Mostrando postagens com marcador Estados Unidos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estados Unidos. Mostrar todas as postagens

22 junho 2013

Talento e Eragon



Eu não acredito em talento. Creio que não existe uma disposição ou genialidade naturais, só um conjunto de condições favoráveis (que em geral não é tão específico assim e freqüentemente dispensável) e muito, mas muito suor.

Pouco tempo total de prática é o defeito apontado por John Scalzi em seu post “Porque a escrita adolescente é ruim”. Sou uma aspirante a escritora e a condição de adolescente me pertence por ainda alguns meses (as espinhas, contudo, ainda parecem ter uma curiosa resistência a tal separação) mas mesmo que concordar com Scalzi seja chamar minha príopria escrita de porcaria, tenho de admitir que ele tem razão.

Mas ah! Como eu queria ser Christopher Paolini!

Aos quinze anos, ele iniciou a escrita de Eragon, primeiro livro de uma quadrologia mundialmente aclamada. E que sim, mostra a imaturidade de seu autor, mas de forma leve e superficial. 

21 julho 2012

Clube da luta (livro)

Por melhor que uma adaptação para o cinema seja, não tem jeito: livros ainda têm uma magia especial. Já assisti algumas muito boas (provavelmente a melhor delas foi Jane Eyre), mas nenhuma que superasse seu original. Há algo que se perde na passagem de uma linguagem para outra – isso descontando eventuais mancadas do diretor – algo especial que só um livro pode trazer. A falta de rédeas das nossas imaginações, talvez?

Pois bem: assisti ao filme Clube da Luta (resenha aqui) no início do ano e agora me aventurei com o livro (do maravilhoso Chuck Palahniuk, de quem já li e resenhei Sobrevivente). Como adaptação, o filme é muito bom: nenhum aspecto principal é mudado e o enredo não é “mutilado” para se tornar mais palatável – admirável, principalmente com uma obra que traz violência como carro chefe: a classificação "somente maiores de 17 anos" (16, no Brasil) assusta e diminui a bilheteria. Contudo, mesmo que tudo (com tudo leia-se a tudo) aquilo fosse brutalmente familiar, o livro me pareceu mais reflexivo, profundo, com mais significados e críticas – não sei se fui eu que mudei nesse curto período de tempo ou se a diferença existe de fato, mas foi essa a impressão que ficou.

O nosso protagonista não tem nome, e é um homem comum, que procura diariamente maneiras de se “completar”. Primeiro, foram as compras para a casa: aparentemente, redecorações são uma fonte abundante de paz de espírito. Como se aquilo não mais funcionasse – com a insônia zumbindo em seus ouvidos e olhos em cada segundo do dia – ele começou com uma prática bastante curiosa: freqüentar, sete dias por semana, grupos de apoio a pessoas com doenças fatais.

Mas como tudo que é bom dura pouco, Marla, outra “falsária”, aparece, estragando todo o efeito calmante e sonífero que ouvir histórias de pessoas a beira da morte causa em nosso personagem. Essa situação complicada, porém, se resolve, com uma solução bastante inusitada, conveniente e mágica: Tyler Durden.

Tyler é provavelmente um dos personagens mais interessantes que já li: ele entende um punhado de coisas de química (incluindo como fazer explosivos e cosméticos de banha humana), tem dois trabalhos completamente não-relacionados (fazendo tudo que há de errado neles) e é um líder brilhante – tudo que nosso protagonista, preso no seu emprego chato e vida metódica, gostaria de ser. Talvez por essa parte de ser alguém “admirável” – embora de um jeito bem não-convencional – retire de Tyler aquela aura da qual já falei (e falarei muito ainda) de singularidade forçada, daquela impressão que estou diante de um pré-adolescente que quer descobrir uma banda desconhecida não pela música, e sim pela vontade de se sentir “diferente”.

Começou com uma luta – Tyler não queria morrer sem uma cicatriz de verdade – mas aquilo era simplesmente atraente demais: é fundado então o primeiro clube da luta, que vem rapidamente a se tornar uma rede de homens frustrados e entediados tentando encontrar algo no qual investir sua energia. O clube da luta não é só uma maneira de escapar: é se sentir Deus por alguns minutos, mandar ao invés de obedecer, substituir com dor física e berros de incentivo todos os problemas – na maior parte, imbecis e completamente evitáveis – que se tem.

Quando o livro estourou (graças a sua adaptação cinematográfica) a caixa de entrada de Chuck Palahniuk foi inundada de emails de vários homens perguntando: onde eu encontro um clube da luta? Clube da Luta é um manifesto contra a noção de “macho” (de forma bastante irônica – afinal, o tema central é algo que canaliza isso), as regras e convenções sociais.

Falando em Chuck Palahniuk, sua escrita de novo me anestesiou. Não há ordem cronológica no livro – é como se ele houvesse recortado tudo, parágrafo por parágrafo, e depois montado de volta aleatoriamente – mas nenhuma ponta fica solta, nada é deixado sem resolução. A linguagem, o ritmo, tudo é perfeito, tudo se encaixa.

Não consigo, aliás, saber o que é melhor no autor: suas idéias ácidas, inusitadas e críticas, seus personagens únicos ou a supracitada forma de se escrever.  É assim que você sabe que achou um autor extremamente especial.

Nota: 5/5

11 julho 2012

O Concorrente


Sempre quis ler algo de Stephen King, mas me faltava coragem. Mesmo sendo bastante cética, nem um poço de racionalidade me convenceria (durante cerca de três segundos patéticos e longos) que o monstro da mente de algum autor não está me espiando por detrás do cabide ou naquele cantinho escuro. Idiota, eu sei, mas meu juízo me agradece por ter aberto mão dos livros e filmes de terror – eles nunca me foram caros de qualquer jeito.

Isso então fazia minha vontade de ler Stephen King difícil de se satisfazer – afinal, não era ele o mestre do gênero? Não pude conter um sorrisinho quando vi que não era só de terror que o autor vivia: sob o pseudônimo de Richard Bachman, King também se dedicou aos terríveis e fascinantes mundos distópicos – o fazendo bem o bastante para constar nesta lista de 12 melhores distopias (que, ao menos pelos poucos dela que li, parece ser bem seletiva).

O ano é 2025, e a economia dos Estados Unidos está completamente arruinada, aumentando o já gigante abismo entre ricos e pobres. Para completar, a poluição do ar atingiu níveis estratosféricos, a ponto de dar câncer de pulmão em uma garotinha de cinco anos, pertencente a maioria – ou seja, os pobres – que não pode custear um purificador de ar.

Ben Richards pertence ao segundo grupo, e entre uma vida de pílulas de nutrientes, violência e o barulho permanente da televisão (que não pode ser desligada), sua filhinha adoece. Desempregado e sem poder pagar sequer uma consulta médica, Ben se volta para sua única solução: virar um participantes nos famosos e infames Jogos, que levam seus astros (homens desesperados por dinheiro) ao limite da humilhação – e bem freqüentemente (afinal, as pessoas gostam de sangue, não é mesmo) da vida.

Por ser considerado problemático (gostar de ler, detestar a TV e deixar seu trabalho – que envolvia radiação – pelo fútil desejo de ter um filho não são atributos apreciados) Richards é escalado para o programa O Foragido, onde o participante é caçado por um grupo de profissionais (auxiliados por toda uma nação, que anseiam pela “honra” de denunciá-lo). Número de sobreviventes: zero. Audiência: quase todos americanos.

Não consegui sentir empatia por Richards. Mesmo que ele tenha passado por bastante em sua vida, sua arrogância e insinuações de racismo são difíceis de engolir. Me impressionei, porém, ao descobrir que não importava: o ritmo é tão acelerado que eu lia não para torcer para os “mocinhos” ou vilões”, e sim para saber o que acontece. Nunca havia percebido isso, mas um herói (ou anti-herói simpático) são totalmente desnecessários quando se tem uma mensagem a passar, uma reflexão a se incitar – e, claro, uma escrita sufocante.

De certa forma, O Concorrente lembra Jogos Vorazes: além de ter como tema principal um programa de entretenimento que brinca com a vida humana, o poder da mídia em “fabricar” a realidade e os limites entre o certo e o errado também são abordados e criticados duramente – embora a crítica em O Concorrente seja mais explícita e sofisticada.  

