendo de Mansfield (ter um reverendo por propriedade era regra na Inglaterra da época; e os párocos anglicanos, ao contrário dos padres católicos, poderiam se casar e constituir família, além de possuir alto grau de educação e um bom salário) fica por conta do Dr.Grant, cuja esposa possuía dois irmãos – Henry e Mary Crawford, ricos e charmosos jovens acostumados à sociedade diversa e elitista de Londres. Todo o charme dos Crawford balança o coração dos Bertram; tanto de Júlia e Maria quanto de Edmund; mas quando o caráter de Mary vem à tona e Henry se apaixona por Fanny – logo o patinho feio da família! – tudo vira de cabeça para baixo em Mansfield Park.
Não encontrei outro autor com a capacidade de dizer com palavras coisas outras que seu sentido original como Jane Austen. A grande escritora inglesa é de uma ironia bastante peculiar: é bastante leve, e o leitor precisa ter atenção redobrada para percebê-la em alguns trechos. Confesso que, no início, achei Fanny meio sem sal: ela não era excepcionalmente inteligente, extrovertida e tão pouco suas observações eram essenciais para o decorrer da estória. Contudo, depois de algumas páginas, percebi o que Jane Austen queria com isto: ao revelar aos poucos os trunfos de Fanny, ela questionava o  status de “caridade” que havia sido dado à sua “adoção” por parte dos tios – afinal, Maria e Julia Bertram eram bastante fúteis, e, sem Fanny, Lady Thomas Bertram com certeza se sentiria solitária.
Mas, infelizmente, ao contrário dos outros livros que li da autora, ela errou a mão em um ponto importante: enquanto alguns personagens chave têm suas características descritas timtim por timtim (com toda a complexidade psicológica típica de Jane Austen), outros são negligenciados nesse aspecto. O livro também flui de forma mais lenta e empacada do que os outros – apesar de ser mais curto do que quase todos eles. Como já haviam me falado, os livros Jane Austen são bastante indicados para quem não está acostumado a ler em inglês, não só linguisticamente (ela não é de muitos floreios): até o próprio preço vale a pena (várias livrarias importam as edições dos Penguin Popular Classics, que saem por cerca de sete reais).
Mansfield Park não deixa de valer a pena por causa dos pontos negativos que levantei – afinal, ainda É Jane Austen, e estou curiosa para saber se essa mulher sabia escrever algo ruim.
Nota: 4/5

