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16 julho 2012

Children of Men/Filhos da Esperança


A fertilidade humana, no mundo do filme Children of Men, não passa de uma lembrança dolorosa: o último bebê nasceu há pouco mais de dezoito anos e quatro meses  e, desde então, nenhuma mulher engravidou. Os cientistas dos mais avançados centros de estudos médicos tentam entender o que aconteceu, mas não parece haver explicação plausível.

Como esperado, o desespero toma conta da humanidade, e somente alguns países – geralmente os mais desenvolvidos, usando-se de forte poder militar e autoritarismo – conseguiram manter seus prédios de pé e seus cidadãos vivos – bom, ao menos literalmente vivos – metaforicamente, as pessoas morreram com o choro do último bebê, os sons das últimas cantigas de roda, algo tão forte ao ponto de tornar necessária a distribuição de um kit suicídio, o Quietus, incluído na ração do governo assim como pasta de dente e biscoitos.

Theo não liga muito para tudo isso – bom, pelo menos na medida do possível: é difícil ignorar os ataques terroristas de organizações com várias bandeiras, as “jaulas” onde os imigrantes ilegais (fugindo de conflitos devastadores em seus países) foram postos e as lagrimas de seus colegas pelo Bebê Diego – o ser humano mais jovem do mundo – morto recentemente por um fã. A apatia geral de Theo quanto a vida é impressionante, e é isso que cria um fascínio quanto ao personagem – quem é aquele homem que não parece se importar com nada em meio ao caos?

Mas, precisando de dinheiro, Theo aceita trabalhar para o grupo Fish – que luta por melhores condições aos imigrantes e do qual sua ex-mulher faz parte. Sua tarefa é ajudar a levar Kee,uma jovem fugitiva, até o litoral –  mesmo as fronteiras intermunicipais estão fechadas – mas a aparentemente simples missão se complica por um simples fato: Kee está em estado avançado de gravidez. Repentinamente, tudo muda, e se torna objetivo do antes apático Theo levá-la em segurança até o navio do Projeto Humano, que irá protegê-la de governos tiranos e grupos que querem usar o seu bebê como bandeira.  

O filme é fantástico: há muito tempo eu não via nada que balanceasse tão bem ação, reflexão e emoção. Children of Men cutuca algumas feridas e curiosamente nenhuma delas tem relação direta com a infertilidade, e sim com suas conseqüências. Como, por exemplo, o fato de que sempre nos voltamos ao lado mais “radical” da coisa em situações ruins – é só ver o crescimento de partidos extremistas em época de crise econômica. As religiões que surgem no filme, por exemplo, ao invés de utilizarem os velhos métodos para o conforto de seus fieis, os transformam em verdadeiros mártires, fazendo com que carreguem “o peso do mundo” nas costas.

A imigração é outro tema recorrente: enquanto milhares de imigrantes são expulsos de suas pátrias adotivas de maneira desumana na atualidade, Children of Men faz sua versão distópica, nos apresentando uma situação tão crítica que cidades inteiras são transformadas em campos de refugiados para ilegais. O clima de perseguição é completo: os anúncios alienantes do governo – presentes em cada segundo do dia de seus cidadãos – lembram que alimentar, contratar ou ajudar imigrantes é igual a alimentar, contratar e ajudar terroristas – ironicamente, a maior parte dos “terroristas” do grupo Fish são britânicos.

São tantos temas, referências e críticas feitos por Children of Men que refleti por algum tempo se não foi ambicioso demais – são só duas horas de filme! Contudo, cheguei a conclusão que não: de certa forma, sem os flashes do que se tornou a vida em sociedade – que dão curiosidade e vontade de que estes fossem melhor desenvolvidos; ainda que tal feito seja literalmente impossível – haveria o sentimento de estarmos diante de algo incompleto.

Children of Men partiu, esfarelou meu coração em mil pedaços, colando-o de volta com pura esperança. Estou ansiosa quanto a ler o livro do qual o filme foi adaptado – afinal, todo bookaholic sabe o quão errado está o ditado que diz que uma imagem vale mais do que mil palavras.

Nota: 5/5

29 abril 2012

Os Vingadores

Não sou lá muito fã de Big Brother. Assisti quase toda a temporada em que Jean Wyllis foi o campeão, e, em momentos de tédio e falta de TV a cabo na praia, pesco dois ou três episódios – não com prazer ou desgosto, mas simplesmente com indiferença.


Mas mesmo estando longe de ser uma fã do programa, me irrito profundamente com as campanhas anti-BBB que são feitas online antes e durante a sua exibição – além dos incontáveis “graças a deus” e “ufa!” quando o programa acaba. Alegam que o Big Brother não traz cultura ou conhecimento para seus espectadores. Mas quem na terra assiste BBB para ficar mais “culto”? Qual seria o problema de entretenimento só por entretenimento?