As semelhanças, porém, param por aí. Ainda que Jogos Vorazes seja doloroso em alguns pontos, há uma tentativa por parte da autora de tornar a leitura palatável – o que não acontece com O concorrente. Stephen King não nos poupa, não enfeita, floreia ou mesmo tenta alternar passagens mais “leves” com aquelas passíveis de ânsias de vômito. O livro todo se processa em um só ritmo – o frenético e intenso. Não é um defeito – ao menos para mim – mas creio que tal estilo literário não caia nas graças de todo mundo.

Stephen King, mesmo escrevendo outro gênero e com um pseudônimo, não deixou seus hábitos para trás: ainda que sem fantasmas, espíritos ou monstros, O Concorrente acelerou meu coração tanto quanto um bom filme de terror.

Nota: 5/5

09 julho 2012

Garotas de vidro


Tudo começa com uma aposta: no ano novo, Lia e Cassie começam a competir – quem será a mais magra? Lia desenvolve anorexia, Cassie, bulimia. E não é só isso: bebedeiras e auto-mutilação são comuns na vida das garotas que, sem saber lidar com os problemas do dia-a-dia, buscam se anestesiar dos mesmos.
Um acidente de carro muda tudo: a doença de Lia é descoberta, e ela é enviada por sua mãe e seu pai – ambos extremamente bem sucedidos e exigentes – para uma clinica de tratamento. No seu retorno, nada é o mesmo: Cassie já não mais a apóia, e todos os seus amigos se afastaram da “garota morta”. Depois de algum tempo e mais uma temporada na clínica, Lia recebe trinta e três ligações de Cassie em uma só noite – as quais ela obviamente não atende – e no dia seguinte recebe a notícia.

Cassie morreu.

Lia não reconhece a gravidade de sua doença: mesmo que tenha consciência de que pode morrer graças a ela, a morte soa melhor do que voltar a engordar. Morando com o pai ausente, a madrasta ocupada e a meia-irmã pequena, não se torna uma tarefa muito difícil enganar a todos quanto a seu peso e a sua dieta – que, por ela ser anoréxica, deveriam estar sob controle diário. O ciclo de auto-destruição da nossa protagonista é ainda mais acelerado graças a morte de Cassie – e não é só pelo sentimento de culpa: o fantasma da sua ex-melhor amiga a persegue.

Eu tinha grandes expectativas para Garotas de Vidro: já havia lido alguns trechos em inglês e sabia que a maneira de escrever de Laurie Halse Anderson era fascinante. Minhas expectativas, porém, foram superadas: a intensidade da escrita da autora é parecidíssima com a de Estilhaça-me, de Tahereh Mafi, descrevendo o turbilhão de emoções de Lia de maneira que o leitor consiga se por no lugar da personagem, sofrer com ela e compartilhar um pouquinho de sua felicidade – mesmo que seja algo estúpido e destrutivo como comer só 500 calorias por dia. A linguagem é rica, assim como suas metáforas e comparações – tudo isso para mostrar um mundo que, aos olhos da narradora, não tem muitos atrativos.

O tema também torna o livro interessante: afinal, comida não é só combustível. Comida é tradição, prazer, coletividade. Assim como percebi em Maus hábitos, não é só o corpo de uma pessoa com anorexia que é prejudicado - a sua "alma" também sofre. Lia não tem muitas razões claras para ser tão "machucada" - mas e precisa?

Alguns trechos são enervantes: a teimosia de Lia quanto a não se recuperar é terrível – embora real, já que, segundo os médicos, o que dificulta o tratamento de pacientes com anorexia é a sua crença de não estar doente. Em prol de perder peso, Lia machuca a todos: seus pais (que embora ausentes, não merecem tanto), sua madrasta e Emma, sua dócil meio-irmã. Li em algum lugar que Laurie Halse Anderson escreve, principalmente, sobre coisas que a indignam – uma lógica maravilhosa e louvável, que torna sua escrita e seu posicionamento devastadoramente convincente.

Sendo Lia a narradora, a anorexia é muitas vezes colocado como algo difícil, porém compensador. Depois de pensar sobre a leitura, porém, percebi que é exatamente ao contrário – de uma maneira bem torta, Garotas de Vidro é um alerta.

Afinal, como a própria Lia fala, não é legal quando garotas morrem.

Nota: 5/5

03 julho 2012

God bless America


Tenho um lado meio anti-americano, mas só de leve. Ao mesmo tempo que suo de raiva das ações do governo dos Estados Unidos – e da reverência de muitos quanto ao estilo de vida predatório perpetuado pelo mesmo –  não sou xenofóbica quanto a seu povo ou deixo de reconhecer algumas das coisas fantásticas (livros, filmes, pesquisas científicas) que são feitas por lá.

Mas para meu lado anti-americano, God Bless America – com certeza um dos melhores filmes que assisti esse ano – foi um prato cheio: Frank, um homem de meia idade, tem poucas razões pelas quais se apegar a vida – sua filha está se tornando uma patricinha insuportável e mimada, seu emprego é uma porcaria e ele não sabe o que é ter um amigo – todos seus colegas de trabalho e vizinhos só sabem falar de programas de televisão idiotas e fofocas de celebridades, o que, claro, não agrada a nosso protagonista.

E não é difícil para Frank achar um culpado: a tal da “indústria de entretenimento”. Desde mulheres bonitas e sem talento que vendem milhões de músicas no iTunes, passando por shows de calouros humilhantes até programas cujo o único objetivo é seguir peruas que se dariam muito bem em um ataque zumbi em busca de atenção, não há nada que faça o nosso anti-herói se apegar a vida.

A gota d’água acontece quando (entre ligações no celular – afinal, respeitar o paciente para quê?) Frank recebe a notícia de ser portador de um tumor fatal. No mesmo dia, ele foi demitido por “assediar” uma colega (o assédio, aparentemente, foi mandar flores para a mesma como forma de amenizar o mau dia que ela disse ter tido) e ouviu sua filha, Ava, dar um escândalo de proporções homéricas por ter ganho um BlackBerry ao invés de um iPhone – comportamento certamente imitado de Chloe, uma “celebridade” de dezesseis anos cujos únicos trunfos são ser rica e bonita –  o que a concede permissão para dizer em rede nacional que odeia os pais por estes terem errado a marca do carro importado que ela desejava.

Irritado com tudo aquilo, Frank toma uma decisão drástica: matar Chloe – um serviço a sociedade, ele diz – e depois se suicidar. Esta última parte, porém, acaba não se concretizando graças a Roxy: a ex-colega de Chloe faz com que Frank perceba o “bem” que ele pode fazer a seu país, matando, a exemplo da patricinha, todos os “formadores de opinião” idiotas que contaminam os Estados Unidos.

Soa exagerado? Sim, e é. Mas é o exagero que faz God Bless America fantástico: entre mortes de pessoas por razões “fúteis” (falar ao celular no cinema e coisas assim) há uma crítica ácida à tal da mídiacracia. A forma de Bobcat Goldthwait de protestar contra o que a sociedade em que ele vive se transformou pode soar irreal e estúpida, digna de risadas as vezes, mas é tão bem colocada – mas Frank e Roxy estão cansados de viver com pessoas que só fazem vomitar o que ouviram no rádio ou viram na televisão, e ao invés de uma discussão inteligente, pagam na mesma moeda.

 Dessa maneira, God bless America não se torna complicado ou difícil de digerir – como geralmente são filmes que tratam deste tema – e sim algo leve, sarcástico, provocador e afiado.

God bless God bless America.

Nota: 5/5


01 julho 2012

Insurgent


Tenho alguns problemas com séries literárias. Não que estes me impeçam de lê-las; não, não é isso, mas sei que evitar as que estão inacabadas seria bastante ajuizado da minha parte. Obviamente, há a parte da ansiedade: não posso olhar para minha estante com um apertozinho no coração por não ter disponível ou não poder comprar (graças a minha maravilhosa desorganização e compulsividade na hora de gastar a maior do que deveria parcela da minha mesada reservada para livros) várias continuações de séries que adoro.