12 fevereiro 2012

L13: Emma

À primeira vista, o cotidiano dos homens e mulheres da aristocracia inglesa do século dezoito pode parecer terrivelmente entediante: os homens não trabalhavam muito; a vida das moças girava em torno de conseguir um marido e das mulheres em torno do casamento; os preconceitos de classe eram mais acentuados e as regras sociais pormenorizadas a um nível quase insuportável. A fala era polida demais, as ocupações e diversões escassas e a educação feminina extremamente limitada.
Por isso que devo chamar Jane Austen de fada: ela realizou a mágica de fazer essa sociedade tão intrincada, parada e diferente parecer fascinante, mesmo sob o olhar de uma jovem do século XXI. A falta de “atrativos femininos” de Jane Austen a fez nunca se casar, usando então o tempo que outras mulheres dedicariam aos seus maridos para observar a natureza de seus pares.
Natureza humana esta que pode ter mudado de foco com o passar das décadas, mas não de essência: identifiquei-me com várias das características de Emma (infelizmente, mais com seus defeitos do que qualidades), personagem principal do livro homônimo, e conseguia encontrar semelhanças entre os meus conhecidos e os da heroína. Mesmo com a ascensão da mulher, o fim de uma aristocracia e de um modo de vida como narrado e a constante e lenta “criminalização” de preconceitos de classe; a essência humana continua (para o bem e para o mal) a mesma.
Emma é mimada por seu pai e pela sociedade: como se não bastasse sua riqueza (trinta mil libras de herança, uma fortuna enorme na época), ainda é bonita e inteligente. Morando em uma cidade com poucas pessoas que poderia considerar “de seu nível”, é rapidamente cativada pela doce e bela Harriet Smith, jovem pensionista em uma escola de damas e de procedência familiar desconhecida –  algo que era considerado quase um crime para uma moça na época.
Ignorando os conselhos de seu bom amigo Sr. Knightley – que, ao contrário dos outros heróis nos livros de Jane Austen que li, me cativou bastante por sua racionalidade – Emma prossegue com esta amizade, que, como era de se esperar, tem conseqüências desastrosas. A chegada de Frank Churchill, filho do Sr.Weston (marido da ex-governanta e mãe de criação de Emma), criado por seus tios no seio da alta sociedade inglesa, torna a situação ainda mais confusa e complicada.
Mesmo parecendo longo, o livro passa rapidinho, até rápido demais. Embora sua prosa seja muito boa (descritiva sem ser maçante, com diálogos brilhantes e reviravoltas boas e críveis) não é esta a maior qualidade de Emma ou de qualquer outro livro de Austen que eu já tenha lido: a autora não esconde de seus leitores a falta de beleza, inteligência ou o gênio ruim de quaisquer de seus personagens. Até mesmo os mais irritantes (como o Sr.Woodhouse, pai de Emma, que é o que nós, no século XXI, chamaríamos de hipocondríaco) tornam-se suportáveis pela extrema humanidade contida em si. Não há nenhuma tentativa,de fazer heróis perfeitos ou vilões maus demais para serem reais. Na verdade, essas duas categorias – heróis e vilões – são inexistentes: todos os personagens são salvadores ou algozes, dependendo por qual ponto de vista ou do momento que estão passando.
 Obrigada, Jane Austen, por não ter se casado ou feito qualquer coisa esperada das mulheres da sua época: se contrário fosse, não teríamos suas brilhantes análises da natureza humana.
Nota: 5/5

[Esse post foi feito para o Desafio Literário 2012]

30 janeiro 2012

L12 - A breve segunda vida de Bree Tanner


Eu poderia pagar de pseudo-cult e dizer que detestei Crepúsculo desde a primeira vez que li, mas isso seria faltar com a verdade. Já suspirei com a série de Stephanie Meyer durante algum tempo, usei uma camisa escrito “I <3 Twilight” para a estréia do primeiro filme e gritei JACOB DELÍCIA no segundo. Contudo, com o passar do tempo, comecei a ver Edward como um imbecil obsessivo; Bela como uma criatura sem sal ou opiniões e vida própria e Jacob como a única criatura com um pingo de juízo em todo esse bolo – e olha que, em termos de obsessão, ele por pouquinho não se emparelha com Edward.
Mas, há duas semanas, lá passo eu nas Lojas Americanas e vejo A breve segunda vida de Bree Tanner por cinco reais. Meus caros, com cinco reais, você no máximo faz um lanche e, de qualquer jeito, esse livro é bastante procurado no site de trocas LivraLivro – qualquer coisa, era só eu trocar por algo melhor.
A breve segunda vida de Bree Tanner é uma história de Eclipse: a fim de matar Bela (que é a mocinha da saga, namorada do vampiro perseguidor obsessivo Edward Cullen e melhor amiga do lobisomem Jacob – é, saquem só como a garota leva uma vida comum) Victoria (cujo companheiro foi morto pelos Cullen) cria Riley, e lhe dá uma missão: fazer um exército de vampiros. Sua última criação é Bree (que tem três meses de idade quando a história é contada), uma garota que fugiu de casa por causa dos abusos físicos do pai e se torna nossa narradora.
Um dos grandes problemas que vi com Stephanie Meyer é que os vampiros dela não me parecem saídos de um conto de terror, e sim de um conto de fadas. Pois bem, isso não se aplica aos recém criados de A breve segunda vida de Bree Tanner: eles são violentos, tanto com os humanos – muitos deles os torturam antes de tomar seu sangue – quanto entre si.
Bree é extremamente carismática e retrata muito bem a fúria dos recém-criados e seu possível par romântico, Diego, é bastante inteligente. Também é bastante interessante ver vampiros com um modo de vida “tradicional” na obra de Stephanie Meyer. Não chega a ser um livro estilo “oh, que livro genial e legal”, mas é bastante diferente da saga que lhe deu origem.
Nota: 3/5

