Mostrando postagens com marcador serial killer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador serial killer. Mostrar todas as postagens

22 janeiro 2013

ESTRÉIA: The Following




Já experimentei aquela tal sensação religiosa quanto a um livro ou filme algumas vezes. Não raro uma obra nos preenche, fala por nós de maneira tão eficiente comparando-se ao “ver a face de Deus” (o tal do amor pela definição do musical Les miserables). Minhas habilidades me impedem de descrever isso de maneira realmente eficiente, mas você provavelmente sabe do que eu estou falando.

É claro que essa sensação muitas vezes ultrapassa a mera satisfação e evolução pessoal – como tudo na arte, os sentimentos fortes causados por ela são passíveis de interpretação. Segundo Edgar Allan Poe, a morte é a forma mais pura de beleza e a insanidade da arte deve ser sentida, não somente apreciada – dois postulados que juntos inspiraram o professor universitário Joe Carroll a cometer catorze mortes cruéis anos trás.

28 março 2012

Criança 44


Como solucionar uma série de crimes em um país cujo governo nega a existência dos mesmos?
É essa a pergunta que Liev Demidov se faz. O leal agente da MGB – polícia secreta soviética –de Stalin torturou, adulterou e matou em prol do regime, do tal do “bem maior”, de uma desejada paz e justiça social.
Contudo, Liev é acusado de traição sem razões aparentes, e é isolado com sua esposa Raíssa em uma cidade do interior, onde ele é “rebaixado” da elite do funcionalismo público soviético para um mero soldado de uma milícia –como não se admitiam a existência de crimes “comuns” na URSS de Stálin, a milícia teoricamente funcionava como uma espécie de “segurança” para coisas simples como brigas de bar, rixas de família e outras coisas do tipo (mas obviamente acabava fazendo muito mais).
Quando, depois de uma caminhada, ele encontra o corpo de um garotinho, Liev entra em choque: meses antes ele havia convencido a um de seus subordinados que a morte de seu filho – dada nas mesmas condições e com as mesmas características do garotinho que Liev encontrou – não era um assassinato, e sim um mero acidente de trem – afinal, afirmar ao contrário seria traição, uma transgressão que seria vista como uma dúvida da competência do estado e ameaça à paz social.
Como forma de se redimir moralmente e, acima de tudo, de encontrar uma razão para viver, Liev começa a investigar os assassinatos, descobrindo que eles não ocorreram somente naquelas duas situações – cerca de quarenta e quatro pessoas, em sua maioria crianças, foram mortas nas proximidades de estações de trem por toda a União Soviética, tendo em comum um punhado de sujeira na boca e um barbante no tornozelo.
E é essa versão tosca das idéias de Marx, Engels e outros grandes que Tom Rob Smith nos apresenta: a União Soviética. Embora o livro apresente a consciência de que vários problemas sociais foram resolvidos, não deixei de lembrar de 1984, de George Orwell: a descrição do medo do povo em geral de acabar em um gulag (campos de trabalho forçado, usados muito no stalinismo) por um crime qualquer (que nem sempre de fato foi cometido) não se diferencia das apreensões de Winston Smith. Viver cercado, sem poder questionar ou nem sequer reclamar: era isso que, aos olhos do autor, era reservado aos soviéticos.
A “cegueira” do governo soviético quanto aos crimes chamados “comuns” e “oriundos de uma sociedade capitalista” é também bem trabalhada: segundo o regime, assassinatos e roubos eram efeitos colaterais de uma sociedade capitalista desigual (sim, estou sendo redundante).  Concordo em parte com essa lógica: creio sim que a maioria dos crimes seja cometido por pessoas desesperadas, que transmutam uma personalidade com princípios morais para uma sem escrúpulos diante do desespero. Contudo, ignorar completamente o tal do banditismo por pura maldade é extremamente perigoso.
Mas é claro que tais crimes não poderiam passar em branco, sem uma justificativa: seria muito suspeito, e fugindo a qualquer tentativa de controle social. Para isto, eram usados bodes expiatórios: doentes mentais, homossexuais e supostos “inimigos do estado”, anunciados como espiões contratados pelo ocidente que objetivavam acabar com a estabilidade da sociedade soviética. Descobrir esse tratamento dado aos homossexuais, aliás, foi bastante chocante para mim – não consigo associar nenhum posicionamento verdadeiramente de esquerda ao preconceito, mesmo sabendo que, nos anos 50, o termo “homofobia” ou qualquer noção de o quão errado isto era existia.
Criança 44, como um bom thriller, não te deixa respirar – tão logo que um mistério ou um problema é resolvido, outro, ainda mais complicado, vem a tona, e tudo se amarra numa perfeita e coerente teia de acontecimentos. Não sei se é minha falta de familiaridade com o gênero, mas não vi nenhum grande defeito em Criança 44 – além do supracitado, o livro é bem-escrito e parece ter demandado uma grande pesquisa por parte do autor.
Mesmo não acreditando no sobrenatural e sabendo que a possibilidade de que um serial killer me ache é mínima; não gosto muito dessas coisas. Sei que não é real, mas quando estou sozinha no escuro, toda a racionalidade é deixada de lado, o impossível se torna real. De forma positiva, Criança 44 foi leve o suficiente para não tirar meu sono – então, provavelmente me aventurarei mais no nem-tão-fantasioso reino dos serial killers no futuro.
Nota: 5/5
Esse post faz parte do Desafio Literário 2012.