Mas falando daquelas cuja continuação ainda não foi publicada, tenho problemas por causa do autor: ainda com séries que marcaram minha infância (tipo Harry Potter ou Desventuras em Série) eu me preocupava com a saúde dos mesmos. O que seria da minha existência se JK Rowling ou Lemony Snicket se acidentassem, não podendo amarrar as pontas soltas de suas sagas? Por mais dramático que isso possa parecer, é um medo real, que qualquer bookaholic entende: depois de passar horas e mais horas divertindo-se graças à trajetória de um personagem não saber seu fim é trágico. A única vez que meu medo de infância se concretizou não sofri muito (por só conhecer a série depois): Stieg Larsson, autor de Millenium, havia planejado-a para cinco ao invés de três livros, projeto interrompido por um ataque cardíaco fatal. É uma pena: Lisbeth Salander, sua anti-heroína, é digna de centenas de obras.

Algo também aumenta minha desconfiança quanto a séries: a qualidade. Não é raro que alguns livros depois (até mesmo no segundo) o autor perca o fôlego, a magia e a noção, enrolando seus fãs com finais meia-boca e extremamente comerciais. São poucas as exceções que posso destacar (entre elas está Jogos Vorazes) mas geralmente o melhor livro de uma saga é o primeiro.

Só que às vezes as coisas não são bem assim. Às vezes, a continuação de uma série não é melhor ou pior do que seu primeiro livro, apenas diferente. E foi isso que senti com Insurgent, livro precedido por Divergent (resenha aqui) da escritora Veronica Roth.  [Observação: a partir daqui, teremos spoilers de Divergent.]

O mundo aparentemente perfeito de Tris Prior está caindo aos pedaços: o sistema de facções, que funcionava antes como um relógio, foi desmantelado graças a ambição dos Erudite, os intelectuais da cidade. As facções então começam a se dividir, tomando lados em uma guerra que já matou quase todos os Abnegation, onde Tris nasceu e foi criada.

No meio dessa confusão, Tris tem seus próprios problemas: como lidar com ter matado um de seus amigos – e namorado de Christina, sua melhor amiga em Dauntless – em auto defesa? Como honrar a morte dos pais, que morreram para proteger a ela? E o mais importante de tudo: o que há de tão especial nela e nos outros Divergent para que eles mereçam a morte e a atenção de Jeanine, a cruel líder dos Erudite?

Isso é o que diferencia Insurgent de Divergent: enquanto o primeiro livro se preocupa em desenrolar as questões “filosóficas” inseridas no sistema de facções, o segundo foca-se em Tris e suas dificuldades durante a guerra – sem esquecer, claro, de várias cenas de ação, descritas brilhantemente pela autora. Não é muito raro YAs distópicos não parecerem de fato YAs, o que não ocorre em Insurgent: do começo ao fim vemos as dúvidas, as escolhas e as inseguranças de Tris, característica presente nos livros desse gênero. Se você gosta de protagonistas perfeitas com namorados perfeitos, nem considere ler este livro: as "pisadas na bola" de Tris e de Four são gigantescas.

Veronica Roth agora encontra-se finalizando sua trilogia, com um último livro (ainda sem nome) que provavelmente será lançado em agosto ou setembro do ano que vem. Por favor, Ms.Roth, cuide de sua saúde: o final de Insurgent foi misterioso demais para que continuemos sem respostas.

Nota: 5/5

27 junho 2012

Sobrevivente





A vida de Tender Branson não foi exatamente o sonho americano: depois de sair da colônia da Igreja da Crendice (onde cresceu submisso a milhões de regras sem muito sentido) seus dias se resumem a limpar as casas dos outros de dia e atender ligações de suicidas à noite. Sim: Tender espalhou adesivos com seu número pela cidade, oferecendo um serviço bem peculiar – incentivo ao suicídio.

Afinal, viver para quê? É o que indaga nosso anti-herói, o protagonista de Sobrevivente, do autor Chuck Palahniuk – o mesmo do livro que inspirou o filme Clube da Luta. Esse pessimismo extremo perante a vida é o que guia Sobrevivente: a obra inteira é a narração feita por Tender a uma caixa preta nos seus últimos momentos– o avião que ele seqüestrou para seu suicídio está prestes a cair.

Minha impressão inicial do livro, confesso, não foi tão boa assim: o autor parecia se esforçar demais para tornar seus personagens peculiares. Provei-me errada: sim, as idiossincrasias dos habitantes do fantástico mundo de Chuck Palahniuk são inúmeras, mas impressionantemente se encaixam. Aliás, essa é a principal marca do autor: desde Tender (que, além do supracitado, também alimenta seu peixinho com Vallium e “planta” flores de plástico no jardim dos patrões) até Tyler Durden de Clube da Luta (que faz sabonetes de banha humana dentre outras ocupações não ortodoxas) as figuras fascinantes são recorrentes em seus livros.

Isso por si só já carregaria Sobrevivente nas costas, mas não: o enredo também não deixa nada a desejar. Tão especial quanto os personagens, a história de Tender é um pano de fundo perfeito para críticas ao consumismo e a religião – sendo esta última extremamente inteligente e bem-acabada. A monetarização da crença religiosa – aproveitando-se do desespero e vontade de conforto alheios – é bem satirizada por Palahniuk, primeiramente de uma maneira quase distópica – mas depois de um tempo é quase impossível não identificar: as semelhanças com a realidade não são mera coincidência.

Nota: 5/5

25 junho 2012

Espere a primavera, Bandini


 “Não escreva poemas de amor, evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que se próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza – descreva isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança”.

Se eu fosse colocar aqui todos os trechos que considero brilhantes nessa pequena obra – uma coletânea de cartas escritas por Rainer Maria Rilke a um jovem poeta chamado Frank Kappus, que lhe pede conselhos sobre arte e vida em geral – eu a transcreveria inteira. Os conselhos dados por Rilke são geniais, são preciosos. Já abri um documento do Word milhares de vezes para tentar falar deste livro, mas minhas palavras nunca parecem honrá-lo.

Mas não estamos em outra tentativa de resenhar Cartas a um jovem poeta, e Espere a primavera, Bandini. Cronologicamente, esse é o primeiro livro de quatro da Saga de Arturo Bandini – como os livros do autor com seu mais conhecido e auto biográfico personagem ficaram conhecidos após a sua morte – relatando parte de sua infância no Colorado e o início dos conflitos de identidade que me fizeram detestá-lo em Pergunte ao pó.

Arturo Bandini é o mais velho de uma família pobre de imigrantes italianos, composta pelo pai bruto, Svevo; a mãe fanática pelo catolicismo, Maria e os dois irmãos, Federico e August. Os Bandini têm dívidas que sabem que nunca vão conseguir honrar. Svevo detesta o inverno – nessa época, é difícil conseguir trabalhos (ele é pedreiro). Maria encontra em rezar seu rosário sua única diversão e consolo. Federico alimenta a esperança de ganhar um barquinho no natal, mas sabe que esta é vã. August quer ser padre – não só pela batina em si, mas pelo conforto e pela comida. Arturo só quer roupas novas para impressionar Rosa, sua colega.

Antes que você possa dizer “mas eu já vi isso!” lhe respondo “não, não viu”. O domínio que Fante tem sob a linguagem é único. As ditas “emoções universais” são colocadas de um jeito tão próximo, tão claro, tão cru que é impossível não se envolver. Jonh Fante escreveu, em geral, romances auto-biográficos, relatando suas frustrações, desejos e paixões. Seus temas preferidos (a construção da identidade de imigrantes, a pobreza e a vida como escritor) eram todos tão profundamente pessoais que é difícil saber quem era Bandini e quem era Fante.

Ainda que inconscientemente, o autor seguiu o conselho de Rilke. E não poderia ter dado mais certo.

Nota: 5/5

03 junho 2012

A visita cruel do tempo


Jennifer Egan quebrou – além de algumas convenções sobre como um livro deve ser escrito – o meu padrão de escrever resenhas: seria muito pretensioso que eu tentasse (como sempre faço) iniciar esta com um apanhado geral do enredo de sua obra vencedora do Pulitzer, A visita cruel do tempo. O motivo? Não há enredo.

