28 maio 2013

[LISTA] Cinco livros que dariam boas leituras obrigatórias

Uma parte considerável dos meus problemas (já que privilegiada, em comparação com a população geral, por estudar em uma boa escola) acadêmicos até hoje se resume em uma pequena palavra: vestibular.

É por causa dele que decoro fórmulas ao invés de raciocínios, suspiro de tédio vinte vezes ao dia e mal consigo abrir a boca de tensão em datas próximas as provas das matérias que menos gosto. Em um aspecto, contudo, tive bastante sorte: embora o estudo de literatura nas escolas brasileiras seja também voltado para essa praga de dez letras, fui presenteada com um professor daquele tipo que só pode ser descrito como “extraordinário”, amenizando a dor de ter que ler o chatíssimo Senhora ou Marília de Dirceu.

Sim, cometo as heresias de não gostar de tais livros “clássicos”. Não estou dizendo que sejam ruins (isso, meus caros, seria estupidez) só afirmo ser errado introduzi-los tão cedo na vida de um estudante, com a finalidade única de responder uma ou duas questões sobre o assunto. Os dramas de Aurélia Camargo são universais, mas é difícil relacionar com a própria vida aos quinze anos.

Depois da longuissima e viajadissima introdução, vamos a lista de hoje: livros contemporâneos que, na minha opinião leiga de mera leitora, seriam ótimas leituras obrigatórias. Todas as obras abaixo (a mais “antiga” sendo de 1995, ano do meu nascimento) mudaram alguma coisa na minha forma de pensar ou incitaram discussões (internas e externas) importantes sobre o mundo, a vida ou mim mesma. Alguns tratam de temas pesados, como transtornos alimentares e suicídios; já outros são mais leves ou se utilizam de artifícios como a fantasia ou a distopia para passar as suas mensagens. Acima de tudo, porém, são livros “pensantes”, que contrariando o senso comum de que a juventude só lê por vontade própria besteirinhas enlatadas, trazem questões essenciais e que sim, deviam ser discutidas na escola...

1. A arma escarlate, de Renata Ventura (resenha aqui)



Não acredito que o Brasil não tenha defeitos ou seja um bom lugar para se viver por um motivo esdrúxulo feito, sei lá, a falta de furacões, mas me irrito em níveis estratosféricos com as críticas sem fundamento ao meu país (já que elas existem demais na sua versão fundamentada para haver necessidade de tal artifício) e, como diria Nelson Rodrigues, o “espírito de vira lata”, que reverencia tudo que vem de fora como isto fosse o correto e natural.

De forma maravilhosa, Renata Ventura critica tal comportamento em seu livro A arma escarlate. Seu protagonista, Hugo, tem tudo para detestar o Brasil: pobre, negro, morador da favela e filho de mãe solteira, sofre com a violência, a escola precária e a péssima moradia em um cointener improvisado pelo governo.

Ao chegar na escola de magia Nossa Senhora do Korkovado, ele conhece os dois lados da moeda: a do desprezo pelo país, personificado em vários de seus professores e colegas, que querem “europeizar” o colégio o máximo possível; e a do nacionalismo, professado por Viny Ypiranga e seus amigos pixies, que valorizam a nossa cultura o máximo possível. O livro em si é, aliás, um exemplo deste último – recheado de mitos nossos e de diversidade cultural, é mais brasileiro do que o samba. Ao discutir de forma tão lúcida a nossa cultura, drogas, corrupção e desigualdade social, A arma escarlate ganhou espaço cativo no meu coração. 

2. Feios, de Scott Westerefeld



Dezesseis anos é uma data especial no mundo de Tally: no décimo sexto aniversário,passa-se por uma cirurgia que dá saúde impecável, aparência “perfeita” e um passaporte para Nova Perfeição, o bairro onde “Em festa” é um estado permanente.

Apesar de minha relação com a protagonista ser de amor e ódio, Feios fala de forma maravilhosa sobre a padronização das aparências e comportamento, tema presente de forma massiva no cotidiano de quem quer que seja – e mais angustiante quando se é jovem. Além do mais, uma discussão sobre uma ilusão superalimentada por qualquer um abaixo de dezoito se faz presente: que a maturidade, a independência e a idade resolverão todos os nossos problemas.

3. Extras, de Scott Westerfeld (resenha aqui)



Na capa de Extras há uma palavra alemã bem curiosa: “zeitgeist”. Como tudo nessa língua linda (não estou sendo irônica) o significado não é simples, mas pode ser abreviado como “espírito do tempo” ou “espírito de uma geração”.

Esta última tradução cabe melhor para o livro de Scott Westerfeld, que, segundo um crítico, captura bem o zeitgeist de nossa geração. Isso porque no universo de Extras, tudo é comprado com méritos – para adolescentes, conseguidos com boas notas ou pequenos serviços (como ser babá).

A busca pelo melhor faz parte do ser humano, e por isso é óbvio que todos os jovens da cidade querem mais – o outro caminho, ligeiramente mais penoso, é ser famoso. Isso mesmo: graças a um ranking computadorizado, a fama é medida e, portanto, méritos são atribuídos.

Vídeos, fofocas, furos – tudo vale para aparecer. Embora eu não concorde muito com o exagero de que a vida moderna roubou completamente a nossa privacidade (tê-la ou não é, na maior parte dos casos, uma opção) um livro como Extras é relevante em tempos de picuinhas no Facebook e vlogs diários no YouTube.

4. As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky (resenha aqui)



Como eu poderia deixar esse livro de lado?

Venha com o doce Charlie para o seu primeiro dia de aula depois de um verão “daqueles” – o seu melhor e único amigo se suicidara algumas semanas antes e agora ele se via sozinho no cruel ensino médio.

