09 maio 2012

A guerra dos tronos


Neste aspecto a minha terrível memória cronológica me traí, mas tudo me leva a crer que meus primeiros escritos foram narrações chatas do meu cotidiano em diários perfumados, cor-de-rosa e trancados com uma chavinha inútil. Com canetas gel coloridas e brilhantes, algumas palavras sobre meu tedioso cotidiano – em geral imitando muito pobremente o estilo de Meg Cabot em O diário da princesa – eram escritas nos meus (hoje um pouco menos piores) garranchos.

Depois, evolui, mas só um pouquinho: tirava folhas em branco da impressora, dobrava-as cuidadosamente no meio e, por falta de coordenação motora para fazê-lo, pedia que minha mãe as grampeasse. Assim nasciam pequenas historinhas, em geral sobre bruxas ou espiãs (as duas obsessões da minha infância) ou bruxas-espiãs-detetives (éé) escritas com giz de cera e com alguns desenhos (leia-se: bonecos de palito e massas indistintas que deveriam representar casas e animais) ocasionais.

Com Harry Potter e a Internet, tudo mudou. As palavras de JK Rowling foram as primeiras a me enfeitiçar: por causa delas, experimentei a gloriosa sensação de querer viver dentro de um livro, partilhando das aventuras de seus personagens e de outras mais – é bom viver na sua cabeça e gostar disso. Mas até mesmo para uma pré-adolescente, era óbvia a impossibilidade de “entrar” dentro de um livro, por maior que meu desejo fosse. A Internet fez com que eu arranjasse um substituto que, apesar de ser um nada em comparação a uma carta de Hogwarts, ainda é fascinante: escrever Fan Fics.

Mas não é das minhas (inúmeras e terríveis) Fan Fics que quero falar, e sim do tal do querer estar dentro de um livro: por mais que tenha tido boas leituras nos últimos anos, há algum tempo esta sensação estava ausente das mesmas. Muitos livros me cativaram, me fizeram sorrir, chorar ou pensar na vida de forma insistentemente chata e melancólica; mas nenhuma chegou a apoteose me apresentada por Harry Potter. Depois de ler A Guerra dos Tronos, cheguei a conclusão de que não preciso mais disso: a minha admiração pela criação de George Martin vale por uma vida. Sei que pareço hiperbólica – hiperbólica como os críticos culturais de jornais gringos de quem em geral rio de ou desprezo – mas quem leu A Guerra dos Tronos sabe do que estou falando.

Numa terra onde verão e inverno podem durar anos, Eddard Stark é o senhor de Winterfell e guardião do Norte dos Sete Reinos. Gostaria de descrever Lorde Stark como “tão duro como o clima de suas terras” como vi em mil lugares – mas, mesmo soando bonito, não seria exatamente verdade. O fato é que os soberanos dos Sete Reinos são moralmente podres até a medula, e George Martin não nos poupa das atrocidades da corte.

Eddard Stark é levemente diferente: não faz uso de prostitutas (tendo apenas um filho bastardo, coisa raríssima) e dá aos seus julgados uma morte limpa e rápida. Sendo um dos melhores amigos do rei, Robert Baratheon, é a primeira opção quando o mesmo necessita nomear uma outra Mão – uma espécie de primeiro-ministro – depois da morte do último, Jon Arryn.

Porém existem mais mistérios nos Sete Reinos do que Eddard gostaria de lidar com: tanto a convalença de Bran Stark, seu segundo filho, quanto a morte de Jon Arryn, a última mão, se deram em condições tão peculiares que fazem com que Eddard tema por sua própria segurança na corte e de sua família em Winterfell. Seu bastardo, Jon, também tem que lidar com desconhecido à sua maneira, se juntando a Patrulha da Noite, o grupo de desajustados designados para proteger Os Sete Reinos de tudo que há de sobrenatural e perigoso para além da Muralha. Uma ameaça vinda de além-mar completa o cenário: Viserys Targaryen, herdeiro legítimo dos Sete Reinos – cujo trono foi usurpado por Robert e os demais senhores numa guerra – acaba de casar sua irmã Daenerys com Khal Drogo, o rei e general de uma tropa de mais de quarenta mil soldados que destruiriam os Sete Reinos num piscar de olhos.