Não entendam mal: não é um defeito. Sei que qualquer coisa em um livro que lembre filmes de ação Hollywoodianos (‘sem enredo’ é uma expressão que já usei para descrevê-los milhares de vezes) soa má, mas é justamente essa falta de enredo que torna A visita cruel do tempo único e sublime.

Em primeiro lugar por seu personagem principal: o tempo. O livro possui mais personagens do que eu seria capaz de contar sem ficar entediada, o que quase sempre dá errado – mas porque voltar trinta páginas para relembrar o que Fulaninho fez se ele é um personagem secundário, uma mera marionete usada pela autora para demonstrar os efeitos e o poder de seu protagonista?

Pois bem: os destinos desses “personagens secundários” se entrelaçam das maneiras mais casuais possíveis. Eles mudam da água para o vinho, casam-se, corrompem-se, ganham e perdem prestígio e dinheiro, recuperam-se de vícios, morrem, vivem uma vida em um mês e depois vegetam pelo resto dos seus dias – tudo isso com uma falta de cronologia tão bem orquestrada que deixaria até Pulp Fiction com inveja.

Um parágrafo pode narrar décadas; um capítulo, segundos. Passando-se num período de cinqüenta anos, A visita cruel do tempo vai desde a vida desregrada de um grupo de adolescentes da São Francisco dos anos 70 até uma Nova Iorque de um futuro irônico, onde nossas vidas são ligadas a uma maquininha chamada console e os bebês são o público alvo de quase tudo – inclusive da indústria musical que, obviamente, teve de se adaptar, deixando qualquer complexidade e singularidade de lado. Apatia, dor, medo, vontade de aceitação, felicidade, esperança e sua ausência: tudo é colocado de maneira sufocante e crua.

Para qualquer aspirante a escritor – ou leitor chegado a formas não-tradicionais de escrita – o livro é hipnotizante: caso desavisada, eu nunca diria que foi escrito por uma só mão. Há narração em primeira, terceira e segunda pessoas; capítulos escritos em estilo tradicional com pontuação e palavras bonitas, lentos, intensos, mornos, bons, ruins e até mesmo várias páginas em gráficos e apresentações do Power Point.

Eu nunca poderia zoar o suficiente com os críticos literários hiperbólicos; mas mais uma vez (o tanto de vezes que isso vem acontecendo recentemente está me deixando com medo, mesmo) lhes dou relutantemente razão.

Nota: 5/5



25 maio 2012

Divergent


O que você faria, leitor, ao ser obrigado a escolher somente uma dentre suas milhares de características de ser humano complexo e singular para reger o resto de sua vida? Emprego, amigos, vizinhos, roupas, casa, hobbies, família – tudo definido por só um pedacinho minúsculo de quem você é; sem volta ou espaço para arrependimento?

Pois bem, em Divergent, a sociedade é dividida em cinco facções, responsáveis pela educação, emprego e vida em comunidade de seus membros: Amity, que são contra a violência e a agressividade; Candor, que nunca mentem; Dauntless, que desprezam a covardia; Abnegation, os anjos que condenam o egoísmo ou sequer pensar em si e finalmente, Erudite, os intelectuais.

Mesmo sendo nascida e criada em Abnegation, Beatrice não sabe se lá é seu lugar: a ideia de viver até o fim de seus dias em função do bem alheio soa opressora aos seus ouvidos – ao contrário do seu irmão e pais, a solidariedade raramente lhe é natural, espontânea. Suas dúvidas só fazem aumentar ao receber o resultado de seu teste de aptidão: Beatrice é Divergent, ou seja, não se encaixa em nenhuma das facções. Dessa condição, porém, ela deve guardar segredo: para as facções, ser Divergent é ser um perigo a sociedade.

Não sem dor por deixar a sua família, Beatrice – agora chamada de Tris, já que seu nome de batismo é “Abnegation demais” – escolhe deixar sua facção rumo a Dauntless. A dificuldade decorrente dessa decisão era óbvia: afinal, não é tão fácil sair de trabalho voluntário e noites tranqüilas em frente a uma lareira para combates corporais, pulos de trens em movimento e aulas de tiro.
Mas sua nova facção esconde mais obstáculos do que ela gostaria: dos 21 iniciandos, apenas dez se tornariam membros de Dauntless. Falhar seria a concretização do maior medo de Tris: se tornar uma sem-facção, sendo obrigada a fazer os trabalhos mais pesados e exaustivos em troca de apenas um pouco de comida e abrigo em uma antiga estação de metrô.

Divergent é fantástico – se não contarmos Em Chamas, é provavelmente o melhor livro de ficção distópica YA que já li. Assim como Suzanne Collins, Veronica Roth não dá a seus leitores tempo para respirar, comer ou viver entre as páginas do livro – todas essas coisas se tornam fúteis em comparação a descobrir qual a próxima desventura de Tris. Os personagens são construídos de uma maneira encantadora: é um defeito de muitos livros YA produzir mocinhos e mocinhas excessivamente dramáticos e vilões estilo “encarnação do mal” – mas salvo um momento ou dois, isso não é característico de Divergent.

A parte distópica é, talvez, melhor do que a de Jogos Vorazes: a divisão de facções de Divergent parece o caminho perfeito para a paz até determinado momento – mas quando as partes podres são reveladas, este toma ares do sistema castas indiano, injusto, cruel e anacrônico.

Só tem um problema: o romance. Embora o par romântico da mocinha seja “na medida” (como todos os personagens do livro) o envolvimento dos dois se dá de um jeito meio meh. Depois de ler algumas cenas, não contive um suspiro. Até tu, Veronica?


Nota: 5/5

OBS.: Li Divergent em inglês (o BookDepository vai me falir) mas segundo blogueiras parceiras da editora, a Rocco o lançará ainda esse ano. Bravo, bravo.
OBS2.: Achei a capa bem tosquinha quando recebi, mas faz todo o sentido depois de ler o livro.

29 abril 2012

Os Vingadores

Não sou lá muito fã de Big Brother. Assisti quase toda a temporada em que Jean Wyllis foi o campeão, e, em momentos de tédio e falta de TV a cabo na praia, pesco dois ou três episódios – não com prazer ou desgosto, mas simplesmente com indiferença.


Mas mesmo estando longe de ser uma fã do programa, me irrito profundamente com as campanhas anti-BBB que são feitas online antes e durante a sua exibição – além dos incontáveis “graças a deus” e “ufa!” quando o programa acaba. Alegam que o Big Brother não traz cultura ou conhecimento para seus espectadores. Mas quem na terra assiste BBB para ficar mais “culto”? Qual seria o problema de entretenimento só por entretenimento?

Essa defesa do BBB acaba funcionando bastante ao meu favor – não pelo reality show da Globo em si, mas sim por outras duzentas coisas que adoro mas que, de fato, não acrescentam em nada no meu “repertório” ou me fazem refletir. Apesar de inconscientemente endossá-la às vezes, odeio essa perspectiva de que tudo na vida tem que ter uma utilidade prática – até mesmo as coisas feitas nos seus momentos de diversão e relaxamento.

Nesta lista de “entretenimento por entretenimento” estão os filmes do multiverso Marvel. Comecei a assisti-los por pura falta de opção – na cidade onde moro, só há um cinema, que tem o dom de quase nunca passar filmes que não sejam de criança/de ação/de comédia – e depois, por ter de fato tomado gosto pelas cenas de ação bem-feitas e produção impecável. Alguns deles têm também o poder de surpreender: adorei as referências históricas nos recentes Capitão América e X-Men: Primeira Classe – este último tão legal que é um dos poucos filmes que me fizeram pagar um indecentemente caro ingresso de cinema mais de uma vez.

Os Vingadores está sendo bastante elogiado no Tumblr, e, apesar de preferir os supracitados, compartilho em parte da empolgação. O enredo em si é bastante trivial para o universo das HQs: o semi-deus rejeitado Loki planeja a dominação da terra. Para isto, ele necessita do Tesseract, uma fonte inesgotável de energia encontrada pelas Indústrias Stark e estudada pela agência de espionagem SHIELD, com as pesquisas comandadas pelo Dr. Erik Selvig.