Como se não fosse o suficiente, Charlie também tem seus probleminhas: extremamente sensível e tímido, sofreu de depressão do passado. Felizmente ele logo conhece Sam e Patrick, dois meio irmãos que lhe ofertam a sua amizade e impedem que o garoto caia no abismo de novo.

As vantagens de ser invisível fala de virtualmente quase tudo relacionado ao universo jovem: depressão, amizade, primeiros amores, insegurança... Com um retrato fiel (mas não tão cru) como My Mad Fat Diary, um dos meus livros favoritos de todos os tempos renderia aquele tipo de discussão interminável em sala, que ultrapassa o horário da classe e se estende nos corredores. Pudera: tem de ter um coração de pedra para não se emocionar e envolver com Charlie...

5. Garotas de vidro, de Laurie Halse Anderson (resenha aqui)



Cassie, a melhor amiga de Lia, acaba de morrer.

O que já seria chocante por si só se torna ainda mais intenso por um detalhe: Cassie perdeu a vida para um mal semelhante ao que Lia supostamente está se curando – um transtorno alimentar.

Uma aposta das meninas leva a duas doenças ao mesmo tempo distintas e bastante semelhantes – a anorexia para Lia e a Bulimia para Cassie. Psicólogo, internação, vigilância diária – nada resolve o problema de Lia, que se vê em uma espiral de exercícios, dieta e auto-mutilação cada vez mais intensa.


Sinto uma certa glamurização dos transtornos alimentares as vezes – não é nada declarado, mas sim sorrisos leves de admiração, cultos exagerados ao corpo magro e a sensação de que para algumas pessoas qualquer sacrifício pode valer a pena. Garotas de vidro mostra os transtornos alimentares como eles realmente são – horríveis e destruidores.  Alguns o considerariam pesado demais para ser prescrito para adolescentes – o livro é nauseante como a vida real. Mas também não são os contos de fada?

11 comentários:

  1. Só li "As vantagens de ser invisível" e acho que deviam incentivar a leitura do livro na escola. Os outros, mesmo sem ter lido, acho que tratam de assuntos que vale a pena debater.
    Beijos,
    Carissa
    www.carissavieira.com

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  2. Adorei as indicações, a Arma de Escarlate me interessou bastante! :)
    Como você disse, esses livros que citou deveria ser leitura obrigatória para os jovens, para que ele possa compreender o mundo e suas dificuldades. Até acrescentaria o livro Extraodinario, da R.J. Palacio, que parecer ser infanto-juvenil, trata de um assunto importante. A discriminação das pessoas com aquelas que possui alguma deficiência. Ainda não terminei de ler, mas já posso dizer que é um livro muito bom para refletir.

    beijo
    http://criandorabiscos.blogspot.com

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    1. Ei Carissa, não li Extraordinário ainda, mas acho que já posso concordar com você quanto a isso haha Até pelas circunstâncias no qual o livro foi feito: a autora ficou comovida depois que sua filha pequena (ou filho, não lembro) não conseguiu parar de chorar ao ver uma garotinha com a mesma deficiência do protagonista, por desconhecer completamente o que aquilo era...

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  3. Feios e As Vantagens de ser Invisível são leituras obrigatórias mesmo! Rs.
    Um amo pelo teor distópico diferente de qualquer coisa e o outro pelo sentimentalismo exagerado do protagonista, que é a graça da história! <3
    Amei o post!
    Beijo,
    Vinícius - Livros e Rabiscos

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  4. Acho super válido introduzir leituras mais atuais no currículo escolar, quem sabe assim a gente não veria mais jovens interessados em literatura, né?

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  5. Feios <3 Porém abandonei Extras '-' AUIEHIUAEHUA
    A Arma Escarlate está parado na minha estante há um tempinho, ainda não me deu o nível alto de vontade pra começar a ler.
    Muito boa sua lista!

    Beijos,
    Nathália
    Nova resenha em Livroterapias

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    1. Cara, larga tudo e vai ler A arma escarlate tipo AGORA. É muuito bom!

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  6. Muito legal a idéia do post. Já tenho Feios e muita vontade de lê-lo. Também quero ler Garotas de Vidro, parece bem tenso e interessante.
    Bom feriado :D
    ;*

    www.redbehavior.com

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  7. Oi Isabel!
    Ai, eu confesso que também não curto esses livros de vestibular! Só li quando fui obrigada mesmo.
    Garotas de Vidro seria ótimo para ler na escola, acho que é um livro que gera muitas discussões e serve de alerta para os jovens.

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  8. Estou lendo bastante coisa positiva sobre "A Arma Escarlate" e tenho ficado bem curiosa. Ainda mais por unir um universo tão apaixonante quanto Harry Potter e coisas, digamos, bem tupiniquins! Acho que a mistura pode ser boa!

    E dos outros da lista, só li "Vantagens" e confesso: não me cativou nenhum pouco! Talvez por eu não ter conseguido me conectar com Charlie, ou por ter só gostado do Patrick, esse livro me decepcionou. Acho que muito por eu ter criado expectativas altas por causa do hype ao redor do filme, quem sabe.

    :)

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  9. Oi, Isabel! Primeiramente, parabéns pelo blog e obrigada pela visita no meu!

    Já vi algumas resenhas sobre 'Feios' e 'Extras e ambos estão na minha lista. 'As Vantagens de Ser Invisível' é tão simples e tão profundo, né? Um dos meus favoritos (apesar de, como uma boa estudante de Letras, eu gostar de livros de "vestibular" hahaha)!

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