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15 janeiro 2015

22 junho 2012

Clockwork prince


Minhas opiniões sobre clichês se contradizem. Sim, a sensação “já vi isso – mais ou menos um milhão de vezes” é péssima, mas clichês não seriam tão largamente usados se não fossem pelo menos um pouquinho bons.

Se as pessoas não gostassem deles.

Não tem aquela coisa meio Bella/Edward/Jacob, de um triângulo amoroso que não pode se concretizar graças a insegurança da mocinha (que é, obviamente, seu único defeito de fato) e falhas imperdoáveis (no caso, respectivamente, vampirismo e licantropia) dos heróis? Pois é: Cassandra Clare, adorada por nove entre dez leitores de YA fantástica, abriu mão desse artifício no segundo livro da sua série As peças infernais (prequel para a mais famosa Os instrumentos mortais), Clockwork Prince.

Em ambas as séries, um submundo sobrenatural existe – e Tessa Gray é parte dele. A garota, contudo, é bastante incomum: ela desconhecia seu poder – o de mudar de forma – antes de se mudar para a Inglaterra e ser “treinada” por uma dupla de feiticeiras que a seqüestrou.  Depois de ser salva de suas sequestradoras, Tessa é acolhida pelos Caçadores das Sombras – uma espécie de polícia desse submundo – do Instituto de Londres. Seu novo lar, contudo, vê-se ameçado.

Desde que assumiu a diretoria do Instituto de Londres, Charlotte encontra resistência por parte dos outros Caçadores das Sombras – não por incompetência, mas por ser mulher – imaginem só: se somos raras em cargos de liderança em 2012, no século XIX, então, o estranhamento era maior ainda.

Pois bem: por ter deixado que o Magister – mundano rico conhecedor das artes mágicas e possuidor de um exército de autômatos (daí o nome da série), que pretende seqüestrar Tessa a fim de usar seu poder – escapasse, Charlotte enfrenta ainda mais oposição. Para que o Instituto não passe para as mãos do detestável Benedict Lightwood, uma missão impossível deve ser cumprida: encontrar o Magister em duas semanas.

O defeito que apontei no primeiro livro, Anjo Mecânico, sumiu – não porque Cassandra Clare matou o personagem Will ou mudou seu comportamento detestável, mas uma justificativa boa o suficiente veio a tona para os leitores. Isto, contudo, deu um tom levemente melodramático ao livro: o típico “ai meu deus, sintam pena de mim” se fez presente. O desconhecimento dessa justificativa por parte de Tessa a faz continuar entre a cruz e a espada: ficar com Will, que alterna momentos de comportamento irascível e ternura contida ou com Jem, que está morrendo – ironicamente, graças a droga que o mantém vivo?

A questão do poder feminino é explorada mais a fundo, não só com Charlotte e sua direção no Instituto, mas também com Tessa vencendo pouco a pouco seu horror a coisas não “femininas” – afinal, como andar com Caçadores das Sombras e não aprender a lutar? Embora o livro não se foque tanto em descrever a Inglaterra Vitoriana como Anjo Mecânico, ainda há algumas pitadas aqui e ali, dando toques especiais as passagens onde esta descrição se faz presente. Os diálogos parecem ser o ponto forte de Cassandra Clare: os músculos do meu rosto se organizavam em um sorriso involuntariamente (juro, eu tentei) toda vez que Will e Tessa conversavam – ambos são loucos por livros, e suas referências e debates sobre os mesmos são fascinantes.

Mesmo me decepcionando um pouco com Clockwork Prince e todo seu açúcar, o mundo que a autora criou é fascinante demais para me fazer não querer esperar até março de 2013 pela continuação. Alguém aí tem uma maquina do tempo sobrando?

Nota: 3/5

04 maio 2012

Os homens que não amavam as mulheres (Suécia)


Faz pouco tempo que comecei a realmente assistir filmes: só há cerca de um ano, graças ao falecido MegaUpload, meu interesse pela sétima arte tomou forma. Antes, eu era só sessão da tarde e esporádicos blockbusters no cinema; depois, uma verdadeira miscelânea de diferentes filmes começou a encher a memória do meu computador e tomar espaço no meu coração.
No início, eu não conseguia suportar filmes europeus: comecei por “clássicos” e, mesmo sabendo que aquilo provavelmente traria algo de bom ou inovador depois que eu me pusesse a refletir a respeito, não conseguia deixar de achá-los insuportavelmente lentos.

Com o tempo me acostumei, gostei e consegui até mesmo apontar um culpado para a minha impaciência com a produção cinematográfica do velho mundo: os filmes hollywoodianos. Todos eles são frenéticos, com uma seqüência de acontecimentos planejada de forma tão engenhosa para que o espectador de maneira alguma tenha tempo para tédio. Comparando as versões americana (resenhei aqui) e sueca de Os homens que não amavam as mulheres, isso se torna mais claro ainda.

Mikael Blomkvist está enfrentando alguns dos piores dias da sua vida: seguindo uma pista falsa de um ex-colega, o jornalista de economia denuncia o investidor Wennestrom. Por não conseguir apresentar provas perante o juiz, é condenado por difamação – o que consome todas as suas economias e lhe rende alguns meses de prisão.

