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31 dezembro 2014

Misto quente (livro)


Tenho um certo preconceito com Bukowski – o famoso autor alcoolotra não media palavras ao dizer o quão mais importante inspiração era do que aspiração, ao contrário de quase todos os seus companheiros romancistas.

Mas ah, Bukoswki! Se até mesmo os grandes se escondem debaixo da cama, com medo de seus primeiros rascunhos, como seu conselho pode ser válido? Se Guimarães Rosa era um obcecado com revisões – que você afirmava não fazer, depois de uma sessão de escrita bêbada – como acreditar em seus conselhos? Neil Gaiman disse que se você esperar a inspiração, poderá até ser um poeta decente, mas nunca será um romancista. Acreditei nessa premissa e admirei os poemas de Bukowski, evitando os seus romances, mas a curiosidade me venceu e fui ler Misto Quente.

24 agosto 2013

Sábado + livro = < 3: O grande Gatsby



Jane Austen já havia me ensinado, e agora F. Scott Fitzgerald reafirma: a humanidade mudou muito pouco.

30 março 2013

[LIVRO] O processo

                                               


Como blogueira, meço pessoalmente a qualidade de um livro, série ou filme só por um aspecto: o quanto eu me diverti.

Acredito que não sou a única – afinal, qual seria o sentido dos blogs se não fosse esse? Ainda que se fale sobre desenvolvimento de personagens, o conhecimento que se ganhou e a riqueza ou inovação da trama, diversão é o melhor termômetro. Para quê ver a opinião de um leigo, então, se existe a opinião de vários profissionais por aí? Pela existência dessa óbvia diferença entre um blogueiro e um crítico cultural que expõe o que acha em um jornal ou revista, nunca consegui compreender muito bem a opinião desse cara aqui sobre os blogs literários.

23 março 2013

[LIVRO] A abadia de Northanger



Folheando o meu módulo da escola (atividade bem mais interessante do que estudar nele, devo sinalizar) me deparo com um texto sobre devaneios. Este assunto muito me interessa: eu e eles somos bons amigos, companheiros de todas as horas. Qualquer acontecimento é um gatilho para, em um segundo, um sonho acordada de mil possibilidades, felizes e fatais, banais ou transformadoras. É um mal de romancistas em geral, creio eu: a realidade é o mármore, e nossos devaneios o cinzel – alguns resultando em um bom trabalho, outros em refugo ou pó perdido para sempre.

Qual não é minha surpresa quando descubro, afinal, que esse mal coletivo está sendo patologizado: já existem remédios para devaneios excessivos.

Espero que não aconteça com isto a medicação e diagnósticos desnecessários que já ocorrem com outros males, mas é fato que nada em excesso faz bem. Catherine Morland, uma das heroínas mais desmioladas de toda a literatura, bem sabe disso.

26 setembro 2012

Razão e sensibilidade




Eu estava lendo Cosmópolis quando Jane Austen me chamou.

Não que Cosmópolis fosse um livro ruim – muito pelo contrário pelo que pude ver – mas relancear a adaptação cinematográfica de Orgulho e preconceito na televisão causou-me aquela febre por um determinado assunto que acomete leitores e cinéfilos de vez em quando, tão inexplicável, repentina e essencial de se saciar como um desejo de grávida. Resultado: a leitura (por muito procrastinada) de Razão e sensibilidade e assistir uma temporada inteira de Downton Abbey (uma das melhores séries de época que já vi – Fernanda falou dela aqui melhor do que eu poderia) em dois dias.

Como Machado de Assis fez no Brasil, Jane Austen retratou os defeitos humanos sem dó – talvez de forma um pouco mais sutil do que o maior escritor da literatura brasileira (como convinha a uma moça de família aristocrática daquela época) mas ainda assim fabulosa.

É a sutileza da ironia em Jane Austen que faz com que eu deteste as adaptações de seus livros para as telas: exceto pelas mini-séries da BBC, em geral se dá um certo tom de comédia romântica, de besteirol, de filme com Hugh Grant enfim, uma quase heresia que me fez revirar os olhos para todas que assisti.