Depois de capturar o Tesseract, Loki hipnotiza (afinal, ele é um semi-deus bem fraquinho, mas ainda é um semi-deus) o Dr.Selvig e o agente Clint, para que ambos o ajudem no seu propósito de abrir uma fenda no espaço com o mesmo. Fenda esta por onde passariam soldados alienígenas Chitauri que, em troca do Tesseract, fariam com que os terráqueos se prostrassem aos pés de Loki.

Diante da ameaça, Nick, diretor da SHIELD, reinicia a iniciativa Vingadores – um time de super heróis usado para defender os Estados Unidos a Terra. Os Vingadores não são exatamente tão heróicos assim: o seu líder, o Capitão América, acaba de acordar de um “sono” de 50 anos e não está habituado ao mundo moderno; o playboy Tony Stark, o Homem de Ferro, tem problemas com modéstia e trabalhar em equipe; o Dr. Bruce, que ao menor sinal de raiva, pode se transformar em Hulk, matando a todos; a assassina profissional da SHIELD Natasha (ou Viúva Negra) vive entre crises de consciência por seu trabalho e Thor, por ser irmão de Loki, não tem certeza se deve ou não se juntar aos Vingadores.

Talvez o principal problema do filme – que não o tornou tão bom quanto outros da Marvel que assisti – sejam os personagens. Fora Tony Stark – que brilha por sua imodéstia charmosa e ironia sem limites – todos os outros  são muito pouco explorados no tocante as suas personalidades. Desde o início do filme, os seus problemas pessoais e a falta de química entre os Vingadores são bastante enfatizados, e é uma pena tal desperdício. 

De resto, o filme faz magnificamente bem o que se propõe. As cenas de ação são impecáveis, e ocorrem com uma freqüência que torna impossível o tédio. O que alguns milhões de dólares não podem fazer?

Embora de fato não sucite muitas reflexões a primeira vista, Os Vingadores (e outros filmes do gênero) não é exatamente vazio. A defesa as posições americanas perante o resto do mundo é bastante sutil – bem mais sutis do que o ultra-patriotismo em Capitão América, por exemplo – mas estão lá. Através de uma metáfora – onde os inimigos não são seres humanos de países ou etnias diferentes, e sim alienígenas feinhos e poderosos – o indefensável é defendido e justificado. Não sei o quanto essa "mini lavagem cerebral subconsciente" ajudou na construção do império que os EUA são hoje, mas chuto que bastante. O que seria da Terra do Tio Sam sem sua indústria de entretenimento?
Nota: 4/5



08 abril 2012

Estilhaça-me


Juliette, protagonista de Estilhaça-me, está presa em um manicômio – mas não porque a priori lhe faltasse sanidade, e sim por carregar consigo uma espécie de maldição: ao tocar ou ser tocada por outro ser humano, este sente uma dor excruciante e, caso o contato seja prolongado, o toque de Julliette pode ser mortal.
Rejeitada por seus pais e considerada um perigo à sociedade, a garota é trancafiada.  A solidão, experimentada por todos nós uma hora ou outra, é onipresente e especialmente intensa para Juliette: por causa de seu dom, ela sempre foi isolada emocionalmente até mesmo de sua família, e os dias no confinamento físico só tornam isto pior.
Depois de 254 dias no manicômio, este tal confinamento físico termina: Adam, um rapaz misterioso com olhos da mesma cor do céu, é designado para ser colega de cela de Julliette – que acredita piamente conhecê-lo, embora ele não pareça se lembrar.
Em Estilhaça-me, a terra está definhando a passos largos. O clima está desregulado, os animais morreram, as colheitas não rendem mais quase nada – enfim, o caos se instaurou. Com promessas de um futuro melhor, um governo chamado o Restabelecimento assume o comando em todo mundo, dividindo-o em 3.333 distritos, matando os seus opositores e destroçando todos os “ultrapassados” vestígios de cultura das civilizações anteriores.
Com apenas dezenove anos, Warner já é responsável pelo distrito em que Julliette se encontra. Fora algumas explosões e caprichos ocasionais, Warner é persuasivo, egocêntrico e calculista, e não mede esforços para, depois de retirar Julliette de sua cela, convencê-la a torturar e matar pelo Restabelecimento. Warner é um vilão do tipo que gosto: não com aquela polarização nojenta e irreal da típica encarnação do mal absoluto, e sim alguém com noções éticas distorcidas pelo poder e circunstâncias.
Mesmo lendo muitos livros Young Adults, não me considero uma leitora aberta à inovações. Não digo quanto ao conteúdo ou tradicionalidade da obra (ao menos minhas leituras não são representativas disto) e sim quanto a forma em que esta é escrita: não gosto de falta de pontuação, diálogos não sinalizados, frases grandes demais ou parágrafos confusos.
Mas Estilhaça-me foi uma exceção a esta regra. Tudo para Julliete é imensamente intenso ou novo, e através de uma escrita que meu eu tradicional considera irregular, a autora conseguiu expressar isto. A narração de Julliette repete palavras, risca frases, carece de sinais de pontuação ou coesão em muitos pontos, dando um toque desejável de realidade a sua escrita. Sem esta escrita diferente e inovadora, Estilhaça-me seria somente um bom romance com pitadas distópicas - mas a narrativa de Tahereh Mafi o faz muito mais.
Em livros de alta vendagem sempre há um espaço destinado às hipérboles jornalísticas sobre o mesmo. Em Estilhaça-me, ele é preenchido pelo comentário de uma escritora que diz “Estou com inveja. Não conseguia parar de ler.”.
Eu não poderia concordar mais. E não quero esperar até 2013 para ler a continuação.
Nota: 5/5

06 abril 2012

Firelight


Alguns temas e gêneros parecem já me parecem bastante esgotados. Fantasia, por exemplo: depois da onda vampiros/lobisomens/anjos, eu acreditava que até mesmo uma reencarnação de Tolkien falharia em achar uma centelha de criatividade aproveitável, algo que ainda não tivesse sido escrito. Para quem, assim como eu, também foi/é fã do seriado Sobrenatural, a coisa se agrava: não parece haver uma criatura mítica ainda não caçada por Dean e Sam – que, apesar de se distanciarem da aura romântica e de aceitação dos YAs, ainda possuem sua parte Fantástica.
Que eu estava redondamente errada e perdi muito em ignorar livros de fantasia nos últimos tempos é óbvio, mas resta saber que obra mudou minha opinião – neste caso, ela atende pelo nome de Firelight
Neste livro, Jacinda, a protagonista, é uma draki, uma espécie de dragão que pode se transformar em humano. Mais do que isto: Jacinda é a primeira cuspidora de dragões em gerações, o que faz com que ela seja destinada a casar com Cassian, o futuro alfa do clã, o que ela odeia – além de não querer ser feita de mera reprodutora, Jacinda sente por sua irmã gêmea, Tamra, apaixonada por Cassian desde sempre e ignorada por ele desde que não incorporou (ou seja, não foi capaz de assumir sua forma draki) no início da puberdade.
Graças às propriedades mágicas do seu sangue e ossos e habilidade para achar gemas embaixo da terra, os drakis são caçados, os que os leva a viver escondidos em aldeias isoladas e protegidas magicamente. As regras também são bastante estritas: drakis não podem voar a luz do dia – o risco de um caçador vê-los é imenso. Jacinda, porém, desobedece esta regra juntamente com sua amiga Az – o que quase custa a vida de ambas.
Depois deste ato de rebeldia, a mãe de Jacinda – que não incorpora em solidariedade à Tamra e para não lembrar de seu marido, morto pelas mãos de caçadores – decide que o melhor para a família é que todos fujam da isolada aldeia do clã e se mudem para uma cidade.
Apesar de odiar toda a atenção que lhe é dispensada e o fato de ser “destinada” a Cassian no clã, Jacinda detesta ainda mais a cidade que é escolhida pela mãe como seu novo lar: no meio do deserto, sem contato com a terra, a natureza “viva” ou sua própria espécie, o lado draki de Jacinda começa a definhar como sua mãe objetivava. A única coisa que o mantém vivo no árido clima de Nevada é Will, um colega charmoso de Jacinda e que esconde tantos segredos quanto ela.
Firelight foi feito para vender – desde a capa (que é linda) até o precinho razoavelmente camarada para um YA. Não digo por que a autora escreveu exatamente o que gostaríamos de ler ou coisa do tipo, mas é perceptível pelas frases curtas e linguagem simples empregadas que Sophie Jordan queria uma leitura o menos complicada possível. E conseguiu: li Firelight em uma noite, movida em parte pela falta de sono e em parte pelo envolvimento que a história proporcionou.
Tento variar minhas leituras o máximo possível: desde YAs até os clássicos, de distopias a épicos. Contudo tenho meus preferidos, e quando se lê bastante do mesmo gênero é quase impossível não encontrar semelhanças gritantes – os famosos clichês.
Nesse aspecto Firelight está bem servido: o grande conto de irmãs gêmeas muito diferentes entre si; a luta pela aceitação por parte da família; as panelinhas dos populares e uma protagonista egocêntrica são elementos presentes – e como. Sinceramente, não me incomodei muito. Embora eu acredite que o livro formado somente de clichês perca completamente qualquer vestígio de enredo, não tenho muitos problemas se isso não interfere no desenvolvimento geral de forma significativa. Faltaram, contudo, explicações mais claras: ainda não entendi o que é um enkros, o temido inimigo dos drakis; ou até mesmo conseguir visualizar de forma inteira um draki completamente transformado - mesmo que as descrições de mudanças físicas existam e sejam muito boas.
Mas do que me entreter, Firelight abriu meus olhos para um gênero literário que eu deliberadamente ignorei desde o boom de Crepúsculo. Uma ótima companhia para uma noite de calor, tédio e insônia.
Nota: 4/5