28 janeiro 2012

L11 - Como água para chocolate


Numa aula de espanhol, eu já havia assistido ao filme de Como água para chocolate – e gostado bastante. Como é tendência, o livro mostrou-se muito melhor.
Tita de La Garza cresceu na cozinha: por sua mãe, a temível Mamá Elena, não ter leite para dar a sua filha caçula, sua alimentação – além de qualquer vínculo emocional com o resto do mundo – ficou por conta de Nacha, empregada da família. Talvez seja por isto que Tita se tornou uma maravilhosa cozinheira, e também a razão pela qual os capítulos do livro sejam estruturados em torno de uma receita: a autora soube bem intercalar a forma de preparo de diversos quitutes com acontecimentos significativos pro enredo.
Por causa de uma velha tradição familiar – a de que a filha caçula deveria cuidar da mãe até que a mesma morresse – Tita é privada de casar-se com Pedro, a quem ama bastante. Pedro, a fim de ficar perto de sua amada, casa-se com sua irmã, Rousaura, iniciando-se assim uma série de intrigas na família de La Garza. Essas intrigas são literalmente alimentadas pelas reações causadas pela comida preparada por Tita, que carrega todas as emoções que a mesma sentiu durante o seu preparo.
Para alguém desacostumado – feito eu – o gênero realismo literário, ao qual o livro pertence, pode soar estúpido e infantil. Contudo, depois que me acostumei, dei boas risadas com os “exageros” presentes neste tipo de obra.
Os personagens são um ponto que divergiu minha opinião: enquanto adorei Tita, a heroína, por sua força e coragem, detestei Pedro por ele ser completamente diferente de sua amada. Mamãe Elena foi uma vilã maravilhosa: Laura Esquivel conseguiu fazê-la detestável, mas ao mesmo tempo humana.
Mais um ótimo livro para o Desafio Literário 2012. Que venham muitos mais nos próximos onze meses!
Nota: 4/5

20 janeiro 2012

L10: Escola dos sabores (Desafio Literário 2012)


Não adianta: sou uma das do time que escolhe livro pela capa e pelo nome. Por isso que não hesitei em pedir Escola dos Sabores, de Erica Bauerminster, de presente em um amigo secreto – me iniciando assim no até então desconhecido gênero da literatura gastronômica e cumprindo o primeiro mês do Desafio literário 2012
.
Não, literatura gastronômica não é livro de receita, e sim uma estória onde a comida e o ato de cozinhar são atores importantes no enredo, feito Escola dos Sabores que conta, através de lembranças despertadas por uma aula de culinária, a trajetória dos participantes da mesma.
Há Lillian, a professora e renomada chef, que curou a catatonia da sua mãe através de pratos preparados com muito amor e sensibilidade; Claire, a jovem mulher que perdeu sua própria identidade e noção de individualidade depois de ter filhos; Isabelle, cujas lembranças estão se perdendo com o passar da idade; Chloe, garçonete cujo relacionamento está em crise; Carl e Helen, casal aparentemente feliz, mas com um problema que os incomoda há anos; Ian, engenheiro de software que procura estabilidade; Tom, que quer recuperar o prazer pelo ato de comer depois da morte de sua mulher, que era chef de cozinha e finalmente Antonia, imigrante italiana que veio arriscar-se como decoradora do outro lado do oceano.
Sou suspeita para falar de qualquer coisa relacionada a comida: amo cozinhar e mais ainda comer. Mas o jeito que Erica Bauerminster escreve há de cativar até mesmo aqueles não tão fascinados por essas duas artes: ela descreve as sensações produzidas pela comida de uma forma maravilhosa e liga as trajetórias pessoais dos personagens a mesma muito bem. Apesar de conhecer muito bem a emoção de estar diante de um prato bem preparado,fiquei com uma certa inveja da capacidade de “metaforizar” as coisas e dos sentidos aguçados da autora: no conforto de um prato de purê bem feito ou na explosão de sabores de um taco. As descrições e comparações, aliás, são o ponto alto do livro: o enredo é meio mulherzinha, mas as imagens criadas durante todo o livro são tão fantásticas que valem a pena. Adorei, um ótimo começo para o Desafio Literário 2012.