Afastado da revista do qual é sócio, a Millennium, Mikael aceita uma oferta bastante inusitada do industrial Henrik Vanger: investigar a morte de sua sobrinha Harriet, cujo corpo nunca foi encontrado. Ao se associar com a jovem hacker Lisbeth Salander – que tem problemas de socialização tão graves ao ponto de precisar de tutela do estado – Mikael descobre fatos e mortes que vão muito além do mistério da complicada família Vanger.


Como disse no início, Os homens que não amavam as mulheres é lento. Embora o livro de Stieg Larsson tenha de fato um potencial para o suspense, isto não se dá sem certo esforço e adaptações no enredo – coisa que os roteiristas suecos não quiseram fazer. Se para um lado pode ser péssimo para aqueles não acostumados a este estilo, por outro, é bem mais fiel ao livro: os elementos principais – sobretudo a gloriosa defesa das mulheres – são preservados.

Impliquei com Daniel Craig como Mikael na versão americana, mas dessa vez não tenho sobre o que reclamar no campo de elenco: Michael Nyqvist encarna o jornalista de forma perfeita, sendo somente heróico o suficiente para salvar sua própria pele – não ofuscando assim a verdadeira estrela, Lisbeth. Noomi Rapace, que a interpreta, supera a já maravilhosa Rooney Mara: os aspectos anti-sociais da hacker me pareceram mais reais por sua interpretação.

Aliás, real é uma palavra muito boa para descrever Os homens que não amavam as mulheres. Como é de se esperar numa série que tenha misogenia como seu foco principal, cenas e relatos fortes são inevitáveis. Por si só, ver mulheres agredidas é desagradável, mas o diretor conseguiu torná-las mais ainda. Sei que é de função do cinema reproduzir a realidade. Não quero que tudo seja feito em Barbie, a princesa da ilha – mas tem certas coisas das quais eu prefiro ser poupada.
Nota: 4/5 

29 abril 2012

Os Vingadores

Não sou lá muito fã de Big Brother. Assisti quase toda a temporada em que Jean Wyllis foi o campeão, e, em momentos de tédio e falta de TV a cabo na praia, pesco dois ou três episódios – não com prazer ou desgosto, mas simplesmente com indiferença.


Mas mesmo estando longe de ser uma fã do programa, me irrito profundamente com as campanhas anti-BBB que são feitas online antes e durante a sua exibição – além dos incontáveis “graças a deus” e “ufa!” quando o programa acaba. Alegam que o Big Brother não traz cultura ou conhecimento para seus espectadores. Mas quem na terra assiste BBB para ficar mais “culto”? Qual seria o problema de entretenimento só por entretenimento?

Essa defesa do BBB acaba funcionando bastante ao meu favor – não pelo reality show da Globo em si, mas sim por outras duzentas coisas que adoro mas que, de fato, não acrescentam em nada no meu “repertório” ou me fazem refletir. Apesar de inconscientemente endossá-la às vezes, odeio essa perspectiva de que tudo na vida tem que ter uma utilidade prática – até mesmo as coisas feitas nos seus momentos de diversão e relaxamento.

Nesta lista de “entretenimento por entretenimento” estão os filmes do multiverso Marvel. Comecei a assisti-los por pura falta de opção – na cidade onde moro, só há um cinema, que tem o dom de quase nunca passar filmes que não sejam de criança/de ação/de comédia – e depois, por ter de fato tomado gosto pelas cenas de ação bem-feitas e produção impecável. Alguns deles têm também o poder de surpreender: adorei as referências históricas nos recentes Capitão América e X-Men: Primeira Classe – este último tão legal que é um dos poucos filmes que me fizeram pagar um indecentemente caro ingresso de cinema mais de uma vez.

Os Vingadores está sendo bastante elogiado no Tumblr, e, apesar de preferir os supracitados, compartilho em parte da empolgação. O enredo em si é bastante trivial para o universo das HQs: o semi-deus rejeitado Loki planeja a dominação da terra. Para isto, ele necessita do Tesseract, uma fonte inesgotável de energia encontrada pelas Indústrias Stark e estudada pela agência de espionagem SHIELD, com as pesquisas comandadas pelo Dr. Erik Selvig.

Depois de capturar o Tesseract, Loki hipnotiza (afinal, ele é um semi-deus bem fraquinho, mas ainda é um semi-deus) o Dr.Selvig e o agente Clint, para que ambos o ajudem no seu propósito de abrir uma fenda no espaço com o mesmo. Fenda esta por onde passariam soldados alienígenas Chitauri que, em troca do Tesseract, fariam com que os terráqueos se prostrassem aos pés de Loki.

Diante da ameaça, Nick, diretor da SHIELD, reinicia a iniciativa Vingadores – um time de super heróis usado para defender os Estados Unidos a Terra. Os Vingadores não são exatamente tão heróicos assim: o seu líder, o Capitão América, acaba de acordar de um “sono” de 50 anos e não está habituado ao mundo moderno; o playboy Tony Stark, o Homem de Ferro, tem problemas com modéstia e trabalhar em equipe; o Dr. Bruce, que ao menor sinal de raiva, pode se transformar em Hulk, matando a todos; a assassina profissional da SHIELD Natasha (ou Viúva Negra) vive entre crises de consciência por seu trabalho e Thor, por ser irmão de Loki, não tem certeza se deve ou não se juntar aos Vingadores.