02 abril 2012

Delirium


Acho que todo mundo que gosta de escrever também reflete sobre as palavras e seus significados. Comigo, pelo menos é assim. Eu poderia escrever livros e mais livros sobre o tema – não o faço por preguiça e por saber que o tema seria maçante para a maior parte do mundo, que sabe que as palavras são assim e acabou. Sem grandes filosofares.
Gosto de muitas palavras com um significado ruim; adoro falar algumas só pelo esforço empregado em sua pronúncia ou pelo jeito que ela soa e aquelas que, caso eu mandasse no mundo, usaria para descrever coisas totalmente diferentes das que descrevem hoje.
Uma vez li um texto de um colunista da Capricho (não lembro qual) refletindo sobre as palavras amor e love. Segundo ele – e eu não poderia concordar mais – love não é tão mágica quanto amor (mesmo que ambas signifiquem a mesma coisa) por sua pronúncia lisa, uniforme, sem nenhum fonema que se destaque demasiadamente mesmo nos sotaques mais bonitos. Amor não: no sotaque do interior de alguns estados, o r pronunciado e repetido dá uma vibração bastante especial; no meu sotaque, o acréscimo de vogais e o semi ignorar das consoantes é bastante charmoso – enfim, a palavra, em mil jeitos diferentes, faz jus ao que descreve.
Lauren Oliver parece ter sacado bem isso: li Delirium em inglês, e algumas páginas foram suficientes para que eu percebesse que, ao invés de love, o amor no seu livro foi rotulado, na maior parte do tempo, de amor deliria nervosa. Mas não só pela beleza da expressão em si, mas também pelo fato de que em Portland – assim como em todas as cidades dos EUA distópico da autora – o amor é considerado uma doença.
Por isso, todos os cidadãos têm de passar por uma operação aos dezoito anos – operação que, além de diminuir as chances de contrair a deliria, também traz uma grande paz de espírito e felicidade.  Sem mais dúvidas ou desejos esmagadores – os seres humanos nunca pareceram tão emocionalmente equilibrados e próximos dos deuses. Lena espera ansiosamente por sua operação: graças à doença, sua mãe se suicidou, por preferir morrer a viver sem amor – e o medo de que o mesmo aconteça com ela é imenso.
A melhor amiga de Lena não pensa assim: a linda e rica Hana detesta a ideia de ter seus desejos e vida – pois carreira, marido e número de filhos são definidos por médicos em uma entrevista/exame pré-operação – controlados por outrem – mesmo que esse outrem seja ela mesma, somente com seu modo de pensar modificado pela “cura”.
No auge de seu espírito rebelde, Hana convence Lena a entrar no laboratório sem permissão, onde ambas conhecem Alex, um estudante que trabalha meio período como guarda do local. Lena então é “infectada” por Alex – ou seja: eles se apaixonam.
Alex (que tem opiniões bem pouco ortodoxas) faz com que Lena veja as coisas de outra maneira: é o amor realmente uma doença? Não haveria outro modo de estabelecer a paz social, sem acabar com o amor, a paixão, a poesia, as emoções exacerbadas ou o direito de escolha?
Um bom sinal foi dado para Delirium logo no início: a sociedade feita-para-ser-feliz de Lauren Oliver me lembrou bastante do que é considerado o maior livro de ficção distópica de todos os tempos – Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (que também é um de meus livros preferidos). Mais exatamente uma frase dita pela pseudo-rebelde Hana fez com que minha mente me trouxesse o memorável quote do igualmente memorável livro: “- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.”

Esse controle social todo é bem explicado por Lauren Oliver: Lena, que narra o livro, apresenta os aspectos de seu mundo como naturais e perfeitos, sem refletir muito sobre eles – ao menos até que Alex entre na história. Ela sai do “completamente alienada” para “razoavelmente consciente” – aquele tipo de transição lenta e gradual, perfeita para livros do gênero.
Lena é o tipo de protagonista que gosto. Sinceramente, detesto personagens corajosas demais – elas podem parecer bem legais se não refletirmos muito, mas depois me parecem bastante irreais. Em Lena, não lhe falta ou lhe sobra coragem – ela somente faz concessões, baseadas no seu afeto por Hana ou Alex ou na pura lógica.
Delirium poderia ser docinho e enjoativo, mas não é: por Lena ter sido criada para acreditar de que o amor é algo danoso e doentio, ela apresenta “os sintomas” de forma leve, relutante e sem clichês. Afinal, como algo quase criminoso poderia ser batido?
Delirium não me deixou com a respiração presa, ansiosa para ler logo a próxima linha como Jogos Vorazes. Mas chegou perto.
OBS.: A capa acima é da edição paperback que comprei, em inglês (que é baratinha, não tem frete pelo Bookdepository e tem uns extras legaizinhos). A daqui do lado é a publicada recentemente no Brasil com o título de (ooooh) Delírio