05 março 2012

L15 - Dom Casmurro

Dizer que eu, em geral, não gosto dos livros da escola é pouco – eu os detesto. Até agora, no ensino médio (embora eu esteja ainda no segundo ano) só estudei gêneros literários bobinhos e eu diria até mesmo secundários –fora a poesia romântica, nenhum despertou em mim, leitora ávida, a menor centelha de curiosidade. Além disto, meu hábito de ler me fez associar leitura ao prazer, a descontração e falta de responsabilidades; não à obrigação e aos prazos – muito menos à testes de múltipla escolha.
Mas, pela primeira vez, um livro escolar me encantou: Dom Casmurro. Há pouco a ser dito dessa obra, já que todos conhecem a estória de amor e obsessão de Bentinho e Capitu escrita pelo brilhante e imortal Machado de Assis. Como não posso dizer muito de novo sem cair na maravilhosa  e irritante prolixidade, fiz uma resenha em um formato diferente – o de lista – e aí vão minhas oito razões pelas quais você deve correr para a biblioteca, livraria ou supermercado mais próximo e ler Dom Casmurro JÁ (caso ainda não o tenha feito):
1 – É provavelmente o maior clássico da literatura Brasileira
Esse parece ser um motivo bobinho, mas não é. Além de ser cobrado na maior parte dos vestibulares e concursos, Dom Casmurro é conhecido internacionalmente – mais de um gringo já me indagou sobre meu veredito no mistério de Bentinho e Capitu, além de inúmeras referências a ele em livros contemporâneos. E, mesmo que você deteste o Brasil e nossa literatura, garanto-lhe que Dom Casmurro está ao lado dos grandes clássicos de outras terras em termo de qualidade.
2 – Citações brilhantes
Eu não sou do tipo que gosta de encher os perfis das redes sociais de citações de livros ou coisas do tipo – em geral, elas estão fora de contexto, e a maior parte delas não fazem tanto sentido assim. Contudo, Machado de Assis é tão brilhante em suas reflexões sobre a vida que qualquer um o entenderia. Eis uma das minhas citações prediletas:
Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.
3 – História
Embora eu saiba que os séculos passados seriam considerados por mim bem desagradáveis, gosto bastante de observar os atos de personagens em livros passados em séculos passados. Todas as eras possuem seu charme, e assim como Jane Austen, Machado de Assis cerca a época em que viveu com uma aura que, apesar de crítica, torna seu universo quase mágico.
4 – Personagens imperfeitos
Em praticamente toda resenha que faço há uma ode aos personagens que são somente demasiado humanos, aqueles com quem posso me identificar e/ou sentir pena de, cujas personalidades são colchas de retalhos, resultando de anos de experiências e conflitos internos. Nenhum personagem de Dom Casmurro segue formulas pré-existentes, nenhum é pouco complexo. Até mesmo a mãe de Bentinho – cujo epitáfio foi “Uma Santa” – apresenta seus deméritos, nada escapando à criticidade do narrador.
5 – Adaptações para o cinema e para a televisão
Acredito ser bastante desinteressante me aventurar em assistir qualquer tipo de adaptação sem antes ter lido o livro: simplesmente não consigo prestar atenção graças ao fato de que sei que, na maior parte dos casos, o livro será melhor. Dom Casmurro foi exaustivamente adaptado, e agora me sinto apta para julgar a qualidade destas adaptações com um olhar mais apurado. Aqui tem um videoclipe muito bom com cenas da minissérie Capitu, de 2008, da Rede Globo.
6 – Não é tão complicado quanto parece
Alguns torcem o nariz para os clássicos, achando que eles serão complicados demais, que, para cada duas palavras, uma será desconhecida. Li Dom Casmurro em pouco tempo – talvez não menos do que levaria para ler um livro YA, mas a leitura flui muito bem: embora alguns termos e referências fossem desconhecidas, elas eram poucas, e as existentes enriqueceram meu repertório.
7 – É MUITO atual
Dizem os entendidos que a boa literatura é perene, isto é, dá ao leitor, independente de onde ele está no tempo e no espaço, a sensação de que aquelas situações são reais, palpáveis e recorrentes. Quem não conhece – isso se não viveu esta situação – alguém que ficou cego, maluco de ciúmes por seu conjugue, acreditando que uma traição havia ocorrido? O ciúmes, assim como o amor, é universal, e vê-lo exagerado e brilhantemente descrito é sempre bom.
8 – Tire suas próprias conclusões sobre Bentinho e Capitu

Ocorreu ou não uma traição? Capitu e Escobar foram culpados, um por traição conjugal, outro de amizade? Ou Bentinho é apenas um louco obsessivo? Eu já possuía certa opinião antes mesmo de ler o livro por completo, mas só a leitura integral me garantiu de que ela fosse bem embasada. Sou partidária da segunda teoria, mas nunca saberemos: o autor levou esta resposta consigo para o túmulo. Ah, Machado! Ressuscita, por favor? Precisamos de suas respostas e do seu brilhantismo por aqui, em 2012...

