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06 novembro 2012

A rainha do castelo de ar




Tenho protelado a leitura de A rainha do castelo de ar por um motivo bem simples: eu não quero que a série Millenium, uma das minhas preferidas, acabe - ao menos não para mim como leitora, já que, tecnicamente, não há como haver uma continuação.

Comecei a ler as aventuras de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander em 2011, por influência da mídia: muito se falava da adaptação americana para os cinemas, estrelada por Daniel Craig (falei dessa versão de Os homens que não amavam as mulheres aqui e da filmada por suecos aqui). Além disso, pipocavam notícias sobre a morte do autor, Stieg Larsson, ocorrida nas escadas do prédio onde ele morava – sessenta cigarros e litros de café por dia durante anos cobraram seu preço.

Embora essa não seja a impressão que fique (toques do editor, talvez?) Millenium estava programada para ter cinco, e não três livros. Aos leitores, só resta imaginar o que Stieg Larsson planejava e aproveitar o máximo possível os livros existentes. [A partir daqui, contém spoilers do segundo livro, A menina que brincava com fogo.]

22 junho 2012

Clockwork prince


Minhas opiniões sobre clichês se contradizem. Sim, a sensação “já vi isso – mais ou menos um milhão de vezes” é péssima, mas clichês não seriam tão largamente usados se não fossem pelo menos um pouquinho bons.

Se as pessoas não gostassem deles.

Não tem aquela coisa meio Bella/Edward/Jacob, de um triângulo amoroso que não pode se concretizar graças a insegurança da mocinha (que é, obviamente, seu único defeito de fato) e falhas imperdoáveis (no caso, respectivamente, vampirismo e licantropia) dos heróis? Pois é: Cassandra Clare, adorada por nove entre dez leitores de YA fantástica, abriu mão desse artifício no segundo livro da sua série As peças infernais (prequel para a mais famosa Os instrumentos mortais), Clockwork Prince.

Em ambas as séries, um submundo sobrenatural existe – e Tessa Gray é parte dele. A garota, contudo, é bastante incomum: ela desconhecia seu poder – o de mudar de forma – antes de se mudar para a Inglaterra e ser “treinada” por uma dupla de feiticeiras que a seqüestrou.  Depois de ser salva de suas sequestradoras, Tessa é acolhida pelos Caçadores das Sombras – uma espécie de polícia desse submundo – do Instituto de Londres. Seu novo lar, contudo, vê-se ameçado.

Desde que assumiu a diretoria do Instituto de Londres, Charlotte encontra resistência por parte dos outros Caçadores das Sombras – não por incompetência, mas por ser mulher – imaginem só: se somos raras em cargos de liderança em 2012, no século XIX, então, o estranhamento era maior ainda.

Pois bem: por ter deixado que o Magister – mundano rico conhecedor das artes mágicas e possuidor de um exército de autômatos (daí o nome da série), que pretende seqüestrar Tessa a fim de usar seu poder – escapasse, Charlotte enfrenta ainda mais oposição. Para que o Instituto não passe para as mãos do detestável Benedict Lightwood, uma missão impossível deve ser cumprida: encontrar o Magister em duas semanas.

O defeito que apontei no primeiro livro, Anjo Mecânico, sumiu – não porque Cassandra Clare matou o personagem Will ou mudou seu comportamento detestável, mas uma justificativa boa o suficiente veio a tona para os leitores. Isto, contudo, deu um tom levemente melodramático ao livro: o típico “ai meu deus, sintam pena de mim” se fez presente. O desconhecimento dessa justificativa por parte de Tessa a faz continuar entre a cruz e a espada: ficar com Will, que alterna momentos de comportamento irascível e ternura contida ou com Jem, que está morrendo – ironicamente, graças a droga que o mantém vivo?

A questão do poder feminino é explorada mais a fundo, não só com Charlotte e sua direção no Instituto, mas também com Tessa vencendo pouco a pouco seu horror a coisas não “femininas” – afinal, como andar com Caçadores das Sombras e não aprender a lutar? Embora o livro não se foque tanto em descrever a Inglaterra Vitoriana como Anjo Mecânico, ainda há algumas pitadas aqui e ali, dando toques especiais as passagens onde esta descrição se faz presente. Os diálogos parecem ser o ponto forte de Cassandra Clare: os músculos do meu rosto se organizavam em um sorriso involuntariamente (juro, eu tentei) toda vez que Will e Tessa conversavam – ambos são loucos por livros, e suas referências e debates sobre os mesmos são fascinantes.

Mesmo me decepcionando um pouco com Clockwork Prince e todo seu açúcar, o mundo que a autora criou é fascinante demais para me fazer não querer esperar até março de 2013 pela continuação. Alguém aí tem uma maquina do tempo sobrando?

Nota: 3/5

27 maio 2012

Extras


OBS.: Pode conter alguns spoilers de Especiais, terceiro livro da série Feios.

No tempo dos Perfeitos as coisas eram bem simples: bastavam algumas palavras em voz alta para se obter qualquer bem de consumo desejado – roupas, pranchas voadoras e tudo que se possa imaginar. Isso pode parecer um desperdício horrível a primeira vista, mas não: naquela época eram todos Avoados, sem pensamentos próprios – portanto, sem criatividade ou ambição  suficientes para causarem um estrago.

Mas com as novas mentes borbulhantes de seus habitantes, as Cidades temem a volta ao tempo de destruição ambiental e superpopulação dos Enferrujados – o que não é exatamente uma opção.