31 março 2012

Scored

Depois de uma segunda Grande Depressão, as universidades estadunidenses voltaram a ser domínio exclusivo dos super-ricos – não importando o quão talentoso ou esforçado você fosse – e a mobilidade social se tornou próxima a zero.
"Sensibilizados" (ou não) com a falta de perspectivas reservadas a maioria dos jovens americanos, a ScoreCorporation se prontifica a mudar isso - mas de uma maneira bem custosa e peculiar: o sistema por eles criado vai além das notas na hora de medir o desempenho de um estudante, atribuindo uma nota (ou score) para cada pequena ação do mesmo. Seus amigos, seu foco, seu comportamento e cada palavrinha que você fala –  tudo é essencial e registrado pelas eyeballs, câmeras cruéis espalhadas por toda a cidade que registram e processam cada uma de suas ações, calculando o seu score. Lojas, hospitais e até mesmo o exército passam a adotar o score como maneira de fazer novas contratações, mas o almejado pela maioria dos estudantes é outra coisa: conseguindo um score acima de oitenta pontos, a ScoreCorp pagará todas as suas taxas para qualquer faculdade estadual.
Como sempre, nem todos estão felizes com esse sistema: parte dos estudantes da Somerton High, na cidade de Somerton, Massashusets – uma das cidades-teste para o Score –  se recusam a terem suas vidas vigiadas pelas eyeballs. A associação com os chamados unscored é punível com a perda consecutiva de vários pontos.
Essa perda de pontos por associação é levada ao extremo: em Somerton High, todos os alunos somente fazem amizade com aqueles de Scores semelhantes –  por isso, as panelinhas são refeitas todos os meses, e aqueles que eram outrora inseparáveis agem como se nunca houvessem se conhecido. Imani LeMonde, contudo, graças a uma promessa feita há muitos anos atrás, não abandona a amizade de Cady – mesmo que Imani possua 92 pontos e Cady somente 67.
Um dia, esta amizade deixa Imani em apuros: Cady começa a namorar um unscored – resultando na perda de pontos não só para ela, mas também para Imani. Com um score abaixo do necessário para sequer conseguir um bom emprego – o que dirá uma bolsa – Imani procura o impossível e acha: uma maneira de ganhar mais de vinte pontos em um mês, voltando para o topo e realizando seu sonho de estudar biologia marinha.
Se associando com Diego McLune para um trabalho – o filho rico de uma advogada anti-score – ela espera conseguir informações boas o suficiente para que a ScoreCorp recompense a sua lealdade com uma quantidade estúpida de pontos e, consequentemente, uma bolsa de estudos. Contudo, a convivência com Diego – que tem idéias próprias e peculiares sobre o real objetivo do Score – faz com que Imani repense se a "meritocracia" proposta pela ScoreCorp é realmente benéfica.
A ideia de Scored é brilhante: em algumas sociedades ou grupos sociais, a pressão colocada em cima dos adolescentes para "andar na linha" é enorme. Embora ir para a universidade ainda esteja fora de cogitação para uma grande parte da população brasileira, a tensão é palpável em terceiros anos e cursinhos pelo país inteiro. Em alguns países, isto é levado ao extremo: na China e na Coreía do Sul não são incomuns colapsos nervosos e suicídios graças ao ambiente acadêmico. Lauren McLaughin tentou elevar isso a um outro nível, a um nível onde a vigilância é completa, impessoal e constante. O exagero, característica da maioria das distopias, está bastante presente em Scored, embora o mundo em que ele está inserido seja completamente reconhecível e parecido com o nosso.
O problema foi a execução: não é exatamente mal-escrito, mas sim mal-desenvolvido. Scored é ótimo até a metade, mas, a partir daí, a autora entra em uma corrida desenfreada para terminar o livro em poucas páginas, não desenvolvendo mil e uma situações possíveis e inserindo algumas inúteis. O aspecto psicológico dos adolescentes scored – o que eu ansiei para ler sobre – é praticamente ignorado, se limitando a breves descrições por parte de Imani de como é difícil ser vigiada 24/7.
Não gosto muito de distopias explicativas, o que Scored é. Gosto de refletir sobre determinados aspectos por mim mesma, ler nas entrelinhas - o que é exatamente o contrário que Scored faz, dando todas as reflexões possíveis através de diálogos entre Imani e Diego. As entrelinhas, em um livro de ficção distópica, são preciosas: em geral, quem lê este tipo de coisa gosta de chegar a suas próprias conclusões, não encontrar as de outrém inseridas no objeto de reflexão.
Ainda assim, dou três pontinhos a Lauren McLaughing por sua ideia brilhante – mas uma para a interminável lista das que eu gostaria de ter tido.
Nota: 3/5

14 março 2012

O brilho eterno de uma mente sem lembranças, memória, e a vontade de ser singular

"Feliz é a inocente vestal; Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças; Toda prece é ouvida, toda graça se alcança." Alexander Pope
Se a neuromedicina avançasse o suficiente para apagar, de forma definitiva, uma lembrança de sua cabeça, o que você faria? Fosse uma pessoa, situação ou sensação, ela seria para sempre esquecida – e no dia seguinte, o único efeito colateral seria uma dor de cabeça, nada mais do que o experimentado em uma ressaca. Você se poderia se livrar de todos os seus erros, de pessoas que desejava nunca ter conhecido, de palavras que não deveriam ter sido ditas e da culpa de ter deixado de fazer algo. O que você faria diante dessa perspectiva única, maravilhosa e assustadora?
Escrutinei minha mente atrás de coisas que eu gostaria de esquecer para sempre e me vieram, com uma rapidez impressionante, as pequenas humilhações da infância. Sei que não pode parecer grande coisa, mas o olhar infantil através do qual foram concebidas as tornam estranhamente intensas, melancólicas e coloridas. Depois, coisas mais recentes: palavras que nunca deveria ter dito e erros (não muito grandes por si só, mas que acumulados, se tornaram imensos e impactantes) da adolescência –  que, atipicamente, fazem com que minhas bochechas esquentem de vergonha não de mim mesma; mas de coisas que pensei serem verdades únicas e universais.
Mas aí veio o problema: eu simplesmente não podia apagar nenhuma dessas lembranças. Esquecer algo para sempre é esquecer também o aprendizado e auto-consciência que esta lembrança lhe traz, e pessoalmente, digo que cada um dos meus erros foi um pequeno tijolinho para que eu seja quem sou hoje. Não que eu seja grande coisa, aliás, ou almeje a perfeição em meus atos – qualquer coisa que chegue perto de ser completamente irrepreensível é chata –  mas a minha eu de hoje é menos propensa a quebrar a cara por besteiras do que a de um, dois, três anos atrás. Cada erro, cada lembrança, leitura, pessoa, tudo isso é um pequeno pedacinho da colcha de retalhos que é a personalidade de cada um, e, mesmo com todos os meus defeitos imperdoáveis, acharia estranho trocar a minha colcha pela de outrem.
Enfim, livrar-me das minhas lembranças ruins ou vergonhosas seria negar a mim mesma e a toda trajetória da humanidade, que até hoje, consistiu em errar e (as vezes inutilmente) tentar mostrar às gerações futuras a estupidez do erro. Nunca haveria, de fato, um acerto, já que a minha essência não mudaria, somente minha propensão a errar. De modo geral, a nível pessoal e coletivo, estaríamos todos perdidos.
Clementine, personagem principal de O brilho eterno de uma mente sem lembranças, não pensava igual a mim: sem pestanejar, contratou uma clínica para apagar uma de suas lembranças mais adoráveis e dolorosas – o seu relacionamento com Joel.
O começo do filme é bastante lento – naquele estilo de filmes Cult bem cansativos, que perdem sua missão de entreter em meio à vontade de parecer legal – mas é estimulante por uma razão: Jim Carrey. É no mínimo estranho o ver sem as piadinhas, sem os personagens mal-construídos (com exceção para o Conde Olaf, da adaptação para os livros da série Desventuras em Série), na pele de Joel.
Aliás, como é comum em filmes de romance, os dois são bem diferentes: enquanto Clementine é falante, inconseqüente e complicada; Joel é um daqueles caras introspectivos, bastante tímido, cuja vida e pensamentos parecem bastante sem graça a um primeiro olhar. A fim de tentar mascarar a dor de ter sido esquecido pela mulher que amava, Joel também passa pelo procedimento de “deleta-la” de sua mente, questionando durante o processo se a validade e utilidade do mesmo.
Todo esse processo é uma jóia valiosa no filme: enquanto reconstrói seu relacionamento com Clementine – partindo de sua última briga até o dia em que se conheceram – Joel vai questionando seus conceitos e vendo tudo aquilo do que se arrepende. Ao contrário dos filmes de alto orçamento em geral, as lembranças e sonhos não vêm tão perfeitas, em alta qualidade, e sim como na vida real: meio borradas, fracas e com partes faltando. O fato de tudo ser não-linear, com inserções de lembranças anteriores e as “viagens” que a mente humana geralmente dá torna tudo mais legal.
Pergunta: só sou eu que me incomodo com essa busca incessante e incansável de muitos adolescentes (e alguns adultos) por uma individualidade artificial? Vestir roupas diferentes, escutar a banda mais desconhecida, ler os livros mais complicados ou fingir ter as emoções e preocupações mais profundas – quando, na verdade, esse esforço por não ser parte de uma multidão resulta numa normalidade mais chata que o comum, por ser forçada, prepotente e arrogante?
Esse foi meu porém com o filme: foi assim, desse jeito podremente torto, que a personalidade de Clementine foi construída. O esforço em fazer com que ela pareça legal – não no estilo hollywoodiano, loiro, casto e perfeitinho; mas de um jeito indie, rebelde imperfeito e estranho – foi tudo muito excessivo, muito artificial e infantil. No final, ela era somente mais uma com a tal da síndrome da singularidade, externando suas inseguranças estúpidas e dando pitizinhos sem razão alguma.
Além disso, foi falha a tentativa de fazê-la a estrela do filme – no final, foi o tímido Joel (nunca vão me convencer que não foi um alien que abduziu o verdadeiro Jim Carrey durante aquele filme) que brilhou.
Nota: 4/5