Não consigo achar um adjetivo suficientemente bom no vernáculo para A Guerra dos Tronos, por isso talvez Supercalifragilisticexpialidocious caiba bem. A trama é inacreditavalmente bem construída, e a mistura de costumes de tempos medievais com elementos sobrenaturais e jogos políticos que nos soam como velhos conhecidos – mesmo que se passem em um universo paralelo – cai como uma luva.

George Martin realizou vários milagres em A guerra dos Tronos. Embora a tradução não ajude muito, o seu estilo é, ao mesmo tempo, agradável e direto, e ele conseguiu com a narração sob o ponto de vista de inúmeros personagens não fosse confusa. Aliás, o milagre maior reside nos personagens: em geral, livros que os possuem em demasia não construem muito bem a personalidade de mais do que dois ou três, dando-nos poucas pistas sobre o resto. Já A guerra dos Tronos não: mesmo antes de assistir a fantástica adaptação da HBO para os livros, eu conseguia visualizar até mesmo os secundários, com seus tiques e maneiras de agir. Os principais, por sua vez, chegam a uma profundidade poucas vezes encontrada, do tipo que lhe faz pensar no personagem como um amigo íntimo ou membro da família.

Como disse, é o primeiro livro em muito tempo que faz com que eu queira viver dentro dele, nem que seja por uma hora ou duas – e não tenho muita vergonha de admitir que me pego sonhando acordada sobre uma excursão à Muralha.

OBS.: Não comparei A Guerra dos Tronos a O senhor dos Aneís porque não acharia agradável encontrar uma bomba na minha caixa de correio ou algo do tipo. Fãs de Gandalf podem ser bem violentos as vezes.
Nota: 5/5

12 comentários:

  1. Hey
    sou apaixonada pelo seriado!
    Sempre fico namorando os livros na livraria HAHAHA

    As vezes eu acho que Game of Thrones se passa aqui no RJ pq o Winter is coming.. forever né HAHAHAHA

    A introdução da resenha ficou ótima, amei!
    Nossa faz tempo que não escrevo fanfics, olha que estou cheia das ideias.

    beijos e uma ótima quinta
    Nanan - Obsession Valley

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  2. Todo munda super bem dessa serie
    E os livros são enormes, mas nunca tive a oportunidade de conhecer a fundo ...

    Beijos
    @pocketlibro
    http://pocketlibro.blogspot.com

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  3. Cara, acredita que MORRO de preguiça? Não sou muito fã de universos nesse estilo, meio medieval. Enjoei depois de jogar D&D, depois de O Senhor do Anéis e depois de tudo. Fiquei saturado, como os vampiros. Conheci GOT com a série, na modinha, e fiquei surpreso com a quantidade de sangue pop nos tempos antigos. Porque é pop, tem batida, não é chato nem enrolado. Você não é a primeira a me falar que estou dando mole e que preciso gastar um dinhero bom com esse tomo. Nas férias, será o primeiro livro que lerei. E prometo que você vai ser a primeira a saber. Se segura.

    Sobre seu comentário lá no Alienrique, acho que todos nós somos masosquistas. Eu sou do tipo que é viciado em tristeza para escrever. Feliz não consigo, bem! Não sai nada! Aí eu entro num ciclo de me acabar, de fazer mil merdas, ficar com ressaca moral pra ter sobre o que escrever depois. Será que é me forçar? Acho que não, pois é natural. Dores geram cores, mesmo que em tons de cinza, pra mim.

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  4. Não tenho interesse pela série no momento, embora eu ache-a interessante em demasiado. Todavia, adorei sua resenha... como sempre explanando de forma clara e bem elaborada sua opinião. Gostei muito.