17 janeiro 2012

L9: Amores infernais


Aprecio muito coletâneas de contos: gosto do jeito como bons autores conseguem fazer uma boa estória em poucas páginas. Eu já havia lido Formaturas Infernais quando o segundo livro dessa “série” (de coletâneas de contos de um só tema, feitos por vários autores relativamente famosos quando se trata de YA) caiu nas minhas mãos.
Mas aí é que tá: enquanto em Formaturas Infernais a maior parte dos contos me agradou, não gostei muito de Amores Infernais. Um único conto realmente me agradou – Abominável mundo perfeito, de Scott Westerfeld – e minhas impressões sobre os outros variavam de “dá pra ler” a “detestável”.
Impressões sobre os contos:
1 – Dormindo com o espírito
Apesar da premissa ser interessante – uma garota que se apaixona pelo espírito que assombra sua casa por ter morado e morrido nela anos atrás – o conto não foi muito bem desenvolvido. Não acredito nem que seja culpa do número de páginas, já que a autora meio que “encheu lingüiça” em alguns pontos.
2 – Abominável mundo perfeito
Do autor da série Feios, o livro retrata um mundo onde as pessoas não passam por vários incômodos diários – doenças, dormir, hormônios na adolescência, deslocamento lento e etc. Contudo, para uma aula, todos têm que abrir mão de alguma coisa, e voltar para a antiguidade – ou seja, o nosso tempo.
Gostei muito do conto, pois meio que lançou (ainda que nas entrelinhas) uma discussão sobre o quanto a tecnologia pode “desumanizar o homem”.
3 – Mais ralo que água
Gostei um pouquinho desse conto, que conta a história de uma garota em uma aldeia que, apesar de ser dos dias de hoje, ainda parece estar presa na idade média: todos fazem tudo como há cem, duzentos anos atrás. A estória é envolvente – mistura mitologia, um cenário pitoresco e uma personagem interessante – mas a escritora é mediana, o que dificultou o desenvolvimento da trama.
4 – Fan fic
Não gostei muito: o romance entre os dois personagens principais era muito parecido com Crepúsculo, inclusive na parte sobrenatural, e a trama se arrasta – o que não é legal de se acontecer em um conto desse tamanho.
5 – Perdido de amor
Outro com premissa interessante: usa a mitologia de um determinado local para dar o toquezinho de sobrenatural no conto. Contudo, infelizmente, o relacionamento do casal-tema é meio estranho, e a personagem principal é desagradável – não uma chata de galocha feito Mia de O diário da princesa ou egocêntrica feito Tally de Feios, só desagradável mesmo.

No geral, os contos não são bons: me decepcionei um pouco por esperar a qualidade parecida com Formaturas Infernais. Ainda assim, quero ler o próximo, recém lançado por aqui: Beijos Infernais - cuja capa brasileira é linda! Alguem já leu?