A Cidade onde Aya mora encontra uma solução bem criativa para esse dilema: aquele que quiser qualquer coisa além do essencial (leia-se medicamentos, comida e moradia) deve ou ter méritos – conseguidos através de trabalho, estudo ou ajuda a comunidade – ou ser famoso.

Mas por mais que se esforce, Aya não consegue passar da patética classificação de 451.396 no Ranking de reputação – o que significa na prática que pouquíssimas pessoas mencionam o seu nome ou sequer o sabem.  O sentimento de não ser ninguém, dispensável e invisível a oprime. Aya não passa de mais uma na multidão. Uma Extra.

Mas os dias de “mendigar méritos” – ou seja, estudar e fazer bicos de babá – de Aya finalmente chegam ao fim: ao perseguir uma atleta famosa,  a garota descobre um grupo de meninas que surfa em trens magnéticos – algo tão inovador que, se colocado no seu Feed, com certeza a faria subir várias posições no Ranking e finalmente deixar de ser uma Extra.

Com um pouquinho de atuação e um punhado de mentiras, Aya se torna parte do grupo. Mas não sem culpa: as novas amigas – incluindo a atleta – parecem detestar a fama e a fizeram jurar que não colocaria nada no seu Feed – promessa que ela obviamente não pretende cumprir.

A má sorte parece perseguir Aya: ser decapitada por um túnel enquanto surfa ou perder as imagens gravadas por Moggle, sua câmera, se tornam de repente seus menores problemas. Uma noite, dentro da montanha, ela e as outras garotas descobrem um grande segredo – armas, o tipo de coisa que as Cidades concordaram em não ter. Mais do que isso: o tipo de coisa que poderia tornar Aya definitivamente muito, muito famosa – além de provê-la com uma justificativa moral para a traição que cometeria ao colocar a matéria no seu Feed.

As melhores distopias são aquelas que exageram algum aspecto negativo da nossa realidade - de preferência um que nos passe despercebido. Scott Westerfeld é mestre nisso: depois de fazer uma ótima crítica a ditadura da beleza e a homogeneização do pensamento nos três primeiros livros da série Feios, o autor ora ironiza, ora idolatra os tempos modernos em Extras.

A Cidade onde o livro se passa é assustadoramente reconhecível: no seu Feed, Aya tem todos os seus passos, pensamentos e gostos documentados – assim como alguns (muitos) de nós em nossas páginas do Twitter ou Facebook. Afinal, quem não conhece alguém que faz o seu perfil de diário? Ou posta coisas “polêmicas” só para chamar atenção?

As “celebridades” de Extras também são como as nossas: algumas são famosas por serem odiadas; outras por de fato terem o que falar e uma parcela incomodantemente grande simplesmente são famosas por terem nascido.

Em Extras, o maior problema de toda a série é sanado: Tally. Embora ela apareça no livro, o fato de que é Aya a protagonista dessa vez faz com que sua arrogância incomode menos. Aya é, aliás, adorável: é perceptível de que sua obsessão com a fama não é exatamente sua culpa, e a evolução da personagem durante a trama é enorme.

Na capa da minha edição há, como é comum, aquelas detestáveis críticas hiperbólicas de jornais e revistas, recortadas de um jeito tal que se tornem ainda mais exageradas. Doí-me muito ter que concordar, mas o The Times está certo: Scott Westerfeld capturou o Zeitgeist como ninguém. De forma simples, todos os anseios e manias da minha geração estão em uma série distópica que, como livros individuais, não é lá grande coisa – mas é fantástica se pensarmos o conjunto das quatro obras.

Extras é um livro que não deveria nem existir: Scott Westerfeld havia planejado Feios como uma trilogia. Nesse adeus, já sinto saudade: mais uma para a minha lista de “perdas literárias”.

Nota: 5/5

25 maio 2012

Divergent


O que você faria, leitor, ao ser obrigado a escolher somente uma dentre suas milhares de características de ser humano complexo e singular para reger o resto de sua vida? Emprego, amigos, vizinhos, roupas, casa, hobbies, família – tudo definido por só um pedacinho minúsculo de quem você é; sem volta ou espaço para arrependimento?

Pois bem, em Divergent, a sociedade é dividida em cinco facções, responsáveis pela educação, emprego e vida em comunidade de seus membros: Amity, que são contra a violência e a agressividade; Candor, que nunca mentem; Dauntless, que desprezam a covardia; Abnegation, os anjos que condenam o egoísmo ou sequer pensar em si e finalmente, Erudite, os intelectuais.

Mesmo sendo nascida e criada em Abnegation, Beatrice não sabe se lá é seu lugar: a ideia de viver até o fim de seus dias em função do bem alheio soa opressora aos seus ouvidos – ao contrário do seu irmão e pais, a solidariedade raramente lhe é natural, espontânea. Suas dúvidas só fazem aumentar ao receber o resultado de seu teste de aptidão: Beatrice é Divergent, ou seja, não se encaixa em nenhuma das facções. Dessa condição, porém, ela deve guardar segredo: para as facções, ser Divergent é ser um perigo a sociedade.

Não sem dor por deixar a sua família, Beatrice – agora chamada de Tris, já que seu nome de batismo é “Abnegation demais” – escolhe deixar sua facção rumo a Dauntless. A dificuldade decorrente dessa decisão era óbvia: afinal, não é tão fácil sair de trabalho voluntário e noites tranqüilas em frente a uma lareira para combates corporais, pulos de trens em movimento e aulas de tiro.
Mas sua nova facção esconde mais obstáculos do que ela gostaria: dos 21 iniciandos, apenas dez se tornariam membros de Dauntless. Falhar seria a concretização do maior medo de Tris: se tornar uma sem-facção, sendo obrigada a fazer os trabalhos mais pesados e exaustivos em troca de apenas um pouco de comida e abrigo em uma antiga estação de metrô.