28 fevereiro 2012

L14 - Mansfield Park

Demorei bastante para ler esse livro: há mais de quinze dias estou com ele na minha cabeceira. Não sei se foi pelo fato de que foi o primeiro livro que realmente li em inglês (adaptações curtinhas não contam) ou pela cansativa volta à rotina escolar, mas uma coisa é certa: não foi por “culpa” desta obra de Jane Austen, que, apesar de não atingir a mesma qualidade do que nos seus livros que li anteriormente, me surpreendeu mais uma vez.
As Srtas.Ward tomaram destinos bem diferentes na vida. Destinadas somente para o casamento, como as mulheres da época, suas trajetórias centraram-se nisso: a bonita e cativante Maria, a filha mais velha, casou-se com Sir Thomas Bertram, tornando-se então rica e parte da nobreza – uma ascensão social basante grande para quem possuía apenas algumas milhares de libras como dote. A filha do meio casou-se com um reverendo, o Dr.Norris, que, por influência da cunhada, foi empregado em Mansfield Park, a propriedade dos Bertram, o que lhes garantiu uma vida bastante confortável. Já Frances, a mais nova, não teve a mesma sorte das irmãs: para esta, coube o Sr.Price, um tenente da marinha sem herança ou conexões. O salário minúsculo do Sr.Price, seu hábito de beber e a grande fertilidade da mulher os fizeram ter vários filhos e uma vida bastante diferente da vivida por Lady Thomas e pela Sra.Norris.
A fim de ajudar a irmã, a Sra.Norris sugere que uma das crianças seja adotada pelos Bertram – afinal, onde moram quatro crianças, podem também morar cinco. Por isto, aos dez anos, chega em Mansfield Park a pequena Fanny Price, uma garotinha tímida e sem grandes atrativos.  Assim, ela é criada ao lado de seus seus primos: o filho mais velho (e herdeiro da família), o esbanjador Tom; as glamurosas e fúteis Maria e Julia e o atencioso Edmund, que não mede esforços para ver Fanny confortável e está destinado, como filho mais novo, a se tornar um reverendo.
Depois da morte do Dr.Norris, o cargo de reverendo de Mansfield (ter um reverendo por propriedade era regra na Inglaterra da época; e os párocos anglicanos, ao contrário dos padres católicos, poderiam se casar e constituir família, além de possuir alto grau de educação e um bom salário) fica por conta do Dr.Grant, cuja esposa possuía dois irmãos – Henry e Mary Crawford, ricos e charmosos jovens acostumados à sociedade diversa e elitista de Londres. Todo o charme dos Crawford balança o coração dos Bertram; tanto de Júlia e Maria quanto de Edmund; mas quando o caráter de Mary vem à tona e Henry se apaixona por Fanny – logo o patinho feio da família! – tudo vira de cabeça para baixo em Mansfield Park.
Não encontrei outro autor com a capacidade de dizer com palavras coisas outras que seu sentido original como Jane Austen. A grande escritora inglesa é de uma ironia bastante peculiar: é bastante leve, e o leitor precisa ter atenção redobrada para percebê-la em alguns trechos. Confesso que, no início, achei Fanny meio sem sal: ela não era excepcionalmente inteligente, extrovertida e tão pouco suas observações eram essenciais para o decorrer da estória. Contudo, depois de algumas páginas, percebi o que Jane Austen queria com isto: ao revelar aos poucos os trunfos de Fanny, ela questionava o  status de “caridade” que havia sido dado à sua “adoção” por parte dos tios – afinal, Maria e Julia Bertram eram bastante fúteis, e, sem Fanny, Lady Thomas Bertram com certeza se sentiria solitária.
Mas, infelizmente, ao contrário dos outros livros que li da autora, ela errou a mão em um ponto importante: enquanto alguns personagens chave têm suas características descritas timtim por timtim (com toda a complexidade psicológica típica de Jane Austen), outros são negligenciados nesse aspecto. O livro também flui de forma mais lenta e empacada do que os outros – apesar de ser mais curto do que quase todos eles. Como já haviam me falado, os livros Jane Austen são bastante indicados para quem não está acostumado a ler em inglês, não só linguisticamente (ela não é de muitos floreios): até o próprio preço vale a pena (várias livrarias importam as edições dos Penguin Popular Classics, que saem por cerca de sete reais).
Mansfield Park não deixa de valer a pena por causa dos pontos negativos que levantei – afinal, ainda É Jane Austen, e estou curiosa para saber se essa mulher sabia escrever algo ruim.
Nota: 4/5