Essa defesa do BBB acaba funcionando bastante ao meu favor – não pelo reality show da Globo em si, mas sim por outras duzentas coisas que adoro mas que, de fato, não acrescentam em nada no meu “repertório” ou me fazem refletir. Apesar de inconscientemente endossá-la às vezes, odeio essa perspectiva de que tudo na vida tem que ter uma utilidade prática – até mesmo as coisas feitas nos seus momentos de diversão e relaxamento.

Nesta lista de “entretenimento por entretenimento” estão os filmes do multiverso Marvel. Comecei a assisti-los por pura falta de opção – na cidade onde moro, só há um cinema, que tem o dom de quase nunca passar filmes que não sejam de criança/de ação/de comédia – e depois, por ter de fato tomado gosto pelas cenas de ação bem-feitas e produção impecável. Alguns deles têm também o poder de surpreender: adorei as referências históricas nos recentes Capitão América e X-Men: Primeira Classe – este último tão legal que é um dos poucos filmes que me fizeram pagar um indecentemente caro ingresso de cinema mais de uma vez.

Os Vingadores está sendo bastante elogiado no Tumblr, e, apesar de preferir os supracitados, compartilho em parte da empolgação. O enredo em si é bastante trivial para o universo das HQs: o semi-deus rejeitado Loki planeja a dominação da terra. Para isto, ele necessita do Tesseract, uma fonte inesgotável de energia encontrada pelas Indústrias Stark e estudada pela agência de espionagem SHIELD, com as pesquisas comandadas pelo Dr. Erik Selvig.

Depois de capturar o Tesseract, Loki hipnotiza (afinal, ele é um semi-deus bem fraquinho, mas ainda é um semi-deus) o Dr.Selvig e o agente Clint, para que ambos o ajudem no seu propósito de abrir uma fenda no espaço com o mesmo. Fenda esta por onde passariam soldados alienígenas Chitauri que, em troca do Tesseract, fariam com que os terráqueos se prostrassem aos pés de Loki.

Diante da ameaça, Nick, diretor da SHIELD, reinicia a iniciativa Vingadores – um time de super heróis usado para defender os Estados Unidos a Terra. Os Vingadores não são exatamente tão heróicos assim: o seu líder, o Capitão América, acaba de acordar de um “sono” de 50 anos e não está habituado ao mundo moderno; o playboy Tony Stark, o Homem de Ferro, tem problemas com modéstia e trabalhar em equipe; o Dr. Bruce, que ao menor sinal de raiva, pode se transformar em Hulk, matando a todos; a assassina profissional da SHIELD Natasha (ou Viúva Negra) vive entre crises de consciência por seu trabalho e Thor, por ser irmão de Loki, não tem certeza se deve ou não se juntar aos Vingadores.

Talvez o principal problema do filme – que não o tornou tão bom quanto outros da Marvel que assisti – sejam os personagens. Fora Tony Stark – que brilha por sua imodéstia charmosa e ironia sem limites – todos os outros  são muito pouco explorados no tocante as suas personalidades. Desde o início do filme, os seus problemas pessoais e a falta de química entre os Vingadores são bastante enfatizados, e é uma pena tal desperdício. 

De resto, o filme faz magnificamente bem o que se propõe. As cenas de ação são impecáveis, e ocorrem com uma freqüência que torna impossível o tédio. O que alguns milhões de dólares não podem fazer?

Embora de fato não sucite muitas reflexões a primeira vista, Os Vingadores (e outros filmes do gênero) não é exatamente vazio. A defesa as posições americanas perante o resto do mundo é bastante sutil – bem mais sutis do que o ultra-patriotismo em Capitão América, por exemplo – mas estão lá. Através de uma metáfora – onde os inimigos não são seres humanos de países ou etnias diferentes, e sim alienígenas feinhos e poderosos – o indefensável é defendido e justificado. Não sei o quanto essa "mini lavagem cerebral subconsciente" ajudou na construção do império que os EUA são hoje, mas chuto que bastante. O que seria da Terra do Tio Sam sem sua indústria de entretenimento?
Nota: 4/5



26 março 2012

Jogos Vorazes (filme)