Divergent é fantástico – se não contarmos Em Chamas, é provavelmente o melhor livro de ficção distópica YA que já li. Assim como Suzanne Collins, Veronica Roth não dá a seus leitores tempo para respirar, comer ou viver entre as páginas do livro – todas essas coisas se tornam fúteis em comparação a descobrir qual a próxima desventura de Tris. Os personagens são construídos de uma maneira encantadora: é um defeito de muitos livros YA produzir mocinhos e mocinhas excessivamente dramáticos e vilões estilo “encarnação do mal” – mas salvo um momento ou dois, isso não é característico de Divergent.

A parte distópica é, talvez, melhor do que a de Jogos Vorazes: a divisão de facções de Divergent parece o caminho perfeito para a paz até determinado momento – mas quando as partes podres são reveladas, este toma ares do sistema castas indiano, injusto, cruel e anacrônico.

Só tem um problema: o romance. Embora o par romântico da mocinha seja “na medida” (como todos os personagens do livro) o envolvimento dos dois se dá de um jeito meio meh. Depois de ler algumas cenas, não contive um suspiro. Até tu, Veronica?


Nota: 5/5

OBS.: Li Divergent em inglês (o BookDepository vai me falir) mas segundo blogueiras parceiras da editora, a Rocco o lançará ainda esse ano. Bravo, bravo.
OBS2.: Achei a capa bem tosquinha quando recebi, mas faz todo o sentido depois de ler o livro.

23 abril 2012

Anjo mecânico (série As Peças Infernais)


Depois da morte de sua tia (sua única parente viva nos Estados Unidos) a orfã de dezesseis anos Tessa parte para a Inglaterra de 1878 com a esperança de uma nova e melhor vida ao lado de seu amoroso e irresponsável irmão. A recepção que recebe, porém, não é como a esperada: ao invés de ter Nate a esperando no sujíssimo porto britânico, Tessa é recebida pelas Irmãs Sombrias – duas feiticeiras incumbidas de treiná-la para utilizar seu poder (cuja existência Tessa ignorava) a preparando para se casar com alguém desconhecido e bastante poderoso chamado apenas de Magister.

Ao ser resgatada por Will e James, dois Caçadores das Sombras (grupo de pessoas responsável por manter a Lei, evitando choques entre os Habitantes do Submundo e os humanos) Tessa vê que nada é como ela imaginava: todo um mundo sobrenatural se abre a sua frente. Ela não está sozinha ou é uma aberração, mas seu poder é único o suficiente para ser almejado por muitos. Acolhida pela boa Charlotte, diretora do Instituto de Londres (uma espécie de quartel general dos Caçadores das Sombras) ela começa a perceber que nunca reaverá sua vidinha antiga de volta.

Anjo Mecânico é o primeiro livro da série As Peças Infernais, pré-sequencia para  a mundialmente famosa Os Instrumentos Mortais. Confesso que ao começar a ler o primeiro livro desta última série, Cidade dos Ossos, quase desmaiava de sono – por isso, Anjo Mecânico foi uma surpresa muito boa.
A narrativa é frenética – cortes em pontos essenciais, passando de um foco de personagens a outro, fazem com que a leitura flua melhor e largar o livro seja uma tarefa ingrata. As referências a poemas e livros famosos na época não torna a leitura um hipertexto desagradável (como sempre temo ao ver muitas notas de rodapé) e sim enriquecedor.

Não entendo a fascinação que muitos parecem ter pela Inglaterra – na verdade, acho a Terra da Rainha bastante sem graça (salvo o sotaque) se comparada a outros lugares no mesmo continente – mas as descrições de Cassandra Clare da Londres vitoriana são fantasticamente elaboradas, dando um toque bastante especial ao livro. Os costumes também são abordados: Tessa fica bastante chocada com o comportamento de Charlotte – ela usa calças, luta e fala de igual para igual com seu marido Henry.

Faz bastante parte da evolução da protagonista, aliás: no início, Tessa é cheia de não-me-toques, dando demasiada importância ao que era (ou não) esperado de uma dama naquela época. Com o tempo, ela vê que tal comportamento não é adequado a sua nova vida, não servindo ao seu propósito de achar seu irmão.

De forma geral, os personagens são agradáveis, exceto por Will. Sei que arrogância e humor ácido em um par romântico para a mocinha em potencial podem ser transformados em um grande charme – mas Casssandra Clare passou da conta com Will. Usando como justificativa o seu passado desagradável, ele se torna irascível em alguns pontos. A insinuação de um complicadissimo triângulo amoroso entre ele, Tessa e James (que considera Will como seu irmão e é bem mais agradável que o mesmo) também não me agrada muito – talvez seja trauma de Crepúsculo e seus teams. Não gosto de gritinhos de fãs ao assistir adaptações para o cinema – mesmo que, em alguns casos, eu mesma tenha que me controlar para não da-los.