12 fevereiro 2012

L13: Emma

À primeira vista, o cotidiano dos homens e mulheres da aristocracia inglesa do século dezoito pode parecer terrivelmente entediante: os homens não trabalhavam muito; a vida das moças girava em torno de conseguir um marido e das mulheres em torno do casamento; os preconceitos de classe eram mais acentuados e as regras sociais pormenorizadas a um nível quase insuportável. A fala era polida demais, as ocupações e diversões escassas e a educação feminina extremamente limitada.
Por isso que devo chamar Jane Austen de fada: ela realizou a mágica de fazer essa sociedade tão intrincada, parada e diferente parecer fascinante, mesmo sob o olhar de uma jovem do século XXI. A falta de “atrativos femininos” de Jane Austen a fez nunca se casar, usando então o tempo que outras mulheres dedicariam aos seus maridos para observar a natureza de seus pares.
Natureza humana esta que pode ter mudado de foco com o passar das décadas, mas não de essência: identifiquei-me com várias das características de Emma (infelizmente, mais com seus defeitos do que qualidades), personagem principal do livro homônimo, e conseguia encontrar semelhanças entre os meus conhecidos e os da heroína. Mesmo com a ascensão da mulher, o fim de uma aristocracia e de um modo de vida como narrado e a constante e lenta “criminalização” de preconceitos de classe; a essência humana continua (para o bem e para o mal) a mesma.
Emma é mimada por seu pai e pela sociedade: como se não bastasse sua riqueza (trinta mil libras de herança, uma fortuna enorme na época), ainda é bonita e inteligente. Morando em uma cidade com poucas pessoas que poderia considerar “de seu nível”, é rapidamente cativada pela doce e bela Harriet Smith, jovem pensionista em uma escola de damas e de procedência familiar desconhecida –  algo que era considerado quase um crime para uma moça na época.
Ignorando os conselhos de seu bom amigo Sr. Knightley – que, ao contrário dos outros heróis nos livros de Jane Austen que li, me cativou bastante por sua racionalidade – Emma prossegue com esta amizade, que, como era de se esperar, tem conseqüências desastrosas. A chegada de Frank Churchill, filho do Sr.Weston (marido da ex-governanta e mãe de criação de Emma), criado por seus tios no seio da alta sociedade inglesa, torna a situação ainda mais confusa e complicada.
Mesmo parecendo longo, o livro passa rapidinho, até rápido demais. Embora sua prosa seja muito boa (descritiva sem ser maçante, com diálogos brilhantes e reviravoltas boas e críveis) não é esta a maior qualidade de Emma ou de qualquer outro livro de Austen que eu já tenha lido: a autora não esconde de seus leitores a falta de beleza, inteligência ou o gênio ruim de quaisquer de seus personagens. Até mesmo os mais irritantes (como o Sr.Woodhouse, pai de Emma, que é o que nós, no século XXI, chamaríamos de hipocondríaco) tornam-se suportáveis pela extrema humanidade contida em si. Não há nenhuma tentativa,de fazer heróis perfeitos ou vilões maus demais para serem reais. Na verdade, essas duas categorias – heróis e vilões – são inexistentes: todos os personagens são salvadores ou algozes, dependendo por qual ponto de vista ou do momento que estão passando.
 Obrigada, Jane Austen, por não ter se casado ou feito qualquer coisa esperada das mulheres da sua época: se contrário fosse, não teríamos suas brilhantes análises da natureza humana.
Nota: 5/5

[Esse post foi feito para o Desafio Literário 2012]