É um hábito irritante dos diretores de filmes baseados em bestsellers não explicarem direito certas coisas, certos aspectos do enredo que, se não são essenciais para a história, pelo menos a fariam mais interessante. É como se eles possuíssem a certeza de que apenas fãs ensandecidas pela série assistirão aquele filme, e que nenhum curioso que não sabe que o filme em questão é baseado numa série de sucesso mundial  ousará pisar numa sala de cinema onde ele esteja passando.
Em menor escala do que o geral, o primeiro filme da série Jogos Vorazes, escrita por Suzanne Collins, sofre desse mal: quando Panem (o país distópico onde a trilogia se passa) é apresentado, senti uma carência muito grande de informações sobre o mesmo. Não é como se não houvessem explicações, mas senti que, caso eu não houvesse lido os livros, não entenderia muito bem porque todo aquele desespero em torno de algo chamado “colheita” ou porque colocar cercas com placas de “não ultrapasse, limites do distrito” em torno de uma vila.
Panem se localiza no que já foi a América do Norte que, depois de muitas guerras, foi dividida em treze distritos e uma Capital. Cansadas de trabalhar em prol do luxo e da ostentação da Capital, as pessoas do distrito treze se rebelam – mas são rapidamente vencidas. Para lembrar quem está no comando – e conseguir um bom show para seus habitantes ociosos – a Capital, todos os anos, realiza os Jogos Vorazes, uma espécie de Coliseu onde vinte e quatro jovens de 12 a 18 anos, dois de cada distrito (os chamados tributos) devem lutar até que apenas um sobre.
Katniss Everdeen – uma garota de dezesseis anos do distrito doze que garante o sustento de sua família através da caça desde a morte de seu pai – sabia que as chances de que ela fosse sorteada eram grandes: em troca de comida, ela aceitava, ano após ano, que seu nome fosse posto no pote onde os tributos eram sorteados mais vezes que o normal.
O que ela não esperava, contudo, era que sua irmã Prim, de apenas doze anos e com o nome no pote apenas uma vez fosse sorteada. Desesperada, Katniss se oferece em seu lugar – cena que, confesso, me emocionou desde os trailers – e assim vai para os Jogos Vorazes.
Mesmo sem grandes explicações sobre o mundo onde o filme se passa, uma coisa essencial se entende: os distritos se encontram em um péssimo estado, com bastante pobreza e algumas pessoas vivendo como quando no medievo. Quando Katniss e Peeta (o outro tributo do distrito doze) chegam o contraste entre a vida que ambos costumavam levar é imenso quando eles contemplam a vida cheia de excessos que pessoas dos doze distritos sustentam.
O filme é cheio de símbolos e referências, algo é mais possível de forma visual do que no papel: o estandarte onde o Presidente Snow fica, por exemplo, lembra bastante os palcos que eram armados para os comícios de Hitler, numa referência ao totalitarismo que é o governo de Panem. Não havia conseguido formar esta imagem mental durante o livro, mas ao ver Katniss de arco e flecha com uma trança no cabelo, consegui me lembrar das míticas Amazonas que, assim como ela, representavam força e poder femininos.
Como adaptação, é bem fiel: as mudanças foram poucas – na verdade, foram mais omissões, e os acréscimos me pareceram necessários para a introdução do segundo filme, Em Chamas. Não consigo imaginar outra que Jannifer Lawrence para fazer Katniss: ela conseguiu capturar aquela essência de menina forte que tanto me encantou quando li os livros. Josh Hutcherson também conseguiu capturar o precioso carisma de Peeta, que é essencial para sobrevivência dele e de Katniss na arena. As cenas das lutas não foram muito sangrentas, mas também não foram muito leves - apenas o suficiente para ser realista sem exagerar na classificação, ou espantar pessoas mais sensíveis do cinema. O único erro grande – além da supracitada falta de informação para quem não leu os livros – foi na sonoplastia, que, na falta, torna alguns filmes mais chatos do que realmente são.
Mas Jogos Vorazes não é chato – não mesmo. Lamento muito a série só ter ido até o terceiro livro – sem possibilidade de continuação graças ao seu final – mas agora que não tenho mais livros ou filmes de Harry Potter para ansiar por, posso muito bem me contentar em roer as unhas pelos próximos filmes de Jogos Vorazes.
OBS.: resenhei a trilogia inteira aqui.
ATUALIZAÇÃO (eu não poderia deixar de falar disso): Vários tweets foram feitos por fãs de Jogos Vorazes reclamando da escolha dos atores que interpretaram Cinna e Rue. Mas não foi por sua qualidade (eu particularmente acredito que não haveria melhor atriz para intepretar Rue), e sim pela cor de sua pele. O nível é bem baixo - um cara chega até dizer que não ficou mais com pena de Rue depois que descobriu que ela era negra. As justificativas são bem podrinhas - que Rue deveria parecer com Prim (Katniss fala que é por sua idade e tamanho, não fisicamente, e a propria autora fala que os concebeu ambos tributos do onze como afro-americanos) ou que Cinna deveria ser bonito (como se Lenny Kratvitz não o fosse). É uma coisa tão pequena se preocupar com a cor da pele de dois atores, tão insignificante para o curso geral do filme que não tenho nem palavras... Não os ter imaginado negros é uma coisa; sair fazendo comentários racistas e dizendo que o filme foi uma merda por causa disso é outra. Eles se dizem fãs, mas não entenderam a mensagem que o livro (como a maioria de ficção distópica) traz. Não leia esse blog que reuniu os tweets racistas caso você não queira ficar um tiquinho deprimido e com vergonha de ser humano. 
Nota: 5/5