08 abril 2012

Estilhaça-me


Juliette, protagonista de Estilhaça-me, está presa em um manicômio – mas não porque a priori lhe faltasse sanidade, e sim por carregar consigo uma espécie de maldição: ao tocar ou ser tocada por outro ser humano, este sente uma dor excruciante e, caso o contato seja prolongado, o toque de Julliette pode ser mortal.
Rejeitada por seus pais e considerada um perigo à sociedade, a garota é trancafiada.  A solidão, experimentada por todos nós uma hora ou outra, é onipresente e especialmente intensa para Juliette: por causa de seu dom, ela sempre foi isolada emocionalmente até mesmo de sua família, e os dias no confinamento físico só tornam isto pior.
Depois de 254 dias no manicômio, este tal confinamento físico termina: Adam, um rapaz misterioso com olhos da mesma cor do céu, é designado para ser colega de cela de Julliette – que acredita piamente conhecê-lo, embora ele não pareça se lembrar.
Em Estilhaça-me, a terra está definhando a passos largos. O clima está desregulado, os animais morreram, as colheitas não rendem mais quase nada – enfim, o caos se instaurou. Com promessas de um futuro melhor, um governo chamado o Restabelecimento assume o comando em todo mundo, dividindo-o em 3.333 distritos, matando os seus opositores e destroçando todos os “ultrapassados” vestígios de cultura das civilizações anteriores.
Com apenas dezenove anos, Warner já é responsável pelo distrito em que Julliette se encontra. Fora algumas explosões e caprichos ocasionais, Warner é persuasivo, egocêntrico e calculista, e não mede esforços para, depois de retirar Julliette de sua cela, convencê-la a torturar e matar pelo Restabelecimento. Warner é um vilão do tipo que gosto: não com aquela polarização nojenta e irreal da típica encarnação do mal absoluto, e sim alguém com noções éticas distorcidas pelo poder e circunstâncias.
Mesmo lendo muitos livros Young Adults, não me considero uma leitora aberta à inovações. Não digo quanto ao conteúdo ou tradicionalidade da obra (ao menos minhas leituras não são representativas disto) e sim quanto a forma em que esta é escrita: não gosto de falta de pontuação, diálogos não sinalizados, frases grandes demais ou parágrafos confusos.
Mas Estilhaça-me foi uma exceção a esta regra. Tudo para Julliete é imensamente intenso ou novo, e através de uma escrita que meu eu tradicional considera irregular, a autora conseguiu expressar isto. A narração de Julliette repete palavras, risca frases, carece de sinais de pontuação ou coesão em muitos pontos, dando um toque desejável de realidade a sua escrita. Sem esta escrita diferente e inovadora, Estilhaça-me seria somente um bom romance com pitadas distópicas - mas a narrativa de Tahereh Mafi o faz muito mais.
Em livros de alta vendagem sempre há um espaço destinado às hipérboles jornalísticas sobre o mesmo. Em Estilhaça-me, ele é preenchido pelo comentário de uma escritora que diz “Estou com inveja. Não conseguia parar de ler.”.
Eu não poderia concordar mais. E não quero esperar até 2013 para ler a continuação.
Nota: 5/5

06 abril 2012

Firelight


Alguns temas e gêneros parecem já me parecem bastante esgotados. Fantasia, por exemplo: depois da onda vampiros/lobisomens/anjos, eu acreditava que até mesmo uma reencarnação de Tolkien falharia em achar uma centelha de criatividade aproveitável, algo que ainda não tivesse sido escrito. Para quem, assim como eu, também foi/é fã do seriado Sobrenatural, a coisa se agrava: não parece haver uma criatura mítica ainda não caçada por Dean e Sam – que, apesar de se distanciarem da aura romântica e de aceitação dos YAs, ainda possuem sua parte Fantástica.
Que eu estava redondamente errada e perdi muito em ignorar livros de fantasia nos últimos tempos é óbvio, mas resta saber que obra mudou minha opinião – neste caso, ela atende pelo nome de Firelight
Neste livro, Jacinda, a protagonista, é uma draki, uma espécie de dragão que pode se transformar em humano. Mais do que isto: Jacinda é a primeira cuspidora de dragões em gerações, o que faz com que ela seja destinada a casar com Cassian, o futuro alfa do clã, o que ela odeia – além de não querer ser feita de mera reprodutora, Jacinda sente por sua irmã gêmea, Tamra, apaixonada por Cassian desde sempre e ignorada por ele desde que não incorporou (ou seja, não foi capaz de assumir sua forma draki) no início da puberdade.
Graças às propriedades mágicas do seu sangue e ossos e habilidade para achar gemas embaixo da terra, os drakis são caçados, os que os leva a viver escondidos em aldeias isoladas e protegidas magicamente. As regras também são bastante estritas: drakis não podem voar a luz do dia – o risco de um caçador vê-los é imenso. Jacinda, porém, desobedece esta regra juntamente com sua amiga Az – o que quase custa a vida de ambas.
Depois deste ato de rebeldia, a mãe de Jacinda – que não incorpora em solidariedade à Tamra e para não lembrar de seu marido, morto pelas mãos de caçadores – decide que o melhor para a família é que todos fujam da isolada aldeia do clã e se mudem para uma cidade.
Apesar de odiar toda a atenção que lhe é dispensada e o fato de ser “destinada” a Cassian no clã, Jacinda detesta ainda mais a cidade que é escolhida pela mãe como seu novo lar: no meio do deserto, sem contato com a terra, a natureza “viva” ou sua própria espécie, o lado draki de Jacinda começa a definhar como sua mãe objetivava. A única coisa que o mantém vivo no árido clima de Nevada é Will, um colega charmoso de Jacinda e que esconde tantos segredos quanto ela.
Firelight foi feito para vender – desde a capa (que é linda) até o precinho razoavelmente camarada para um YA. Não digo por que a autora escreveu exatamente o que gostaríamos de ler ou coisa do tipo, mas é perceptível pelas frases curtas e linguagem simples empregadas que Sophie Jordan queria uma leitura o menos complicada possível. E conseguiu: li Firelight em uma noite, movida em parte pela falta de sono e em parte pelo envolvimento que a história proporcionou.
Tento variar minhas leituras o máximo possível: desde YAs até os clássicos, de distopias a épicos. Contudo tenho meus preferidos, e quando se lê bastante do mesmo gênero é quase impossível não encontrar semelhanças gritantes – os famosos clichês.
Nesse aspecto Firelight está bem servido: o grande conto de irmãs gêmeas muito diferentes entre si; a luta pela aceitação por parte da família; as panelinhas dos populares e uma protagonista egocêntrica são elementos presentes – e como. Sinceramente, não me incomodei muito. Embora eu acredite que o livro formado somente de clichês perca completamente qualquer vestígio de enredo, não tenho muitos problemas se isso não interfere no desenvolvimento geral de forma significativa. Faltaram, contudo, explicações mais claras: ainda não entendi o que é um enkros, o temido inimigo dos drakis; ou até mesmo conseguir visualizar de forma inteira um draki completamente transformado - mesmo que as descrições de mudanças físicas existam e sejam muito boas.
Mas do que me entreter, Firelight abriu meus olhos para um gênero literário que eu deliberadamente ignorei desde o boom de Crepúsculo. Uma ótima companhia para uma noite de calor, tédio e insônia.
Nota: 4/5

