Minhas opiniões sobre clichês se contradizem. Sim, a
sensação “já vi isso – mais ou menos um milhão de vezes” é péssima, mas clichês
não seriam tão largamente usados se não fossem pelo menos um pouquinho bons.
Se as pessoas não gostassem deles.
Não tem aquela coisa meio Bella/Edward/Jacob, de um
triângulo amoroso que não pode se concretizar graças a insegurança da mocinha
(que é, obviamente, seu único defeito de fato) e falhas imperdoáveis (no caso,
respectivamente, vampirismo e licantropia) dos heróis? Pois é: Cassandra Clare,
adorada por nove entre dez leitores de YA fantástica, abriu mão desse artifício
no segundo livro da sua série As peças
infernais (prequel para a mais famosa Os
instrumentos mortais), Clockwork
Prince.
Em ambas as séries, um submundo sobrenatural existe – e
Tessa Gray é parte dele. A garota, contudo, é bastante incomum: ela desconhecia
seu poder – o de mudar de forma – antes de se mudar para a Inglaterra e ser “treinada”
por uma dupla de feiticeiras que a seqüestrou.
Depois de ser salva de suas sequestradoras, Tessa é acolhida pelos Caçadores das
Sombras – uma espécie de polícia desse submundo – do Instituto de Londres. Seu novo lar, contudo, vê-se ameçado.
Desde que assumiu a diretoria do Instituto de Londres,
Charlotte encontra resistência por parte dos outros Caçadores das Sombras – não
por incompetência, mas por ser mulher – imaginem só: se somos raras em cargos
de liderança em 2012, no século XIX, então, o estranhamento era maior ainda.
Pois bem: por ter deixado que o Magister – mundano rico
conhecedor das artes mágicas e possuidor de um exército de autômatos (daí o
nome da série), que pretende seqüestrar Tessa a fim de usar seu poder –
escapasse, Charlotte enfrenta ainda mais oposição. Para que o Instituto não
passe para as mãos do detestável Benedict Lightwood, uma missão impossível deve
ser cumprida: encontrar o Magister em duas semanas.
O defeito que apontei no primeiro livro, Anjo Mecânico, sumiu – não porque
Cassandra Clare matou o personagem Will ou mudou seu comportamento detestável,
mas uma justificativa boa o suficiente veio a tona para os leitores. Isto,
contudo, deu um tom levemente melodramático ao livro: o típico “ai meu deus,
sintam pena de mim” se fez presente. O desconhecimento dessa justificativa por
parte de Tessa a faz continuar entre a cruz e a espada: ficar com Will, que
alterna momentos de comportamento irascível e ternura contida ou com Jem, que
está morrendo – ironicamente, graças a droga que o mantém vivo?
A questão do poder feminino é explorada mais a fundo, não só
com Charlotte e sua direção no Instituto, mas também com Tessa vencendo pouco a
pouco seu horror a coisas não “femininas” – afinal, como andar com Caçadores
das Sombras e não aprender a lutar? Embora o livro não se foque tanto em
descrever a Inglaterra Vitoriana como Anjo
Mecânico, ainda há algumas pitadas aqui e ali, dando toques especiais as
passagens onde esta descrição se faz presente. Os diálogos parecem ser o ponto
forte de Cassandra Clare: os músculos do meu rosto se organizavam em um sorriso
involuntariamente (juro, eu tentei) toda vez que Will e Tessa conversavam –
ambos são loucos por livros, e suas referências e debates sobre os mesmos são
fascinantes.
Mesmo me decepcionando um pouco com Clockwork Prince e todo seu açúcar, o mundo que a autora criou é
fascinante demais para me fazer não querer esperar até março de 2013 pela
continuação. Alguém aí tem uma maquina do tempo sobrando?
Nota: 3/5