Nota: 2/5

16 janeiro 2012

L8: Pergunte ao pó


Mesmo o detestando, eu mandaria flores para o enterro de Arturo Bandini, personagem principal do livro Pergunte ao pó. Estas flores, porém, não seriam condolências, e sim uma doce ironia quanto às suas negadas origens. Explico: o talzinho insultava a sua amada latina, Camilla, por suas raízes, mesmo que suas duas únicas caracteristicas em comum fossem sua nacionalidade e imigração recente de seus antepassados.
Portanto, assim como os gangsteres italianos, eu mandaria flores para o enterro de Arturo Bandini, mesmo sabendo que se um dia nos encontrássemos, a inimizade seria despertada a primeira vista. Bandini é odioso: é daquele tipinho de artista (no caso, escritor) que não entende como o mundo ainda não se curvou perante a sua obra (mesmo que ela se resuma a um só conto) e ao invés de praticar, lamenta-se pelos cantos as injustiças e obstáculos que as musas, seu editor e quase inexistentes leitores estão lhe impondo. Pior: Bandini é um gastalhão, e não guarda um só centavo dos seus pagamentos pelas suas poucas publicações, gastando-os com futilidade e com a certeza de que, futuramente, aqueles trocados de direitos autorais serão substituidos por milhares e milhares de dólares graças a sua genialidade literária.
Eu poderia ter jogado o livro pela janela se Jonh Fante, autor do livro, não fosse tão bom. Por algumas horas, eu FUI Bandini, e assim como ele, vaguei confusa por debaixo do sol da Califórnia, martelei inutilmente uma máquina de escrever e desenvolvi uma relação de amor e ódio com uma garçonete latina. Na arte de fazer com que o leitor se sentisse no lugar do personagem Fante era mestre, e os sentimentos contraditórios de Bandini me acertavam repetidamente como vagões de um trem em alta velocidade. Não havia espaço para respirar: quando eu imaginava que Bandini havia se cansado de todo o seu drama, uma âncora de alguma de suas ações estúpidas me puxava para baixo, fazendo com que eu me afogasse de novo no mar da angústia desse tão estranho personagem. Desde as primeiras páginas, um enredo ou até mesmo o começo meio e fim do livro parece inexistente, mas isto acaba se revertendo em virtude: tive a sensação de que tudo estava ocorrendo enquanto eu estava lendo, tornando o livro muito mais real.
Não conhecia a obra de Jonh Fante, e nunca me interessei muito pelos escritos da Geração Beatnik, que foi inspirada por ele - a escrita sem fôlego de Jack Kerouac (o mais famoso escritor beat) me fez desistir de Os Vagabundos Iluminados na quinta página. Contudo, Pergunte ao pó é tão bom que resolvi parar de ignorar, em termos literários, o século XX.
Nota: 5/5

14 janeiro 2012

L7: Anna e o beijo francês


Confesso ter certo preconceito com livros YA que não têm o que chamo de “algo a mais” – falo de distopias, situações pós apocalípticas ou um toque de sobrenatural ou fantasia. Digo isso porque a probabilidade do tal livro (quando se mistura a faixa etária do público alvo e a falta do toquezinho de irrealidade) ser um romance açucarado, com uma protagonista dramática demais ou obcecada (alerta para clichê americano!) pela tal da popularidade é grande.
Mas Anna e o beijo francês estava dando bobeira, muita gente na blogosfera YA falou bem e eu estava entediada: isso, somada a qualidade e leveza do livro, me fez lê-lo de uma noite.
Anna, a protagonista, é obrigada por seus pais a ir estudar em um internato em Paris. A primeira vista, não entendi do que ela tanto reclamava (pô, Paris ainda é Paris!), mas só aí vi o quão complicado era: em Atlanta, sua cidade natal, ela estava em sua zona de conforto, com amigos, uma escola que ela aprendera a suportar e um emprego que, além de oferecê-la o próprio dinheiro, oferecia também a visão de um colega gato.
Contudo, a mudança para a cidade luz era inevitável, e lá foi ela, que começou com sorte: logo fez uma amiga, Meredith, e esbarrou com o lindo Étienne St. Clair, que rapidamente se torna objeto de seus sonhos. Mas é claro que haveria uma complicação: Étienne namora há mais de um ano com Ellie, estudante de fotografia e amiga de todo o grupinho pelo qual Anna foi adotada.
Mesmo começando com uma ideia um pouco batida, Anna e o beijo francês surpreende: é uma delícia conhecer Paris junto com Anna e Étienne, que usando como desculpa falta de habilidade linguística dela, a acompanha em vários dos monumentos que tornam a cidade dos apaixonados especial.
Além disso, Anna não é uma protagonista chata e Étienne não é um mocinho perfeito: ambos possuem seus momentos. Anna é divertida, não é bonita ou inteligente de forma forçada, tem outras razões para viver que não garotos (sim, estou falando de algumas mocinhas de Meg Cabot) e manias que, dependendo da ocasião, podem ser fofas ou irritantes. Já Étienne St.Clair, apesar de ser um pouquinho legal demais no começo – acho meio utópico existir um cara bonito, super inteligente, culto, amigo de todos e com um sotaque legal – acaba mostrando seus defeitos nos primeiros capítulos.
É esse tipo de YA que sinto um pouco de falta no mercado: um livro que (mesmo com a leveza e temas típicos de “jovens adultos”) não me faça querer jogar o livro num canto e ir ler algo mais real.
Nota: 4/5