02 abril 2012

Delirium


Acho que todo mundo que gosta de escrever também reflete sobre as palavras e seus significados. Comigo, pelo menos é assim. Eu poderia escrever livros e mais livros sobre o tema – não o faço por preguiça e por saber que o tema seria maçante para a maior parte do mundo, que sabe que as palavras são assim e acabou. Sem grandes filosofares.
Gosto de muitas palavras com um significado ruim; adoro falar algumas só pelo esforço empregado em sua pronúncia ou pelo jeito que ela soa e aquelas que, caso eu mandasse no mundo, usaria para descrever coisas totalmente diferentes das que descrevem hoje.
Uma vez li um texto de um colunista da Capricho (não lembro qual) refletindo sobre as palavras amor e love. Segundo ele – e eu não poderia concordar mais – love não é tão mágica quanto amor (mesmo que ambas signifiquem a mesma coisa) por sua pronúncia lisa, uniforme, sem nenhum fonema que se destaque demasiadamente mesmo nos sotaques mais bonitos. Amor não: no sotaque do interior de alguns estados, o r pronunciado e repetido dá uma vibração bastante especial; no meu sotaque, o acréscimo de vogais e o semi ignorar das consoantes é bastante charmoso – enfim, a palavra, em mil jeitos diferentes, faz jus ao que descreve.
Lauren Oliver parece ter sacado bem isso: li Delirium em inglês, e algumas páginas foram suficientes para que eu percebesse que, ao invés de love, o amor no seu livro foi rotulado, na maior parte do tempo, de amor deliria nervosa. Mas não só pela beleza da expressão em si, mas também pelo fato de que em Portland – assim como em todas as cidades dos EUA distópico da autora – o amor é considerado uma doença.
Por isso, todos os cidadãos têm de passar por uma operação aos dezoito anos – operação que, além de diminuir as chances de contrair a deliria, também traz uma grande paz de espírito e felicidade.  Sem mais dúvidas ou desejos esmagadores – os seres humanos nunca pareceram tão emocionalmente equilibrados e próximos dos deuses. Lena espera ansiosamente por sua operação: graças à doença, sua mãe se suicidou, por preferir morrer a viver sem amor – e o medo de que o mesmo aconteça com ela é imenso.
A melhor amiga de Lena não pensa assim: a linda e rica Hana detesta a ideia de ter seus desejos e vida – pois carreira, marido e número de filhos são definidos por médicos em uma entrevista/exame pré-operação – controlados por outrem – mesmo que esse outrem seja ela mesma, somente com seu modo de pensar modificado pela “cura”.
No auge de seu espírito rebelde, Hana convence Lena a entrar no laboratório sem permissão, onde ambas conhecem Alex, um estudante que trabalha meio período como guarda do local. Lena então é “infectada” por Alex – ou seja: eles se apaixonam.
Alex (que tem opiniões bem pouco ortodoxas) faz com que Lena veja as coisas de outra maneira: é o amor realmente uma doença? Não haveria outro modo de estabelecer a paz social, sem acabar com o amor, a paixão, a poesia, as emoções exacerbadas ou o direito de escolha?
Um bom sinal foi dado para Delirium logo no início: a sociedade feita-para-ser-feliz de Lauren Oliver me lembrou bastante do que é considerado o maior livro de ficção distópica de todos os tempos – Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (que também é um de meus livros preferidos). Mais exatamente uma frase dita pela pseudo-rebelde Hana fez com que minha mente me trouxesse o memorável quote do igualmente memorável livro: “- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.”