04 janeiro 2012

ESPECIAL DE ANO NOVO: série Jogos Vorazes

OK, fui mordida pelo bichinho Suzanne Collins. Perdoem-me o trocadilho podre, mas devorei a série Jogos Vorazes vorazmente. Viagem a praia, da festa do ano novo, nada me impediu: li toda a série em pouquíssimo tempo. Isso ocorreu, principalmente, pela esperteza da autora, Suzanne Collins: tanto "Jogos Vorazes" quanto "Em chamas" acabam de uma maneira que dá aquele gosto de quero mais. Bom, passadas essas considerações, vamos as resenhas (com altíssimo risco de spoiler):
JOGOS VORAZES: começo genial Respirar o cacete: eu precisava ler Jogos Vorazes. Suzanne Collins amarra a história de um jeito tão natural e bem feito que senti que se abandonasse o livro por um mísero minuto eu perderia algo, como se o livro fosse criar pernas e sair correndo por aí, me deixando com uma curiosidade agoniante.
Somos introduzidos Katniss, que, com apenas dezesseis anos, já sustenta sua família, caçando ilegalmente na floresta junto com seu amigo Gale - que também usa os animais caçados, a coleta e a pesca para alimentar sua mãe e seus irmãos.
Esta necessidade não provém apenas da morte dos pais de ambos em um acidente: no mundo apresentado no livro, a América do Norte foi dividida em treze distritos e a Capital, criando um país chamado Panem. Enquanto os habitantes da Capital são riquíssimos e vivem na fartura e no exagero, a maior parte dos distritos é extremamente pobre, impedindo que as mães de Gale e Katniss achem emprego fixo.
Setenta e quatro anos antes do início do livro, o 13º distrito - especializado na produção de grafite e na indústria bélica - se rebelou e foi subjugado. A Capital, para garantir que isto não acontecesse de novo, reafirma o seu poder todos os anos através dos Jogos Vorazes, uma espécie de Reality Show muito semelhante ao Coliseu romano: vinte e quatro adolescentes (dois de cada distrito), denominados tributos, são postos dentro de uma arena todos os verões, para enfrentar toda sorte de perigos e lutar até que apenas um sobre.
No sorteio dos tributos do 12º distrito, um desastre acontece: a irmãzinha de Katniss, Primrose, contra todas as possibilidades (por possuir seu nome inscrito apenas uma vez, contra diversas de outras crianças menos afortunadas e mais famintas que aumentavam suas chances de ir à forca em troca de uma porção de grãos e óleo) é sorteada. Desesperada, Katniss se oferece para ir em seu lugar, tornando-se, junto com Peeta - o filho do padeiro, que salvara a Kat e sua família da inanição após a morte do pai da mesma - tributo de um dos distritos mais renegados de Panem, com um mentor bêbado e uma acompanhante que personifica toda a futilidade da Capital.
A parte introdutória do livro não é exatamente muito boa, mas te deixa com uma curiosidade boa para saber como as coisas prosseguiriam naquele mundo distópico que (apesar de ser um pouco falho em alguns pontos quando comparado a obras-primas tais quais "Admirável mundo novo" e "1984") é uma ótima releitura da Roma Antiga.
Apesar de gostar bastante da Katniss neste livro - como dito pela Fernanda, é bom ter uma personagem feminina forte, para variar - achei irritante a falta aparente de defeitos dela: a autora coloca as ações de Katniss acima de qualquer questionamento ou crítica. Mesmo aquelas mais terríveis são justificadas, de alguma forma, pelas circunstâncias. Adorei Peeta, por outro lado. Costumo detestar heróis apaixonadinhos pela heroína, e mais ainda aqueles que são sofridos por causa disto - no caso de Peeta, por não ser a escolha obvia ao lado do bonito e capaz amigo de longa data do seu objeto de afeição. Contudo, a inversão dos papeis que são delegados a homem e a mulher na maior parte dos livros o torna interessante: é Katniss que salva Peeta, não o contrário, e, fora alguns resmungos ocasionais, ele não parece possuir problemas com isto.
EM CHAMAS: O preço alto da vitória
Dos três, é o meu preferido. Algo sem precedente aconteceu: dois tributos, ao invés de um, sairam vivos da Arena, graças a atitude de Katniss que, recusando-se a matar Peeta, sugeriu que ambos se suicidassem. Graças a esta atitude, ela está em apuros: o quase suicídio foi considerado uma ridicularização a Capital, e alguns distritos mais subversivos, cansados da fome e da opressão, se revoltaram, espelhando-se em Katniss Everdeen, a garota em chamas. Essa é uma ótima oportunidade para que ela seja usada como peão pela primeira vez: tentando reverter um pouco do dano, o presidente Snow a obriga - em troca da segurança dela e de sua família - a continuar com o romance com Peeta diante das câmeras, mesmo sabendo que aquela era uma mera jogada para angariar fãs e patrocinadores.
Como só esta punição não era o suficiente, a edição especial do 75º Jogos Vorazes é bem conveniente aos interesses da Capital: ao invés dos vinte e quatro jovens comuns, os tributos seriam ex-vitoriosos, deixando a Katniss e Peeta nenhuma alternativa além de se apresentarem de novo para os Jogos.
Gosto mais deste livro por ser bastante profundo: a reflexão do ódio e da dor infligidos pela Capital se torna mais profunda a medida em que Katniss vai tomando mais conhecimento da situação em todos os distritos. Além disto, o custo da sobrevivência na arena vai se revelando: não só Haymitch, mentor de Kat e Peeta, pirou e procurou "ajuda química" depois dos Jogos: os vitoriosos do distrito 3 tornaram-se dois viciados em morfina, e há também Finnick Odair, sex symbol do distrito 4 que coleciona amantes e a tortura de uma amada psicologicamente instável.
Fora isso, minha irritação por Katniss aumentou: além das justificativas (que, como Charlotte Bronte nos mostrou, são desnecessárias) para as suas ações, a auto-piedade foi presente em quase todo o livro, coisa que odeio, tanto na vida real quanto na ficção. Outros dois personagens, porém, conquistaram meu coração: Haymitch, que cresceu no meu conceito, passando de um velho chato a um mentor genial; e Finnick, que, por causa da minha eterna implicancia com personagens bonitos demais, devia parecer detestável aos meus olhos, mas tornou-se um dos meus queridinhos.*
*É, não gosto de personagens apaixonados ou bonitos demais. Sim sou chata.
A ESPERANÇA: ou a decepção
AH VÁ. Lá estou eu, na boa, esperando um final escabrosamente bom para essa série genial. Contudo, Suzanne Collins frustrou minhas expectativas: odiei A esperança.
Katniss - cada vez mais insuportável - é manipulada de novo, desta vez pelo núcleo rebelde sediado no distrito 13. Aquela garota forte e corajosa que conhecemos no primeiro livro desapareceu: Katniss se deixa manipular sem grandes reflexões, sendo o símbolo da revolução em troca de exigências que, embora necessárias, eram uma pequena parte para que Kat evitasse o banho de sangue que se seguiria e que uma heroína que se prezasse deveria se opor. A falta de energia de Katniss se reflete no livro: o devorei mais por curiosidade do que por causa do ritmo alucinante que me guiou nos dois outros livros.
Eu costumava ser neutra quanto a Gale, mas minha neutralidade acabou ao ver seu pensamento de Hamurabi: com Beetee (vencedor dos Jogos e brilhante engenheiro, habilidade esta que ajudou os rebeldes), ele planeja diversas armas - mais mortais do que o necessário para que eles vencessem a guerra - para os habitantes da Capital.
O único ponto positivo (para meu lado pseudo-cult, não para meu lado fã girl) foi o número de mortes: mostrou o quão estúpida a guerra é. Contudo, essa reflexão vai pelo ralo quando a propria Katniss apoia a estupidez que é a vingança.
Mesmo não tendo curtido o final, espero ansiosamente pelos filmes. O trailer, liberado há algum tempo, me deixou ansiosa para vê-los.