31 dezembro 2014

Misto quente (livro)


Tenho um certo preconceito com Bukowski – o famoso autor alcoolotra não media palavras ao dizer o quão mais importante inspiração era do que aspiração, ao contrário de quase todos os seus companheiros romancistas.

Mas ah, Bukoswki! Se até mesmo os grandes se escondem debaixo da cama, com medo de seus primeiros rascunhos, como seu conselho pode ser válido? Se Guimarães Rosa era um obcecado com revisões – que você afirmava não fazer, depois de uma sessão de escrita bêbada – como acreditar em seus conselhos? Neil Gaiman disse que se você esperar a inspiração, poderá até ser um poeta decente, mas nunca será um romancista. Acreditei nessa premissa e admirei os poemas de Bukowski, evitando os seus romances, mas a curiosidade me venceu e fui ler Misto Quente.

Em Misto Quente temos como protagonista Henri Chinaski, o suposto alter-ego de Bukowski, e seu processo de crescimento em um bairro pobre de Los Angeles. Da infância até o início de sua juventude (e de sua “carreira” no alcoolismo) acompanhamos Chinaski.

É bastante perceptível em Misto Quente a influência de John Fante na escrita de Bukowski – assim como o maravilhoso escritor ítalo-americano (falei dele aqui e aqui) ele não tem papas na língua na hora de mostrar os defeitos de seus personagens, que podem ser pessoas completamente detestáveis ocasionalmente – na verdade, na maior parte do tempo.

Na primeira parte do livro, porém, não temos o algoz em nosso protagonista, e sim em seu pai de mesmo nome – começando pelas primeiras memórias de Henry, não raro o pai é abusivo, estúpido e violento. Conforme a história progride, contudo, os erros de Henry são cada vez mais cheios de consequências para a sua própria vida.

Os Chinaskis tem uma obsessão (não incomum para agora, e muito menos incomum para época, nos Estados Unidos pós quebra da bolsa de Nova York) acentuada para que a sua única prole (ou seja, Henry) se torne um homem rico e proeminente,mas fica claro desde o início do livro que ele próprio não compartilha dessas ambições. Primeiro sua vida se centra em torno de ser respeitado pelos garotos de seu bairro, o que consegue por um tempo limitado graças a seu porte físico avantajado – que, obviamente, lhe dava vantagens leves nos esportes e bastante acentuadas nas brigas de rua, comuns da idade. Um caso crítico de acne (do tipo que faz com que não se veja um pedaço sequer de pele limpa do enfermo) faz com que esse respeito seja completamente perdido, e a descoberta contida nos primeiros goles de cerveja dá, finalmente, um rumo a Chinaski: um emprego que lhe dê o suficiente para beber e alugar um pequeno quarto.

A maior parte dos livros coming of age (ou seja, aqueles que retratam o processo de crescimento de seus personagens) contém em si uma quantidade razoável de momentos de glória, o tal de “me sinto infinito” de As vantagens de ser invísivel ou a viagem de Hazel e Gus a Amsterdã em A culpa é das estrelas. Por mais ferrados que sejam os seus personagens, os escritores tratam como direito universal dos mesmos algumas horas felizes, extremamente memoráveis, periodos de júbilo necessários. Bukowski, porém, ignora esse tal direito – embora Henry tenha lá os seus altos e baixos, os primeiros se devem só a ausência de problemas, os segundos são o completo fundo do poço. Misto quente é recheado de pobreza, desesperança, desespero e solidão, características que acompanhariam o autor para sempre – e como um bom livro quase auto-biográfico, todas elas são expressas de forma crua, com uma linguagem extremamente vulgar e por vezes chocante.


Com revisão ou não, inspiração ou não, Bukowski foi um grande escritor. E mais do que suas polêmicas e seus conselhos nem sempre úteis, isso fala por ele.

6 comentários:

  1. Nossa, não conhecia ainda esse livro. Nunca li nada do autor, mas creio que esse livro seja perfeito pra isso, já que dá pra conhecer tanto o autor como a própria história dele

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br
    Tem post novo sobre o desafio que realizamos, vem conferir!

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  2. Eu tenho MUITA vontade e curiosidade em ler algum livro do Bukowski, várias vezes me deparei com esse livro "Misto Quente", mas sempre acabo deixando para "depois"...

    Beijos, www.rayramii.com

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    1. Misto-quente vale muito a pena! Feliz ano novo :)

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  3. Eu ainda não conhecia esse livro, mas depois do que vc falou eu fiquei tão interessada que você não tem noção *u*
    Adorei!!
    beijos
    http://masenstale.blogspot.com.br/

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