Esse controle social todo é bem explicado por Lauren Oliver: Lena, que narra o livro, apresenta os aspectos de seu mundo como naturais e perfeitos, sem refletir muito sobre eles – ao menos até que Alex entre na história. Ela sai do “completamente alienada” para “razoavelmente consciente” – aquele tipo de transição lenta e gradual, perfeita para livros do gênero.
Lena é o tipo de protagonista que gosto. Sinceramente, detesto personagens corajosas demais – elas podem parecer bem legais se não refletirmos muito, mas depois me parecem bastante irreais. Em Lena, não lhe falta ou lhe sobra coragem – ela somente faz concessões, baseadas no seu afeto por Hana ou Alex ou na pura lógica.
Delirium poderia ser docinho e enjoativo, mas não é: por Lena ter sido criada para acreditar de que o amor é algo danoso e doentio, ela apresenta “os sintomas” de forma leve, relutante e sem clichês. Afinal, como algo quase criminoso poderia ser batido?
Delirium não me deixou com a respiração presa, ansiosa para ler logo a próxima linha como Jogos Vorazes. Mas chegou perto.
OBS.: A capa acima é da edição paperback que comprei, em inglês (que é baratinha, não tem frete pelo Bookdepository e tem uns extras legaizinhos). A daqui do lado é a publicada recentemente no Brasil com o título de (ooooh) Delírio

26 março 2012

Jogos Vorazes (filme)





É um hábito irritante dos diretores de filmes baseados em bestsellers não explicarem direito certas coisas, certos aspectos do enredo que, se não são essenciais para a história, pelo menos a fariam mais interessante. É como se eles possuíssem a certeza de que apenas fãs ensandecidas pela série assistirão aquele filme, e que nenhum curioso que não sabe que o filme em questão é baseado numa série de sucesso mundial  ousará pisar numa sala de cinema onde ele esteja passando.
Em menor escala do que o geral, o primeiro filme da série Jogos Vorazes, escrita por Suzanne Collins, sofre desse mal: quando Panem (o país distópico onde a trilogia se passa) é apresentado, senti uma carência muito grande de informações sobre o mesmo. Não é como se não houvessem explicações, mas senti que, caso eu não houvesse lido os livros, não entenderia muito bem porque todo aquele desespero em torno de algo chamado “colheita” ou porque colocar cercas com placas de “não ultrapasse, limites do distrito” em torno de uma vila.
Panem se localiza no que já foi a América do Norte que, depois de muitas guerras, foi dividida em treze distritos e uma Capital. Cansadas de trabalhar em prol do luxo e da ostentação da Capital, as pessoas do distrito treze se rebelam – mas são rapidamente vencidas. Para lembrar quem está no comando – e conseguir um bom show para seus habitantes ociosos – a Capital, todos os anos, realiza os Jogos Vorazes, uma espécie de Coliseu onde vinte e quatro jovens de 12 a 18 anos, dois de cada distrito (os chamados tributos) devem lutar até que apenas um sobre.
Katniss Everdeen – uma garota de dezesseis anos do distrito doze que garante o sustento de sua família através da caça desde a morte de seu pai – sabia que as chances de que ela fosse sorteada eram grandes: em troca de comida, ela aceitava, ano após ano, que seu nome fosse posto no pote onde os tributos eram sorteados mais vezes que o normal.
O que ela não esperava, contudo, era que sua irmã Prim, de apenas doze anos e com o nome no pote apenas uma vez fosse sorteada. Desesperada, Katniss se oferece em seu lugar – cena que, confesso, me emocionou desde os trailers – e assim vai para os Jogos Vorazes.
Mesmo sem grandes explicações sobre o mundo onde o filme se passa, uma coisa essencial se entende: os distritos se encontram em um péssimo estado, com bastante pobreza e algumas pessoas vivendo como quando no medievo. Quando Katniss e Peeta (o outro tributo do distrito doze) chegam o contraste entre a vida que ambos costumavam levar é imenso quando eles contemplam a vida cheia de excessos que pessoas dos doze distritos sustentam.
O filme é cheio de símbolos e referências, algo é mais possível de forma visual do que no papel: o estandarte onde o Presidente Snow fica, por exemplo, lembra bastante os palcos que eram armados para os comícios de Hitler, numa referência ao totalitarismo que é o governo de Panem. Não havia conseguido formar esta imagem mental durante o livro, mas ao ver Katniss de arco e flecha com uma trança no cabelo, consegui me lembrar das míticas Amazonas que, assim como ela, representavam força e poder femininos.
Como adaptação, é bem fiel: as mudanças foram poucas – na verdade, foram mais omissões, e os acréscimos me pareceram necessários para a introdução do segundo filme, Em Chamas. Não consigo imaginar outra que Jannifer Lawrence para fazer Katniss: ela conseguiu capturar aquela essência de menina forte que tanto me encantou quando li os livros. Josh Hutcherson também conseguiu capturar o precioso carisma de Peeta, que é essencial para sobrevivência dele e de Katniss na arena. As cenas das lutas não foram muito sangrentas, mas também não foram muito leves - apenas o suficiente para ser realista sem exagerar na classificação, ou espantar pessoas mais sensíveis do cinema. O único erro grande – além da supracitada falta de informação para quem não leu os livros – foi na sonoplastia, que, na falta, torna alguns filmes mais chatos do que realmente são.
Mas Jogos Vorazes não é chato – não mesmo. Lamento muito a série só ter ido até o terceiro livro – sem possibilidade de continuação graças ao seu final – mas agora que não tenho mais livros ou filmes de Harry Potter para ansiar por, posso muito bem me contentar em roer as unhas pelos próximos filmes de Jogos Vorazes.
OBS.: resenhei a trilogia inteira aqui.
ATUALIZAÇÃO (eu não poderia deixar de falar disso): Vários tweets foram feitos por fãs de Jogos Vorazes reclamando da escolha dos atores que interpretaram Cinna e Rue. Mas não foi por sua qualidade (eu particularmente acredito que não haveria melhor atriz para intepretar Rue), e sim pela cor de sua pele. O nível é bem baixo - um cara chega até dizer que não ficou mais com pena de Rue depois que descobriu que ela era negra. As justificativas são bem podrinhas - que Rue deveria parecer com Prim (Katniss fala que é por sua idade e tamanho, não fisicamente, e a propria autora fala que os concebeu ambos tributos do onze como afro-americanos) ou que Cinna deveria ser bonito (como se Lenny Kratvitz não o fosse). É uma coisa tão pequena se preocupar com a cor da pele de dois atores, tão insignificante para o curso geral do filme que não tenho nem palavras... Não os ter imaginado negros é uma coisa; sair fazendo comentários racistas e dizendo que o filme foi uma merda por causa disso é outra. Eles se dizem fãs, mas não entenderam a mensagem que o livro (como a maioria de ficção distópica) traz. Não leia esse blog que reuniu os tweets racistas caso você não queira ficar um tiquinho deprimido e com vergonha de ser humano. 
Nota: 5/5