Talvez o principal problema do filme – que não o tornou tão bom quanto outros da Marvel que assisti – sejam os personagens. Fora Tony Stark – que brilha por sua imodéstia charmosa e ironia sem limites – todos os outros  são muito pouco explorados no tocante as suas personalidades. Desde o início do filme, os seus problemas pessoais e a falta de química entre os Vingadores são bastante enfatizados, e é uma pena tal desperdício. 

De resto, o filme faz magnificamente bem o que se propõe. As cenas de ação são impecáveis, e ocorrem com uma freqüência que torna impossível o tédio. O que alguns milhões de dólares não podem fazer?

Embora de fato não sucite muitas reflexões a primeira vista, Os Vingadores (e outros filmes do gênero) não é exatamente vazio. A defesa as posições americanas perante o resto do mundo é bastante sutil – bem mais sutis do que o ultra-patriotismo em Capitão América, por exemplo – mas estão lá. Através de uma metáfora – onde os inimigos não são seres humanos de países ou etnias diferentes, e sim alienígenas feinhos e poderosos – o indefensável é defendido e justificado. Não sei o quanto essa "mini lavagem cerebral subconsciente" ajudou na construção do império que os EUA são hoje, mas chuto que bastante. O que seria da Terra do Tio Sam sem sua indústria de entretenimento?
Nota: 4/5



23 abril 2012

Anjo mecânico (série As Peças Infernais)


Depois da morte de sua tia (sua única parente viva nos Estados Unidos) a orfã de dezesseis anos Tessa parte para a Inglaterra de 1878 com a esperança de uma nova e melhor vida ao lado de seu amoroso e irresponsável irmão. A recepção que recebe, porém, não é como a esperada: ao invés de ter Nate a esperando no sujíssimo porto britânico, Tessa é recebida pelas Irmãs Sombrias – duas feiticeiras incumbidas de treiná-la para utilizar seu poder (cuja existência Tessa ignorava) a preparando para se casar com alguém desconhecido e bastante poderoso chamado apenas de Magister.

Ao ser resgatada por Will e James, dois Caçadores das Sombras (grupo de pessoas responsável por manter a Lei, evitando choques entre os Habitantes do Submundo e os humanos) Tessa vê que nada é como ela imaginava: todo um mundo sobrenatural se abre a sua frente. Ela não está sozinha ou é uma aberração, mas seu poder é único o suficiente para ser almejado por muitos. Acolhida pela boa Charlotte, diretora do Instituto de Londres (uma espécie de quartel general dos Caçadores das Sombras) ela começa a perceber que nunca reaverá sua vidinha antiga de volta.

Anjo Mecânico é o primeiro livro da série As Peças Infernais, pré-sequencia para  a mundialmente famosa Os Instrumentos Mortais. Confesso que ao começar a ler o primeiro livro desta última série, Cidade dos Ossos, quase desmaiava de sono – por isso, Anjo Mecânico foi uma surpresa muito boa.
A narrativa é frenética – cortes em pontos essenciais, passando de um foco de personagens a outro, fazem com que a leitura flua melhor e largar o livro seja uma tarefa ingrata. As referências a poemas e livros famosos na época não torna a leitura um hipertexto desagradável (como sempre temo ao ver muitas notas de rodapé) e sim enriquecedor.

Não entendo a fascinação que muitos parecem ter pela Inglaterra – na verdade, acho a Terra da Rainha bastante sem graça (salvo o sotaque) se comparada a outros lugares no mesmo continente – mas as descrições de Cassandra Clare da Londres vitoriana são fantasticamente elaboradas, dando um toque bastante especial ao livro. Os costumes também são abordados: Tessa fica bastante chocada com o comportamento de Charlotte – ela usa calças, luta e fala de igual para igual com seu marido Henry.

Faz bastante parte da evolução da protagonista, aliás: no início, Tessa é cheia de não-me-toques, dando demasiada importância ao que era (ou não) esperado de uma dama naquela época. Com o tempo, ela vê que tal comportamento não é adequado a sua nova vida, não servindo ao seu propósito de achar seu irmão.

De forma geral, os personagens são agradáveis, exceto por Will. Sei que arrogância e humor ácido em um par romântico para a mocinha em potencial podem ser transformados em um grande charme – mas Casssandra Clare passou da conta com Will. Usando como justificativa o seu passado desagradável, ele se torna irascível em alguns pontos. A insinuação de um complicadissimo triângulo amoroso entre ele, Tessa e James (que considera Will como seu irmão e é bem mais agradável que o mesmo) também não me agrada muito – talvez seja trauma de Crepúsculo e seus teams. Não gosto de gritinhos de fãs ao assistir adaptações para o cinema – mesmo que, em alguns casos, eu mesma tenha que me controlar para não da-los.