13 janeiro 2012

L6: Especiais


ALERTA: pode conter spoiler dos dois primeiros livros da série Feios.
Eu sempre quis saber como seria o mundo caso não existisse a noção de beleza. Não digo a beleza da arte, porque assim como os rapazes de A Sociedade dos Poetas Mortos, não acho que exista vida (ao menos uma vida completa) sem a mesma. Estou me referindo a beleza física, aquela que em todas as classes sociais e lugares do mundo é almejada, desejada e clamada por uma parcela significativa da população. O mundo é prometido em troca do peso ideal, a alma é vendida para atingi-lo. Nessa odisséia, todas as outras qualidades que poderiam existir - se é que beleza física é mesmo qualidade - são postas de lado, a saúde é esquecida e a vida, por vezes também.
A série Feios se tornou uma das minhas preferidas por extremar essa obsessão pelo belo: no mundo de Tally Youngblood, todos com mais de dezesseis anos ganham uma cirurgia que os deixa fisicamente "perfeitos". Contudo, há um pequeno incômodo que vem com a tal cirurgia: lesões no cérebro, que tornam todos os perfeitos conformados, bobocas e felizes.
Mas não Tally e Shay. Como falado no final do livro anterior, Perfeitos, ambas se tornam Especiais, a força de segurança da cidade. Mais do que isso: elas são Cortadoras, jovens Especiais que além da força, crueldade e velocidade são programados para viver na natureza.
Os enfumaçados - grupo de pessoas que se opõem a operação - contudo, estão tornando o trabalho de Tally e Shay mais difícil, distribuindo pílulas que curam as lesões e aumentando cada vez mais seu número de membros. Pílulas, aliás, que trouxeram um grande problema para Tally: seu namorado, Zane, tomou-as de forma incorreta em Perfeitos, o que o deixou em coma. Quando Zane acorda deste coma, contudo, tudo se complica ainda mais para Tally: ele não passa de um perfeito ou um medíocre, como os Cortadores costumam se referir a todos ao seu redor. Menos do que isso: graças as pílulas malucas dos Enfumaçados, Zane está menos sagaz do que antes, com conseqüências físicas desagradáveis.
Após decidir que não conseguiria conviver com a tremedeira nas mãos de Zane, Tally bola um plano arriscado: para provar que Zane é bom o suficiente para ser um Cortador, ela se dispõe a ajudá-lo a fugir para a Nova Fumaça, matando assim, dois coelhos de uma cajadada só.
Irritante é como eu descreveria Tally nesse livro. Adorei Scott Westerfeld ter escolhido, em Feios, a personagem alienada e não a consciente para ser a narradora: assim, o leitor e Tally entram em processo de conscientização juntos. Contudo, como Especial, Tally ultrapassa as fronteiras da arrogância, descrevendo tudo a sua volta de forma meio abatida.
De maneira geral, gostei do livro, mas não o senti como um bom encerramento. A série, planejada para ser uma trilogia, acabou ganhando mais um livro, que espero ansiosamente para ler. Em Especiais, é finalmente quebrada uma barreira: assim como em Admirável Mundo Novo, o mundo distópico de Feios parecia perfeito demais. Todos eram felizes, não existia fome, guerra ou doença... O único defeito de verdade era a ausência da liberdade, a ausência do verdadeiro alimento da alma. Renunciar a um mundo basicamente perfeito pela mesma é arriscado, arriscado demais, mas gostei da forma que o autor abordou o assunto, colocando a liberdade como um direito inalienável e insubstituível. Espero que em Extras, o quarto livro, estes conceitos sejam melhor trabalhados :)
Nota: 3/5 (sim, eu dou notas agora)

