05 março 2014

Jogador número um e as desvantagens de não ser uma fã girl



Acho que meu maior problema é não ser uma fã girl.

Calma, eu explico: estou muito bem sem ataques cardíacos a cada lançamento de um teaser trailer da minha série preferida. Apesar de esperar bastante por sequencias de séries literárias, consigo dormir – sem grandes ansiedades aqui – e mesmo se a cena for emocionante, não tenho tanta vontade assim de gritar no cinema.

Mas eu sinto falta da obsessão, da obsessão que faz com que você decore cada fala de episódios de um seriado, assistindo-os milhares de vezes. Desde Harry Potter e Desventuras em série, nunca mais destruí um livro por tê-lo relido vezes demais, a lombada quebrada como um Keri Smith e as páginas quase derretendo entre meus dedos.

Não, eu aprecio cada obra que leio ou assisto, cada música que escuto. As que são boas ganharão um local no meu coração, e as extremamente perfeitas serão revisitadas ocasionalmente sempre que eu arrumar um tempinho para elas, ou quiser um porto seguro para me divertir. Mas existem coisas demais no mundo para que eu assista Pulp Fiction (um de meus favoritos) cem vezes; ouça Black Keys todas as manhãs indo para a escola ou releia Cloud Atlas até que eu precise comprar um exemplar novo. Sou uma fã de quantidade, que quer experimentar o máximo desse maravilhoso mundo de ficção, não uma de obsessões.

Vivo em paz comigo mesma nesse estado na maior parte do tempo, ficando feliz pelo meu enorme repertório e não ligando por não saber parágrafos inteiros de A arma escarlate, mas quando me deparo com um fã obsessivo de carteirinha, pontadas de inveja me atingem. Como é possível amar tanto uma coisa assim,meu Deus?

E ah, Wade. Você me deu uma inveja de doer. Inveja de ter que subir o Bonfim de joelhos pra pedir perdão.

31 janeiro 2014

It's kind of a funny story (livro)

Vou falar por experiência própria, mas acho que esse é um problema de toda uma geração – pelo menos daqueles que, claro, tem um padrão de vida de classe média e acesso aos principais meios de comunicação (posso parecer uma babaca de vez em quando ao falar sobre essas coisas “gerais” que na verdade não são acessíveis para boa parte da população, mas como falarei de uma vida e de um mundo que não conheço de perto?).

Temos escolhas demais.

24 janeiro 2014

9 planejamentos de autores famosos



Sou uma grande fã de planejamentos, ou, no inglês, outlines - aquele resuminho básico dos acontecimentos que vários escritores fazem com o objetivo de traçar uma linha dos acontecimentos em suas obras. Achei nesse post aqui alguns planejamentos de livros razoavelmente famosos, indo de Harry Potter e a Ordem da Fênix até algumas outras que nunca ouvi falar. Eis então a bagunça da mente de um escritor em produção:

22 janeiro 2014

Maratona literária 2.0



Pois é, meio que ~voltei~ com os vídeos. Nesse,comento a minha participação na Maratona Literária 2.0, que rolou semana passada. O que acharam?

16 janeiro 2014

Unwind (livro)



Unwind tem uma premissa estranha, mas que ao mesmo tempo gira em torno de algo que divide muita gente. Anos antes da história (uma distopia em um futuro distante, mas não tanto) houve a chamada “heartland war”, ocorrida graças ao conflito entre os “pró vida”* e “pró escolha” - os dois lados na briga sobre a legalização do aborto – que atingiu níveis de tensão máximos.

Aí há um problema que me fez franzir um pouquinho a testa no começo da leitura. Sim, sei que a legalização do aborto é uma questão importante (essencial, levando em conta o número de mulheres mortas em abortos ilegais) mas mesmo em um país como os Estados Unidos (em que religiosos radicais e progressistas brigam feroz e nem sempre honestamente) uma guerra civil completamente dedicada à isto me parece um pouco exagerado.

Mas distopias nem sempre são feitas para serem críveis; então continuemos. Como forma de terminar a guerra – e satisfazer ambos os exércitos pró vida e pró escolha – foi assinada a Bill of Life (algo como Constituição da Vida), que estabelece que a vida humana é intocável do momento de concepção até os treze anos de idade. A partir daí, porém, os pais podem escolher “abortar retroativamente” uma criança, mandando para ser Unwinded, ou seja: todas as partes de seu corpo (exceto por aquelas como o apêndice, que você não usaria de qualquer jeito) serão enviadas para pessoas que necessitam de uma doação, cada vez mais comuns uma vez que a ciência parou de procurar curas após a legalização de Unwinding.

Prática que, aliás, não é só legal: é aceita por toda a sociedade. Problemas número dois e três vem aí: como pró-escolha ferrenha eu mesma, tenho minhas dúvidas de se qualquer um dos lados acharia que Unwind é uma boa solução para a sua briga. Toda a briga pró-escolha não é sobre ter a responsabilidade sob uma criança ou não, e sim sobre os direitos da mulher sobre o próprio corpo. Unwinded seria uma solução pobre, e duvido que os exércitos da Heartland War discordassem de mim.

O problema – ou na verdade a solução – é que Neal Schurman é tão perfeito na caracterização e descrição de seu mundo que, mesmo com esses dois buracos históricos gigantescos, é difícil não acreditar que ele é real. O mundo de Unwind parece ter exigido um nível de planejamento e detalhe tão grande que é impossível não admirar.

Entre toda essa coisa, temos três personagens que vão ser Unwinded por motivos bem distintos. Primeiro há Connor, um garoto bastante rebelde cujos pais não conseguem controlar. Risa cresceu em um orfanato do estado, e aparentemente sua vida – e sua possível brilhante carreira como música – não é valiosa o suficiente para lhe garantir um lugar por lá – Unwind é então colocado como solução. Por último ficamos com o mais estranho, Levi, um garoto de uma família religiosa riquissima que, pela velha regra bíblica dos dez por cento como dízimo, tem que dar um de seus dez filhos ao mundo, filho este que vai feliz e satisfeito por cumprir o seu dever como religioso.
Os caminhos dos três se cruzam em um estranho acidente de carro. A fuga de Unwinds, algo obviamente comum, é tratada seriamente, com policiais eficientes trabalhando contra isto e população atenta a jovenzinhos vagando sozinhos por aí. O nosso estranho grupo, porém, é extremamente inteligente, e sobrevive de uma maneira ou de outra, em uma corrida aparentemente interminável.

Já li Unwind faz um tempinho, e o livro ainda me deixa um pouquinho confusa sobre o que pensar dele. Como já disse, a construção é boa, salvando a premissa de mundo semi-absurda. Os personagens, obviamente, crescem bastante no caminho, em um arco bem traçado e crível.

As resenhas que li discutem se o livro seria contra ou a favor da legalização do aborto, mas não creio que isso seja necessariamente relevante – com a sua solução absurda achada para essa discussão, o autor a colocou em segundo plano, discutindo, na verdade, o valor da vida. Não da vida de um feto, mas da vida dos Unwind que existem, em maneiras diferentes, na nossa realidade; da vida de mães que abandonam os seus filhos nas portas de casas exubertantes por não terem o mínimo de estrutura para cuidar dos mesmos e, obviamente, na individualidade de cada um, construída através dos anos, preciosa demais para ser jogada fora por mais marginal, rebelde ou sem expectativas que seja.