    Um abraço!
    http://universoliterario.blogspot.com.br

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  5. Comprei todos os livros por causa da série e eu ainda nem comecei a ler HAHAHAHA adorei a sua resenha (:

    Beijos,
    Marinah | Blog Marinah Gattuso

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  6. Só leio elogios á esse livro, à série em geral, com certeza quero lê-lo um dia, mas por enquanto, vai ficar em segundo plano, minha lista de leitura está um pouco extensa. Gostei do seu post, uma resenha diferente do que vejo normalmente por aí.

    Beijos ><
    Meu outro lado

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  7. Se isso fosse uma petição ou algo do tipo, eu facilmente poderia assinar! Desde o momento em que você disse que foi Harry Potter que te fez querer viver dentro de um livro a parte em que disse ter reencontrado essa vontade com Guerra dos Tronos, poderiam ser palavras minhas também! O universo criado por Martin é tão rico que às vezes eu paro a leitura só pra me sentir abismada. É cada coisa, cada detalhe que só aumenta minha vontade de novos livros do cara. No momento estou no quarto livro, e só posso dizer que a genialidade do cara não diminui.

    E outra que acho bobeira querer comparar autores. Martin, Tolkien e Rowling são únicos a maneira de cada um. ;D

    Beijo!

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  8. Não pude deixar de rir quando vi o título do post. Tem umas garotas no meu colégio que são absolutamente obcecadas por guerra dos tronos.
    De qualquer forma, eu adoro tramas que envolvem fatores medievais, e também adoro enredos bem-construídos, como você disse. Realmente acabou me interessando.

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  9. Pelos céus, eu preciso realmente ler esse livro. Comprei o box com os três primeiros livros, mas só vou lê-los nas férias. Enquanto isso estou me divertindo lendo os livros do magnífico Tolkien, que sinceramente, não fico puta pela comparação com o Martin. Mas ainda acho que Tolkien ganha uns pontinhos a mais, só vou comprovar isso quando ler A Guerra de Tronos. Estou assistindo a série também e estou amando demais. Já virou uma das minhas favoritas.

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  10. Eu quero MUITO ler essa série! Sempre vou à livraria fico olhando os livros, com vontade de comprar; mas quando penso que é uma série... (E cada vez mais os livros vão ficando mais volumosos), eu desanimo. :/

    Essas histórias de aventura, mistério e fantasia, são um prato cheio pra imaginação.

    Bjs ;)

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  11. Faz um bom tempo que o meu namorado comentou que estava assistindo a série, que eu nem sabia que existia, e então ele contou a história e que era baseada no livro. Ok, esqueci no mesmo dia do que se tratava a história pq esses livros raramente me atraem :/ vejo todo mundo falando e mesmo assim não sinto nem mesmo curiosidade em ler (sim, pq as vezes eu fico curiosa mesmo não sendo o gênero que eu gosto de ler heheh)
    De qualquer forma, eu adorei sua resenha! Achei muito fofo você contando das canetas de gel (ai que saudade!), das histórias que você inventava hihihi e sobre sentir vontade de entrar no livro, também já aconteceu comigo, apesar de poucas vezes.

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  12. Concordo em número e grau com o que você diz. Depois de Rowling, Tolkien, Martin é o que me sustenta agora. Estou no terceiro livro e continuo amando a série.
    Você escrevia fanfics? Publicava em algum site? Porque eu gostaria muuuuuito de ler uma delas. hein, hein? *---*
    Lembro-me que tive que pegar o livro emprestado na biblioteca duas vezes - pelo prazo curto para devolução. E ele vivia alugado! Foi difícil... Mas agora peguei emprestado de um também fã amigo meu.
    Eu amaria ver a série da HBO, porém 'tempo, cadê você?'. Triste... =S
    Adorei a resenha. Para mim, o livro é épico!

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