30 maio 2013

[FILME] Terapia de risco



Às vezes parece que todo mundo tem depressão hoje em dia.

Não me entenda mal: não estou diminuindo a importância do chamado “mal do século XXI”, nem subestimando a gravidade da doença para os que realmente a possuem. O problema é que aparentemente há diagnóstico em excesso, onde qualquer tristeza um pouquinho mais duradoura ou problema mais complicada deve ser tratado com uma ajudinha química. Sim, a ciência supostamente deve tornar as nossas vidas melhores, mas obstáculos são algo constante na vida e devem ser enfrentados em estado natural. Se você não tem transtorno de déficit de atenção, não deve tomar Ritalina só porque quer um empurrãozinho para passar no vestibular.



Esse excesso de diagnóstico fica logo claro nos primeiros minutos do filme americano Terapia de risco: quase todos ao redor da protagonista Emily parecem ter tomado alguma medicação para depressão nos últimos tempos. De marcas que exibem suas propagandas em todo lugar, tratando a doença como um fenômeno geral e dando a entender que as pílulas anti depressivas são tão simples como aspirinas ou sabonetes contra acne.

Mas Emily realmente precisa delas. Seu marido, Martin, acaba de sair de uma temporada na prisão, e ainda que sua volta traga uma imensa felicidade, a faz relembrar a época terrível em que ele foi preso quatro anos atrás.



Após uma tentativa de suicídio, seu caminho se cruza então com o do psiquiatra Jon Banks, um inglês para quem tudo vai de forma muito tranquila – ele tem vários turnos no Hospital, pacientes em uma clínica particular e ganhará 50 mil dólares para participar da pesquisa de uma nova medicação para depressão. Que não é a mesma, aliás, que ele receita para Emily: a da jovem mulher, apesar de se provar efetiva depois de algumas semanas, lhe dá como efeito colateral o sonambulismo.

Em estado de dormência, Emily um dia comete um assassinato. Mesmo não sendo incriminado judicialmente, a carreira e o casamento de Jon vão por água abaixo pelo destaque dado ao ocorrido, e o médico se afunda em dívidas. Sua nova obsessão se torna, naturalmente, ir ao fundo do crime cometido por Emily e encontrar os reais efeitos dos anti depressivos para a ocorrência do mesmo.



Terapia de risco é assustador e fantástico. Minhas expectativas para o filme eram bastante altas – eu o vi divulgado em vários veículos de comunicação e li uma ou duas críticas – mas enquanto eu esperava um longuíssimo (mas legal) chá de cadeira sobre os efeitos da depressão na vida de um indivíduo, ganhei um thriller viciante. O filme se usa do recurso da incerteza sobre o que influenciou o ato de Emily, instigando o espectador.

Confesso que fiquei um pouquinho decepcionada com Terapia de risco no início: acreditava piamente que ele faria fortes críticas ao sistema existente entre médicos e fabricantes de medicamentos. Me espantei, portanto, ao encontrar o tal mistério. Depois de refletir um pouco, contudo, conclui que isso foi só um recurso para falar justamente do que eu esperava – as conexões complicadas entre gigantes farmacêuticas (que se utilizam de “bonificações” a médicos, programas de TV e revistas e da boa e velha propaganda) e pacientes.





Sim, existe um certo auxílio de psiquiatras e da cultura de forma geral para que nós estejamos, no mundo ocidental, cada vez mais falsamente depressivos. Como tudo na sociedade, porém, passa por nossa permissão (voluntária ou não) para acontecer – e, nesse caso, da vontade que todos temos de uma ajudinha química (legal e socialmente aceita) para fugir de nossos próprios problemas...



6 comentários:

  1. Gente, o filme parece ser incrível.
    E eu concordo com você, acho que virou moda ter depressão. Logico que quem realmente tem deve tomar os medicamentos e ir ao medico, mas não são todos.

    Beijos
    Pepper Lipstick

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    1. Siim, acho que terapia é necessário para praticamente qualquer um que esteja passando por um momento complicado, mas essa ultra medicação é um pouco complicada...

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  2. Concordo com você, acho que ter depressão hoje em dia virou algo muito comum, e não entendo o porquê, afinal nós temos tudo que precisamos para ser felizes, só que muitos ainda não descobriram isso!
    Achei super interessante seu ponto de vista sobre o filme, e acho que eu concordo, me deu a maior vontade de ver, apesar de não ser muito meu estilo, sempre me pego pensando sobre essa relação das farmacêuticas com os pacientes, afinal, ao meu ver, é totalmente fria.
    Beijos,
    peoples-says.blogspot.com

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    1. O meu problema não é especificamente com a frieza da relação - não espraria nada de diferente, já que é, afinal, uma relação comercial - e sim com a falta de responsabilidade e de mecanismos reguladores pra isso, sabe?

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  3. Adorei a dica de filme! ele parece bem interessante! O que mais achei legal foi que você soube fazer comentários bem espertos sobre o filme. fiquei bem curiosa pra assistir!

    TRASH ROCK

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  4. Estava morrendo de vontade de ver esse filme, principalmente por causa da Rooney Mara. Agora, depois dessa resenha, vou colocar para baixar nesse exato minuto. Espero que ele me agrade tanto quanto agradou você.

    Beijos :)

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