17 janeiro 2012

L9: Amores infernais


Aprecio muito coletâneas de contos: gosto do jeito como bons autores conseguem fazer uma boa estória em poucas páginas. Eu já havia lido Formaturas Infernais quando o segundo livro dessa “série” (de coletâneas de contos de um só tema, feitos por vários autores relativamente famosos quando se trata de YA) caiu nas minhas mãos.
Mas aí é que tá: enquanto em Formaturas Infernais a maior parte dos contos me agradou, não gostei muito de Amores Infernais. Um único conto realmente me agradou – Abominável mundo perfeito, de Scott Westerfeld – e minhas impressões sobre os outros variavam de “dá pra ler” a “detestável”.
Impressões sobre os contos:
1 – Dormindo com o espírito
Apesar da premissa ser interessante – uma garota que se apaixona pelo espírito que assombra sua casa por ter morado e morrido nela anos atrás – o conto não foi muito bem desenvolvido. Não acredito nem que seja culpa do número de páginas, já que a autora meio que “encheu lingüiça” em alguns pontos.
2 – Abominável mundo perfeito
Do autor da série Feios, o livro retrata um mundo onde as pessoas não passam por vários incômodos diários – doenças, dormir, hormônios na adolescência, deslocamento lento e etc. Contudo, para uma aula, todos têm que abrir mão de alguma coisa, e voltar para a antiguidade – ou seja, o nosso tempo.
Gostei muito do conto, pois meio que lançou (ainda que nas entrelinhas) uma discussão sobre o quanto a tecnologia pode “desumanizar o homem”.
3 – Mais ralo que água
Gostei um pouquinho desse conto, que conta a história de uma garota em uma aldeia que, apesar de ser dos dias de hoje, ainda parece estar presa na idade média: todos fazem tudo como há cem, duzentos anos atrás. A estória é envolvente – mistura mitologia, um cenário pitoresco e uma personagem interessante – mas a escritora é mediana, o que dificultou o desenvolvimento da trama.
4 – Fan fic
Não gostei muito: o romance entre os dois personagens principais era muito parecido com Crepúsculo, inclusive na parte sobrenatural, e a trama se arrasta – o que não é legal de se acontecer em um conto desse tamanho.
5 – Perdido de amor
Outro com premissa interessante: usa a mitologia de um determinado local para dar o toquezinho de sobrenatural no conto. Contudo, infelizmente, o relacionamento do casal-tema é meio estranho, e a personagem principal é desagradável – não uma chata de galocha feito Mia de O diário da princesa ou egocêntrica feito Tally de Feios, só desagradável mesmo.

No geral, os contos não são bons: me decepcionei um pouco por esperar a qualidade parecida com Formaturas Infernais. Ainda assim, quero ler o próximo, recém lançado por aqui: Beijos Infernais - cuja capa brasileira é linda! Alguem já leu?

Nota: 2/5

13 janeiro 2012

L6: Especiais


ALERTA: pode conter spoiler dos dois primeiros livros da série Feios.
Eu sempre quis saber como seria o mundo caso não existisse a noção de beleza. Não digo a beleza da arte, porque assim como os rapazes de A Sociedade dos Poetas Mortos, não acho que exista vida (ao menos uma vida completa) sem a mesma. Estou me referindo a beleza física, aquela que em todas as classes sociais e lugares do mundo é almejada, desejada e clamada por uma parcela significativa da população. O mundo é prometido em troca do peso ideal, a alma é vendida para atingi-lo. Nessa odisséia, todas as outras qualidades que poderiam existir - se é que beleza física é mesmo qualidade - são postas de lado, a saúde é esquecida e a vida, por vezes também.
A série Feios se tornou uma das minhas preferidas por extremar essa obsessão pelo belo: no mundo de Tally Youngblood, todos com mais de dezesseis anos ganham uma cirurgia que os deixa fisicamente "perfeitos". Contudo, há um pequeno incômodo que vem com a tal cirurgia: lesões no cérebro, que tornam todos os perfeitos conformados, bobocas e felizes.
Mas não Tally e Shay. Como falado no final do livro anterior, Perfeitos, ambas se tornam Especiais, a força de segurança da cidade. Mais do que isso: elas são Cortadoras, jovens Especiais que além da força, crueldade e velocidade são programados para viver na natureza.
Os enfumaçados - grupo de pessoas que se opõem a operação - contudo, estão tornando o trabalho de Tally e Shay mais difícil, distribuindo pílulas que curam as lesões e aumentando cada vez mais seu número de membros. Pílulas, aliás, que trouxeram um grande problema para Tally: seu namorado, Zane, tomou-as de forma incorreta em Perfeitos, o que o deixou em coma. Quando Zane acorda deste coma, contudo, tudo se complica ainda mais para Tally: ele não passa de um perfeito ou um medíocre, como os Cortadores costumam se referir a todos ao seu redor. Menos do que isso: graças as pílulas malucas dos Enfumaçados, Zane está menos sagaz do que antes, com conseqüências físicas desagradáveis.
Após decidir que não conseguiria conviver com a tremedeira nas mãos de Zane, Tally bola um plano arriscado: para provar que Zane é bom o suficiente para ser um Cortador, ela se dispõe a ajudá-lo a fugir para a Nova Fumaça, matando assim, dois coelhos de uma cajadada só.
Irritante é como eu descreveria Tally nesse livro. Adorei Scott Westerfeld ter escolhido, em Feios, a personagem alienada e não a consciente para ser a narradora: assim, o leitor e Tally entram em processo de conscientização juntos. Contudo, como Especial, Tally ultrapassa as fronteiras da arrogância, descrevendo tudo a sua volta de forma meio abatida.
De maneira geral, gostei do livro, mas não o senti como um bom encerramento. A série, planejada para ser uma trilogia, acabou ganhando mais um livro, que espero ansiosamente para ler. Em Especiais, é finalmente quebrada uma barreira: assim como em Admirável Mundo Novo, o mundo distópico de Feios parecia perfeito demais. Todos eram felizes, não existia fome, guerra ou doença... O único defeito de verdade era a ausência da liberdade, a ausência do verdadeiro alimento da alma. Renunciar a um mundo basicamente perfeito pela mesma é arriscado, arriscado demais, mas gostei da forma que o autor abordou o assunto, colocando a liberdade como um direito inalienável e insubstituível. Espero que em Extras, o quarto livro, estes conceitos sejam melhor trabalhados :)
Nota: 3/5 (sim, eu dou notas agora)