09 janeiro 2012

L5: A menina que brincava com fogo

Demorei um pouco para ler "A menina que brincava com fogo": ganhei-o de presente em um amigo secreto de 2010, e agora me arrependo de ter feito a leitura somente semana passada. Apesar de preferir "Os homens que não amavam as mulheres" o primeiro livro da série Millenium, escrita pelo sueco Stieg Larsson, o segundo volume também possui seus méritos. Aspectos positivos, tais quais os personagens interessantes e estória envolvente são mantidos, mas a linguagem por demais direta (ou também podemos dizer jornalística, profissão de Larsson) também prossegue.
Mas esta é uma das poucas críticas que posso fazer ao livro. Depois de ter sua vida salva por Lisbeth Salander, o jornalista Mikael Blomksvit tem a chance de retribuir: a perigosa hacker de nível internacional é indiciada por triplo assassinato. Uma de suas suposta vítimas é um velho conhecido: seu tutor, que a estupra no primeiro livro e, depois de cair em uma armadilha, é obrigado a obedecer as exigências feitas por Lisbeth. Os outros são figurinhas novas: um casal composto por uma criminologista, que pesquisa a prostituição na Suécia, e um jornalista, colaborador da Millenium, revista de Mikael.
Quando Lisbeth é apontada como principal suspeita e começa a ser procurada (em vão, já que a habilidosa hacker é cheia de truques) uma crítica ao sensacionalismo midiático é feita pelo autor: mesmo sem a certeza de que Lisbeth seria culpada, os detalhes mais íntimos da sua vida são expostos e manipulados, pintando-a como uma psicopata assasina. Neste meio, cabe a Mikael achar culpados alternativos, salvando então sua amiga da prisão.
Lisbeth Salander é, talvez, uma das minhas personagens preferidas de ficção: gosto de sua moral torta, sua inteligência e suas habilidades investigativas. Larsson consegue fazer com que a moça anti-social pareça uma heroína, uma heroína ligeiramente torta, mas uma heroína. Além disso, é uma delícia a história ser ambientada em Estocolmo: é bom fugir do eixão de grandes cidades/cidadezinhas americanas.
O feminismo contido em Millenium é um capítulo a parte. Algumas feministas criticaram a personagem Lisbeth Salander, contudo, creio que isso só se aplique ao filme.: ambos os livros que possuem personagens femininas fortes (Lisbeth e Erica Berger, diretora geral da Millenium e amante de Mikael) e criticam incessantemente a violência contra a mulher.. Mia Bergman, uma das supostas vítimas de Lisbeth, pretendia denunciar vários homens pelo uso de prostitutas (o que é crime na Suécia) inclusive policiais. Mikael, munido desta informação, começa a procurar culpados dentre os clientes sexuais, inserindo assim a discussão sobre a violência contra prostitutas. Na Suécia, onde todas as suas cidadãs têm garantidas as condições mínimas de vida, as prostitutas são, em sua maioria, adolescentes estrangeiras, que são atraídas por falsas promessas de emprego e vida melhor e acabam sendo exploradas e levando seqüelas (tais quais traumas e vícios) para toda a vida. Outro ponto aqui é creditado a Larsson: ele não só mostra os males e a organização da prostituição, mostra também as diferentes reações de membros da sociedade, muitas quais coniventes ou até mesmo favoráveis a exploração sexual de estrangeiras.
Ainda não assisti a versão sueca do filme do primeiro livro, mas procurarei logo que voltar à minha cidade. A versão americana me pareceu, pelos trailers, um pouco, hã, americanizada, mas não deixarei de assisti-la também.
O plano inicial de Larsson eram cinco livros, contudo, ele morreu após entregar o terceiro ao seu editor. É uma pena: Millenium é aquele tipo de saga que, pela amplitude do seu tema, poderia sempre se renovar.