10 março 2012

L16 - O perfume


Jean-Baptiste Grenouille poderia ser só uma de várias crianças rejeitadas na Paris do século dezoito. O órfão (sua mãe foi condenada à morte pelo infanticídio de quatro crianças, abandonadas debaixo do balcão de uma peixaria – destino quase compartilhado por Jean-Baptiste) possuía um olfato sobre humano: desde a mais tenra idade ele aprendeu a reconhecer, catalogar e lembrar os mais diferentes tipos de cheiro, mesmo que o sentisse uma vez só; mesmo que ele estivesse a quilômetros de distância; sendo ele bom ou ruim, natural ou não.
E também aprendeu rápido o que as sensações olfativas causavam nas pessoas: com apenas alguns meses de idade, foi rejeitado por uma ama-de-leite, por não possuir cheiro algum – fato considerado demoníaco por uma mulher do século dezoito, sem muita informação e acostumada ao cheiro agradável de vários bebezinhos. Na creche para o qual foi encaminhado, não foi muito diferente: a cuidadora, uma mulher dura e sem olfato, não era atenta o suficiente para perceber as diversas tentativas de assassinato de Grenouille feitas por outras crianças – ele era simplesmente estranho demais para elas. O garoto, contudo, a incomodava: porque ele conseguiria prever a chegada de alguém com minutos de antecedência? Porque ele não tinha medo do escuro como todos os outros?
As interrupções dos pagamentos por parte da ordem religiosa que cuidava de Grenouille dão a esta mulher motivos o suficiente para se livrar dele, deixando-o para morrer como semi-escravo em um cortume. De novo, porém, ele contraria as regras da natureza: ao invés de perecer pelo trabalho duro e insalubre e a pouca comida, ele se torna um empregado valioso, ganhando alguns trocados e até obtendo folgas para andar por aí. Seu interesse, porém, não era bebida ou mulheres como havia de se esperar, e sim sentir todo e cada cheiro existente na cidade-luz.
Bom, embora filmes que retratam tempos tão pretéritos quanto o final do século dezoito insistam em dizer o contrário, a Paris daquela época não é o que consideraríamos, para os padrões modernos, agradável: tudo era sujo e fedido, graças a falta de noções da higiene das pessoas em geral e a inexistência de saneamento básico. Grenouille sabia disto como ninguém, e se prendia à uma brisa de mar como sua melhor lembrança olfativa. Um dia, contudo, isto muda: ao passar por um jardim qualquer, sente o cheiro de uma moça, um cheiro maravilhoso e inebriante. Enlouquecido, enquanto sorve seu aroma ele a assassina, em um gesto de pura paixão – não por aquela moça e por sua beleza, e sim pela sensação olfativa que ela lhe proporcionava. Esse é o pontapé inicial numa busca incessante pelo perfume perfeito, pelo perfume que lhe tornaria o maior alvo, a escolha mais óbvia, o personagem principal de um sentimento nunca antes lhe dispensado – o amor.

As descrições do autor são maravilhosas: focando no cheiro, sentido subestimado e esquecido, ele faz com que as páginas do livro pareçam impregnadas pelos mais diversos aromas, ricamente descritos (o que me lembra Escola dos Sabores, que faz o mesmo com o paladar). Meu mundo olfativo era dividido em três grupos até então – cheiros bons, neutros e ruins – mas O perfume me fez perceber a complexidade e a singela beleza deste sentido. Ele não se fia muito em descrições físicas – não sei a cor dos cabelos ou olhos do personagem principal, por exemplo – mas há algum tempo não me sinto tão “dentro de um livro” como com O perfume.
Cartaz do filme *_*
As páginas também estão inebriadas de paixão: não aquela paixão entre amantes, ou uma paixão saudável por algo que se goste de fazer, mas sim uma paixão doentia por parte de Grenouille pelo aroma perfeito. É a sua única característica que o faz humano: baseado nela, ele mata, morre, sente-se feliz ou triste. A única beleza que conhece é a olfativa; e não sente nojo de nada até que isto se ponha em seu caminho.
Pode-se concluir que o livro é maravilhoso pelos meus comentários acima e realmente é, exceto por uma parte – o final. Embora eu acredite que só este fator não deve dissuadir ninguém de lê-lo, o final é tosco, terrível, já seria bastante deslocado em um livro medíocre, portanto certamente não faz jus a O perfume e o grande livro que ele poderia ser.
Nota: 4/5
Esse post faz parte do Desafio Literário 2012, e o tema deste mês é Serial Killer.