09 janeiro 2012

L5: A menina que brincava com fogo

Demorei um pouco para ler "A menina que brincava com fogo": ganhei-o de presente em um amigo secreto de 2010, e agora me arrependo de ter feito a leitura somente semana passada. Apesar de preferir "Os homens que não amavam as mulheres" o primeiro livro da série Millenium, escrita pelo sueco Stieg Larsson, o segundo volume também possui seus méritos. Aspectos positivos, tais quais os personagens interessantes e estória envolvente são mantidos, mas a linguagem por demais direta (ou também podemos dizer jornalística, profissão de Larsson) também prossegue.
Mas esta é uma das poucas críticas que posso fazer ao livro. Depois de ter sua vida salva por Lisbeth Salander, o jornalista Mikael Blomksvit tem a chance de retribuir: a perigosa hacker de nível internacional é indiciada por triplo assassinato. Uma de suas suposta vítimas é um velho conhecido: seu tutor, que a estupra no primeiro livro e, depois de cair em uma armadilha, é obrigado a obedecer as exigências feitas por Lisbeth. Os outros são figurinhas novas: um casal composto por uma criminologista, que pesquisa a prostituição na Suécia, e um jornalista, colaborador da Millenium, revista de Mikael.
Quando Lisbeth é apontada como principal suspeita e começa a ser procurada (em vão, já que a habilidosa hacker é cheia de truques) uma crítica ao sensacionalismo midiático é feita pelo autor: mesmo sem a certeza de que Lisbeth seria culpada, os detalhes mais íntimos da sua vida são expostos e manipulados, pintando-a como uma psicopata assasina. Neste meio, cabe a Mikael achar culpados alternativos, salvando então sua amiga da prisão.
Lisbeth Salander é, talvez, uma das minhas personagens preferidas de ficção: gosto de sua moral torta, sua inteligência e suas habilidades investigativas. Larsson consegue fazer com que a moça anti-social pareça uma heroína, uma heroína ligeiramente torta, mas uma heroína. Além disso, é uma delícia a história ser ambientada em Estocolmo: é bom fugir do eixão de grandes cidades/cidadezinhas americanas.
O feminismo contido em Millenium é um capítulo a parte. Algumas feministas criticaram a personagem Lisbeth Salander, contudo, creio que isso só se aplique ao filme.: ambos os livros que possuem personagens femininas fortes (Lisbeth e Erica Berger, diretora geral da Millenium e amante de Mikael) e criticam incessantemente a violência contra a mulher.. Mia Bergman, uma das supostas vítimas de Lisbeth, pretendia denunciar vários homens pelo uso de prostitutas (o que é crime na Suécia) inclusive policiais. Mikael, munido desta informação, começa a procurar culpados dentre os clientes sexuais, inserindo assim a discussão sobre a violência contra prostitutas. Na Suécia, onde todas as suas cidadãs têm garantidas as condições mínimas de vida, as prostitutas são, em sua maioria, adolescentes estrangeiras, que são atraídas por falsas promessas de emprego e vida melhor e acabam sendo exploradas e levando seqüelas (tais quais traumas e vícios) para toda a vida. Outro ponto aqui é creditado a Larsson: ele não só mostra os males e a organização da prostituição, mostra também as diferentes reações de membros da sociedade, muitas quais coniventes ou até mesmo favoráveis a exploração sexual de estrangeiras.
Ainda não assisti a versão sueca do filme do primeiro livro, mas procurarei logo que voltar à minha cidade. A versão americana me pareceu, pelos trailers, um pouco, hã, americanizada, mas não deixarei de assisti-la também.
O plano inicial de Larsson eram cinco livros, contudo, ele morreu após entregar o terceiro ao seu editor. É uma pena: Millenium é aquele tipo de saga que, pela amplitude do seu tema, poderia sempre se renovar.